Política

Família de Jayme Miranda identifica com o filme 'Ainda Estou Aqui'

Relato histórico dos parentes de Rubens Paiva tem semelhanças com alagoano desaparecido na ditadura militar

Por Emanuelle Vanderlei - colaboradora / Tribuna Independente 01/03/2025 08h00 - Atualizado em 01/03/2025 08h37
Família de Jayme Miranda identifica com o filme 'Ainda Estou Aqui'
Sumiço do deputado Rubens Paiva ocorreu em 1971, enquanto Jayme Miranda desapareceu em 1975; até hoje nenhum dos dois teve seu corpo encontrado - Foto: Reprodução

A ditadura militar no Brasil, que chegou ao fim há 40 anos, ainda é uma ferida aberta na história. Milhares de famílias perderam seus entes queridos, e muitas delas até hoje vivem a dor de não terem respostas concretas do Estado sobre o que aconteceu, e onde estariam seus parentes sequestrados pelo estado e desaparecidos.

De acordo com o historiador Geraldo Majella, centenas de alagoanos foram presos políticos naquele período, não há até o momento um número preciso. Entre eles, seis foram mortos: Odijas Carvalho de Souza, José Dalmo Guimarães Lins, José Gomes Teixeira, Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão e Manoel Lisbôa de Moura. E em uma situação ainda mais assustadora, há duas pessoas que estão desaparecidas até hoje: Jayme Amorim de Miranda e Luiz Almeida Araújo. Outro desaparecido político é Túlio Roberto Cardoso Quintiliano, que foi preso na ditadura chilena em 1973.

A dor dessas famílias ganhou visibilidade mundial nesse momento com a arte cumprindo um papel social, que muitas vezes traz à tona questões políticas importantes. Neste final de semana, mais precisamente no domingo, 2 de março, em Los Angeles, nos Estados Unidos, o país vive a grande expectativa de ganhar o seu primeiro Oscar.

O prêmio mais conhecido do cinema mundial pode vir com o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Sales, que concorre em três categorias: melhor filme, melhor atriz e melhor filme internacional). A história, baseada no livro de Marcelo Rubens Paiva, conta a história da família de Rubens Paiva, engenheiro que foi levado de sua casa por representantes do estado para um depoimento e nunca mais voltou. O drama traz a ótica da esposa, Eunice Paiva, e tudo o que a família enfrentou ao longo de décadas esperando notícias de Rubens.

Ao fazer isso, o filme trouxe identificação em quem viveu (e vive até hoje), o mesmo sentimento. Em Alagoas, a família do jornalista Jayme Miranda se viu nas telas. Olga Miranda, filha dele conta como foi o sentimento.

“Para mim, o filme já foi premiado. Por toda coragem que o Walter teve, que a Fernanda Torres teve. O desempenho dela foi isso, me arrepiou e me emociona profundamente, porque a história dele é muito semelhante à nossa. É uma luta que nós temos, é, uma quantidade de pessoas desaparecidas no país, e temos pessoas mortas e isso ainda não foi apurado devidamente. Então o filme, ele traz essa receptiva muito forte”.

Olga era uma jovem de apenas 14 anos, e acompanhou sua mãe Elza em uma peregrinação parecida com a de Eunice Paiva, na busca pelo marido. “A minha mãe começou a fazer a mesma coisa que a Eunice, é procurar na Associação Brasileira de Imprensa nos organismos internacionais, que na época tinha a Anistia Internacional, na OAB nacional. Então, também falar com aqueles bispos, que estavam lá tentando juntar aqueles documentos todos de presos políticos. Então, ela começou essa busca, e não falava nada para os filhos, mesma postura da Eunice. Só eu que fiquei com ela percorrendo, mas os outros não sabiam de nada”.

O alagoano teve uma atuação importante no cenário nacional de resistência contra o regime. Ele tinha um jornal que muitas vezes foi atacado fisicamente em sua estrutura por assumir uma postura de denúncia, A Voz Do Povo. Segundo Olga, ele foi preso em 1964, logo depois do golpe militar. “E aí, porque ele não estava bem, liberaram ele junto com o Dirceu Lindoso, que é um escritor alagoano que também escrevia para o jornal A Voz Do Povo. Ele passou quase um ano preso e em 1965 foi libertado, mas como ele teria que ficar se apresentando o tempo todo no quartel, se escondeu com a minha mãe, foi para Recife e de lá para o Rio de Janeiro. Ele fugiu com ela e depois mandou buscar a gente [filhos]. A gente morou 10 anos lá no Rio de Janeiro”.

Vivendo clandestinamente no mesmo estado em que Rubens Paiva desapareceu, a história da família de Jayme Miranda a partir desse momento parece se confundir com a do filme. Rubens desapareceu em 1971, Jayme em 1975. Até hoje nenhum dos dois teve seu corpo encontrado.

Como retratado sobre Rubens no filme, Jayme também não compartilhava suas atividades políticas com a família. “Do mesmo jeito que a Eunice, a postura da minha mãe foi silenciar. Porque ela não tinha o que dizer, na verdade ela não sabia nada sobre as atividades políticas do meu pai, ele não conversava sobre isso”. Para despistar, ele usava o conhecimento como disfarce. “Ele falava línguas estrangeiras e ele falava para minha mãe que trabalhava com tradução do jornal. A gente só veio saber depois”.

Ele passava dias fora, e voltava. Mas saiu de casa no dia 4 de fevereiro, e nunca voltou. “Aí no dia 9, é o aniversário dos meus dois irmãos mais novos e ele nunca deixou de estar presente no dia do aniversário dos meninos. Então, quando ele não voltou para o aniversário, porque ele desde o dia 4 não aparecia, nem dava notícia. Então, a minha mãe disse: ‘Agora eu não tenho mais dúvida, ele realmente foi preso’”.

Nesse momento, Elza iniciou uma busca que foi até o final da vida sem respostas. Olga lembra que foram meses de peregrinação permanente. “A gente ficou durante seis meses fazendo essa busca ativa, só que minha mãe não tinha emprego, não tinha dinheiro, quem mandava dinheiro era meu avô. A mesma situação que Eunice passou financeira com quatro filhos para criar. Minha mãe disse ‘eu tenho que voltar, eu tenho filhos para criar, infelizmente a gente não pode ficar aqui’, e aí a gente veio para Maceió que é onde estava a nossa família, como a Eunice fez também, só que ela tinha um uma casa, vendeu a casa, e a minha mãe nem isso tinha. A gente ficou lá na casa de uma avó que já tinha quatro famílias dentro. Passamos um bocado de privação”.

Se sentindo contemplada com a história contada no filme, Olga enaltece o trabalho e torce pela premiação.

“Eu estou aqui sonhando com a história desse filme, porque a história desse filme é a história contra a extrema direita, contra a tortura, contra a violência. É uma perspectiva de exaltar, enaltecer a importância dos direitos humanos. Essa luta de tantos brasileiros e pessoas do mundo inteiro em prol da construção de um mundo melhor, de um mundo mais fraterno, mais humano. Então, a conquista desse prêmio seria a vitória dos próprios direitos humanos reconhecidos em âmbito internacional”.

Para a filha de Jayme, essa é uma oportunidade de mostrar ao mundo algo que vinha sendo apagado.