Polícia

Vídeo: “Em que momento ‘cativeiro’ pode ser algo positivo?”, questiona marido de mulher vítima de racismo

Christiane da Fonseca formaliza denúncia contra médico em Maceió após nome aparecer em painel de clínica; defesa reforça que racismo recreativo é crime

Por Lucas França 21/09/2026 11h55 - Atualizado em 22/09/2026 11h23
Vídeo: “Em que momento ‘cativeiro’ pode ser algo positivo?”, questiona marido de mulher vítima de racismo
Christiane da Fonseca e Rafael Gonzaga formalizaram à denúncia nesta segunda-feira (21) - Foto: Sandro Lima

“Eu queria só perguntar ao doutor, à clínica responsável, em que momento a palavra ‘cativeiro’ pode ser aplicada de forma positiva para alguma pessoa.” O questionamento é de Rafael Gonzaga, marido de Christiane da Fonseca, que denunciou o médico Bruno de Mendonça Maraes Araújo, por racismo após o nome dela aparecer em um painel eletrônico da clínica, Reabilit, na Ponta Verde, em Maceió, acompanhado da palavra “cativeiro”.

A denúncia foi formalizada nesta segunda-feira (21), na Delegacia Especial de Crimes contra Vulneráveis Yalorixá Tia Marcelina (DECCV). O caso havia sido registrado na sexta-feira (18), quando Christiane e Rafael estiveram na clínica para uma consulta médica.


Abalada, Christiane preferiu não falar publicamente sobre o episódio. Segundo ela, o marido acompanhou toda a situação e, neste momento, atua como seu porta-voz. “Minha voz embarga quando vou falar, então o meu esposo pode falar tudo o que aconteceu”, afirmou.

Painel exibiu os nomes dos pacientes acompanhados por alguns termos (Foto: Cortesia)



De acordo com o relato apresentado pelo casal à polícia, outros pacientes que aguardavam atendimento teriam sido chamados por identificações como “Sala VIP” e “Cafofo”. Quando chegou a vez de Christiane, o painel teria exibido o nome dela acompanhado da palavra “Cativeiro”.

Rafael afirmou que questionou ainda na unidade sobre o motivo da escolha do termo. Conforme o relato do casal, o profissional teria reconhecido que havia utilizado a expressão e dito que a intenção seria “alegrar a nossa sexta-feira”.

Para o marido de Christiane, o contexto da utilização da palavra precisa ser esclarecido durante a investigação. “Seja quando é um animal criado em cativeiro, seja lembrando que o negro foi escravizado, mantido em cativeiro lá atrás, e hoje cativeiro significa uma situação em que a dignidade humana é deplorada”, declarou.

INVESTIGAÇÃO


A situação mobilizou equipes do 1º Batalhão da Polícia Militar (1º BPM), que foram até a clínica. Os envolvidos foram encaminhados à Central de Flagrantes, no Tabuleiro do Martins, onde prestaram depoimento.

Conforme a versão apresentada pelo médico Bruno Mendonça Moraes de Araújo durante o depoimento, o episódio teria sido uma brincadeira para descontrair. Ele também teria afirmado que o termo utilizado no painel não tinha relação com a cor dos pacientes e que não sabia quem seriam as pessoas chamadas.

No entanto, a defesa de Christiane contesta essa versão. Para o advogado Alberto Jorge Ferreira, o contexto em que o termo foi utilizado precisa ser analisado pelas autoridades. “Você não pode colocar um grupo de pessoas, ‘Sala VIP’, ‘Cafofo’, e quando chega um casal de negros você colocar ‘Cativeiro’”, afirmou.

O advogado também citou o conceito de racismo recreativo ao contestar a justificativa de que a situação teria sido apenas uma brincadeira. “Mesmo que tivesse sido de brincadeira, o racismo recreativo é crime. Você não pode estar brincando com esse tipo de situação”, declarou.

Alberto Jorge Ferreira, advogado das vítimas (Foto: Sandro Lima)



O advogado informou que já solicitou as imagens das câmeras de segurança da clínica. E segundo ele, a delegada responsável pela investigação também teria requisitado o material. “É uma prova audiovisual que nós queremos. Requeremos também a reconstituição do palco, dentro da própria clínica, mas isso só será deferido ou não pela delegada após ser analisado o vídeo que será colocado à disposição da delegacia”, explicou.

As imagens deverão ser confrontadas com os depoimentos prestados pelos envolvidos para ajudar a esclarecer o que ocorreu dentro da clínica. “O racismo é considerado crime no Brasil. Nós nos sentimos atacados por esse crime. Agora, quem vai determinar isso, quem vai avaliar, são as provas testemunhais, as provas materiais e o juiz. Nós esperamos justiça”, afirmou Rafael.

O caso segue sob investigação da Polícia Civil. A apuração deverá analisar as imagens do circuito interno, os depoimentos e demais elementos reunidos para esclarecer as circunstâncias e o contexto em que a expressão foi inserida no painel.

Até o momento, o médico Bruno Mendonça Moraes de Araújo e a Clínica Reabilit não apresentaram manifestação pública oficial sobre o caso além da versão atribuída ao profissional durante o depoimento na Central de Flagrantes.