Interior

Promotor compara urbanismo da Espanha ao Sertão de Alagoas

Após viagem pela Espanha, Frederico Alves Monteiro Pereira destaca investimentos em mobilidade, áreas verdes e planejamento urbano e questiona a falta de estrutura nas cidades brasileiras

Por Tribuna Hoje 08/10/2026 11h37 - Atualizado em 08/10/2026 11h40
Promotor compara urbanismo da Espanha ao Sertão de Alagoas
Frederico Alves Monteiro Pereira, promotor de Justiça de Delmiro Gouveia, reflete sobre planejamento urbano após viagem à Espanha - Foto: Divulgação


A experiência de conhecer diferentes regiões da Espanha levou o promotor de Justiça de Delmiro Gouveia, Frederico Alves Monteiro Pereira, a refletir sobre o planejamento urbano e a infraestrutura das cidades brasileiras, especialmente no Sertão de Alagoas. Em artigo intitulado Cartas de Paris – Touradas em Madrid, ele relata o que observou durante a viagem e aponta diferenças na organização dos espaços públicos, na mobilidade e na preservação ambiental.

Segundo o promotor, mesmo em regiões espanholas marcadas pela aridez, é possível encontrar rodovias amplas, jardins, calçadas e áreas arborizadas. Ele destacou a presença de estruturas que favorecem o deslocamento a pé e o uso do transporte coletivo.

“Fiquei tão impactado com o que vivi que voltei perdidamente apaixonado pelo urbanismo”, afirmou.

Ao percorrer cidades da Galícia à Andaluzia, passando pela Comunidade de Madrid e pela Catalunha, Frederico observou a organização dos centros históricos, a limpeza das áreas urbanas e a redução do trânsito em determinadas regiões. Para ele, essas características demonstram a importância de políticas públicas voltadas à mobilidade e à convivência nos espaços coletivos.

Planejamento urbano e mobilidade

No artigo, o promotor ressalta que a infraestrutura urbana deve oferecer condições para que a população circule com segurança e tenha acesso a espaços públicos de qualidade. Ele cita calçadas, árvores, sombra e transporte coletivo como elementos que contribuem para o bem-estar e a convivência social.

Frederico também chama a atenção para a estrutura viária espanhola, com grandes rodovias e estacionamentos subterrâneos, inclusive em áreas próximas a praças públicas.

Conforme o autor, a organização do trânsito e dos estacionamentos faz parte de uma política de ordenamento urbano que prioriza o meio ambiente e a circulação de pessoas.

A experiência também o levou a questionar justificativas frequentemente utilizadas para impedir mudanças na infraestrutura das cidades brasileiras. Entre elas, estão os possíveis prejuízos políticos de intervenções no trânsito e as limitações atribuídas à preservação de áreas históricas.

“Como explicar a impossibilidade de se alterar o ordenamento de uma via de 300 metros com a desculpa universal de que o saldo da ação seria ruim politicamente?”, questionou.

Sertão e condições climáticas

Frederico também compara as condições climáticas da Espanha com as do Sertão alagoano. Embora reconheça as diferenças territoriais e históricas entre os países, ele pondera que a aridez, por si só, não explica as dificuldades de infraestrutura enfrentadas pelas cidades brasileiras.

No texto, o promotor menciona um relato sobre a visita de um cônsul israelense a Delmiro Gouveia. Segundo a história que ouviu, o visitante teria perguntado quando conheceria a área mais seca do município, após percorrer trechos da caatinga.

A passagem é utilizada pelo autor para questionar se os obstáculos ao desenvolvimento urbano estão relacionados apenas às condições naturais ou também à forma como as cidades são planejadas e administradas.

“Penso que, em parte, sim”, escreveu, ao refletir sobre a responsabilidade humana diante dos problemas urbanos.

Falta de planejamento

Na avaliação de Frederico, a experiência internacional reforçou a necessidade de planejamento de longo prazo, organização administrativa e continuidade das políticas públicas. Ele critica o que considera excesso de improvisação e decisões orientadas por interesses políticos imediatos.

“O que nos falta é vontade cívica, enquanto sobra improviso; falta planejamento e estruturação estratégica, mas sobram cortes, danças e frases de efeito”, pontuou.

Apesar das críticas, o promotor conclui o artigo destacando o vínculo afetivo com o Nordeste. Ele afirma que, embora tenha reconhecido diferenças na infraestrutura urbana espanhola, sentiu felicidade ao retornar à região.

“ A minha maior felicidade foi quando voltei a pisar em terras nordestinas. Tinha mar, Mata Atlântica, tinha sotaque”, concluiu.

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