Interior
Urbanista alerta para riscos de calor extremo em cidades sem árvores
Dilson Batista diz que mudanças climáticas estão interferindo no modo de viver
O calor que aperta nas ruas, o ar que não circula entre prédios e a sombra que falta nas calçadas são mais do que incômodos sazonais. Para o arquiteto e urbanista Dilson Batista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), esses sinais revelam problemas estruturais de planejamento que se tornam ainda mais evidentes durante o verão. Em entrevista ao TH Entrevista, ele explicou como as mudanças climáticas impactam diretamente a forma de viver nas cidades e por que decisões urbanas tomadas hoje definem o conforto, a mobilidade e a saúde da população nos próximos anos.
Segundo o professor, a intensificação das ondas de calor nas áreas urbanas não é apenas resultado das altas temperaturas globais, mas também da forma como as cidades foram construídas ao longo do tempo. A substituição de áreas verdes por grandes superfícies de concreto e asfalto cria as chamadas “ilhas de calor”, que elevam a sensação térmica e tornam o ambiente mais hostil, especialmente para idosos, crianças e trabalhadores que passam o dia nas ruas. “A arborização deixou de ser um elemento estético e passou a ser uma infraestrutura essencial da cidade, assim como ruas e redes de drenagem”, destacou.
Dilson Batista explicou que a presença de árvores influencia diretamente a qualidade do ar, a temperatura e até a percepção de segurança e bem-estar nos espaços públicos. Além de proporcionar sombra e reduzir o calor, a vegetação contribui para a retenção da umidade do solo e ajuda a minimizar os impactos das chuvas intensas, cada vez mais frequentes em cenários de instabilidade climática. Para ele, investir em corredores verdes e em parques urbanos é uma estratégia que conecta meio ambiente, saúde pública e convivência social.
Outro ponto central da conversa foi a ventilação urbana, tema ainda pouco discutido no debate público. O professor lembrou que o desenho das ruas, a altura e a disposição dos edifícios e a ocupação desordenada de áreas estratégicas podem bloquear a circulação natural do vento. Em cidades litorâneas, como Maceió, esse fator ganha ainda mais relevância. “Quando se constrói sem considerar a direção dos ventos e a permeabilidade dos bairros, perde-se um recurso natural que poderia aliviar o calor de forma gratuita e sustentável”, afirmou.
A mobilidade urbana também entra na conta dos efeitos climáticos. De acordo com Dilson Batista, deslocamentos longos sob altas temperaturas, falta de sombra em pontos de ônibus e calçadas pouco acessíveis tornam o transporte público e o caminhar pela cidade mais penosos. Esse cenário afeta principalmente as populações de menor renda, que dependem mais do transporte coletivo e dos deslocamentos a pé. Para o urbanista, planejar rotas arborizadas, ampliar áreas de convivência e integrar modais de transporte são medidas que contribuem para uma cidade mais inclusiva e adaptada ao clima.
No campo do lazer e do turismo, o impacto é direto. Praias, parques e áreas históricas perdem atratividade quando o calor excessivo e a falta de infraestrutura tornam a permanência desconfortável. O professor defendeu que cidades que apostam em soluções verdes, espaços sombreados e projetos urbanos voltados para o pedestre tendem a se destacar como destinos mais agradáveis e sustentáveis, fortalecendo a economia local.
Para Dilson Batista, a resposta aos desafios climáticos precisa ser construída de forma conjunta entre poder público, iniciativa privada e sociedade. Ele apontou que planos diretores, códigos de obras e políticas de uso do solo devem incorporar critérios ambientais mais rigorosos, incentivando a preservação de áreas verdes e a adoção de soluções baseadas na natureza. Ao mesmo tempo, a população pode cobrar ações, participar de debates e valorizar espaços públicos que promovam convivência e bem-estar.
Encerrando a entrevista, o professor reforçou que o verão funciona como um termômetro das escolhas urbanas. “As cidades que não se prepararem para o aumento do calor e para eventos climáticos extremos vão enfrentar problemas cada vez mais complexos, desde a saúde da população até a queda na qualidade de vida e na atratividade econômica. Planejar com visão ambiental é, hoje, uma questão de sobrevivência urbana”, concluiu.
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