Interior

Casa de Delmiro Gouveia está preservada

Datada de 1903 quando o desbravador do sertão chegou a Alagoas, imóvel fica defronte à residência do empresário Eliseu Gomes

Por Wellington Santos / Tribuna Independente 01/01/2026 08h20 - Atualizado em 01/01/2026 08h58
Casa de Delmiro Gouveia está preservada
Primeira Casa de Delmiro Gouveia quando o desbravador chegou ao ainda Povoado 'Pedra', em 1903 - Foto: Edilson Omena

No périplo que a Tribuna fez recentemente ao sertão alagoano e baiano, a reportagem teve acesso à primeira residência do desbravador Delmiro Gouveia, na cidade homônima, onde está diretamente ligada ao surgimento da Vila da Pedra (atual município de Delmiro Gouveia).

O local era um pequeno povoado no município de Água Branca, caracterizado por um ambiente árido e isolado. A residência de Delmiro encontra-se defronte da casa do empresário Eliseu Gomes, personagem de reportagem recente da Tribuna sobre um projeto piloto de preservação ambiental.

A Vila da Pedra, antes de se tornar uma potência industrial, era conhecida apenas como “Pedra”. Delmiro estabeleceu-se ali inicialmente para atuar no comércio de couros e peles de caprinos. A casa de Delmiro, assim como as primeiras construções da vila, foi estrategicamente posicionada à margem da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, facilitando o escoamento de mercadorias.

Características

da residência

Diferente das habitações precárias comuns no sertão daquela época, a moradia de Delmiro e as casas que ele começou a construir seguiam um padrão de alvenaria. Eram feitas de alvenaria, revestidas com reboco e permanentemente caiadas de branco e possuíam telhas de barro (tipo canal) e pisos de tijolo.

A arquitetura era marcada por amplos alpendres que muitas vezes interligavam os blocos de casas, criando corredores cobertos que protegiam contra o sol forte da região.

Vila revolucionou

a Região Nordeste

A Vila Operária da Pedra foi um dos projetos mais audaciosos do industrial. Ela não era apenas um conjunto de casas, mas um experimento social e urbanístico que buscava criar uma “ilha de modernidade” no meio do Sertão, com um rigor quase militar. Enquanto o restante do Sertão vivia à luz de candeeiros e dependia de poços, a vila de Delmiro oferecia energia elétrica. Foi a primeira vila operária do Brasil a ter iluminação elétrica residencial e pública, vinda da Usina de Angiquinho. As casas possuíam água encanada e esgoto, algo raríssimo até nas grandes capitais da época. Delmiro construiu uma escola para os filhos dos operários e uma farmácia/ambulatório para atender os funcionários.

Delmiro Gouveia tinha uma obsessão por ordem e limpeza, o que moldava o dia a dia dos moradores. Todas as casas deveriam estar sempre impecavelmente brancas (caiadas). O lixo era rigorosamente coletado e as ruas eram varridas diariamente.

Vila da Pedra

Viver na Vila da Pedra era trocar a liberdade absoluta do sertanejo por um conforto tecnológico sem precedentes, sob o preço de uma vigilância constante. Para muitos, era a chance de sair da miséria extrema e ter acesso a uma vida digna e moderna.

Delmiro costumava circular pela vila montado em seu cavalo para fiscalizar pessoalmente se as calçadas estavam limpas e se as crianças estavam na escola.

PIONEIRISMO

Como o desbravador, município inova em preservação

Enquanto a maioria das cidades brasileiras ainda luta para implementar redes básicas de saneamento, um projeto piloto no município de Delmiro Gouveia, cerca de 290 km de Maceió, dá exemplo. O projeto demonstra que a solução para a poluição do Velho Chico pode ser mais simples, barata e produtiva do que se imagina. É assim na residência e na Reserva Ecológica do Castanho, de propriedades do empresário e ambientalista Eliseu Gomes, onde a Tribuna constatou, in loco, o processo que serve de modelo para o projeto de autossustentabilidade da região em que o conceito de “esgoto” foi formalmente extinto e substituído por um ciclo de nutrientes.

Em entrevista exclusiva, o empresário, herdeiro da tradição da família Gomes em Delmiro Gouveia, mostra como a tecnologia que brota da terra, a exemplo do seu “Jardim de Bananeiras”, que está substituindo o esgoto no Sertão, quase às margens do Velho Chico.

Diferente das fossas comuns que podem contaminar o lençol freático, a casa e a Reserva Ecológica Castanho utilizam biodigestores. O sistema recebe todos os dejetos gerados e realiza o tratamento da “água pesada” de forma anaeróbica, ou seja, através da ação de bactérias que trabalham em ambientes sem oxigênio. O processo é eficiente e de baixa manutenção pois é processado com tratamento sólido, onde o lodo resultante do processo acumula-se no fundo e precisa ser retirado em quantidades mínimas apenas uma vez por ano.

E é na gestão de resíduos que o sistema é integrado a uma ação rigorosa na fonte. Plásticos, metais e papéis são separados para reciclagem, enquanto apenas a parte úmida (orgânica) segue para o biodecompositor.