Um certo Eliseu Gomes, um 'moinho' no Sertão que luta para salvar o Velho Chico e a Caatinga
Reserva Ecológica do Castanho é um oásis do turismo no Sertão de Alagoas e se notabiliza agora pela defesa da sustentabilidade do Rio São Francisco com uso de Biodigestor
Por Wellington Santos - Reportagem / Edilson Omena: Foto de capa e reportagem cinematográfica | Redação Tribuna Independente
Em uma de suas edições, a Revista Chico, publicação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, atesta: “a água que move o moinho”, numa alusão ao Velho Chico, historicamente batizado como o “Rio da Integração Nacional”. Mas essa água e o moinho agonizam, juntos, sob o peso de décadas de descaso governamental e poluição sistemática. Enquanto 505 cidades despejam esgoto in natura em seu leito — de Belo Horizonte (MG) ao município de Paulo Afonso (BA) — um projeto piloto de sustentabilidade no sertão de Alagoas tenta servir de bússola para um novo modelo de convivência com o meio ambiente.
Enquanto a maioria das cidades brasileiras ainda luta para implementar redes básicas de saneamento, um projeto piloto em Alagoas, mais precisamente no município de Delmiro Gouveia, cerca de 290 km de Maceió, dá exemplo. O projeto demonstra que a solução para a poluição do Velho Chico pode ser mais simples, barata e produtiva do que se imagina. É assim na residência e na Reserva Ecológica do Castanho, de propriedades do empresário e ambientalista Eliseu Gomes, onde a Tribuna Independente constatou, in loco, o processo que serve de modelo para o projeto de autossustentabilidade da região em que o conceito de “esgoto” foi formalmente extinto e substituído por um ciclo de nutrientes.
Em entrevista exclusiva, o empresário, herdeiro da tradição da família Gomes em Delmiro Gouveia, mostra como a tecnologia que brota da terra, a exemplo do seu “Jardim de Bananeiras”, que está substituindo o esgoto no Sertão, quase às margens do Velho Chico.
Eliseu não poupa críticas à gestão dos recursos hídricos no Brasil. “Há 25 anos escrevi que o São Francisco estava morto. Hoje, ele é um cemitério de espécies nativas”, afirma. Segundo Eliseu, o trecho de 300 km entre Paulo Afonso e a foz não possui mais peixes como o Dourado ou o Surubim.
A crítica estende-se ao uso dos recursos públicos. Para ele, é um contrassenso o país investir bilhões em fundos eleitorais enquanto o tratamento sanitário básico é ignorado.
'Os governos fizeram o que era de utilidade política: a transposição. Mas transpuseram sem revitalizar. Não há um real para a revitalização', denuncia.
(Foto: Edilson Omena)
BIODIGESTOR ANAERÓBICO,
A REVOLUÇÃO DO SERTÃO
Diferente das fossas comuns que podem contaminar o lençol freático, a casa e a Reserva Ecológica Castanho utilizam biodigestores. O sistema recebe todos os dejetos gerados e realiza o tratamento da “água pesada” de forma anaeróbica, ou seja, através da ação de bactérias que trabalham em ambientes sem oxigênio. O processo é eficiente e de baixa manutenção pois é processado com tratamento sólido, onde o lodo resultante do processo acumula-se no fundo e precisa ser retirado em quantidades mínimas apenas uma vez por ano.
E é na gestão de resíduos que o sistema é integrado a uma ação rigorosa na fonte. Plásticos, metais e papéis são separados para reciclagem, enquanto apenas a parte úmida (orgânica) segue para o biodecompositor.
COM JARDIM FILTRANTE, EM SE PLANTANDO TUDO DÁ
O maior diferencial do projeto, porém, está no destino final da água tratada. Em vez de descartá-la em galerias pluviais ou no próprio Rio São Francisco, o sistema na casa e na propriedade de Eliseu utiliza o chamado Jardim Filtrante. A área é coberta por plantações de bananeiras, escolhidas estrategicamente por suas características botânicas. Por possuírem folhas largas, as bananeiras consomem uma grande quantidade de água. O processo funciona em um ciclo perfeito: a planta absorve os nutrientes da água tratada, realiza a evapotranspiração (devolvendo água pura para a atmosfera) e, como resultado, produz frutos de alta qualidade.
“A bananeira consome essa água e a devolve para a natureza através das folhas, além de nos entregar um fruto extraordinário. É um sistema que não gera esgoto; gera vida”, explica o idealizador do projeto.
O objetivo de Eliseu é que este sistema deixe de ser uma exclusividade de sua casa e da Reserva do Castanho, seu empreendimento empresarial que fica encravado entre o Velho Chico e a reserva de mata, e passe a ser a norma para novos loteamentos e áreas urbanas.
A proposta é que a urbanização adote o biodigestor e o Jardim Filtrante como padrão obrigatório. Se aplicado em escala, o modelo poderia zerar o despejo de esgoto doméstico no Rio São Francisco, transformando o que hoje é um crime ambiental em uma rede de produção de alimentos e preservação hídrica.
DA "PREGUIÇA" À ECOLOGIA:
A CAATINGA RESISTE
Durante o século XX, de acordo com Eliseu, a narrativa do progresso no Nordeste era sinônimo de desmatamento. O empresário recorda que sua família foi rotulada de “preguiçosa” por se recusar a derrubar a mata branca para dar lugar a pastos subsidiados pela Sudene.
“Quem desmatou, desertificou. Hoje, quase 70% da Caatinga em Alagoas está acabada. A família Gomes é uma das únicas que ainda mantêm a mata de pé porque fomos ‘preguiçosos’”, ironiza o empresário. Essa preservação deu origem à Reserva Ecológica do Castanho, que hoje prova que a função social da terra se cumpre melhor com a floresta preservada, abrigando espécies como a Onça-de-Bode e o Jacu.

Mais do que um santuário ecológico, a Reserva do Castanho e as iniciativas de Eliseu funcionam como um plano piloto de autossustentabilidade. O modelo baseia-se em três pilares: a Tecnologia Sanitária, que tem como base o uso de biodigestores para garantir que nenhum resíduo chegue ao rio; a Economia Circular, que envolve a coleta seletiva rigorosa e substituição de materiais poluentes e, por fim, a Educação e Capacitação, que ofertam treinamento de condutores náuticos com a Marinha e cursos de gastronomia com nutricionistas, transformando o turismo na terceira maior fonte de empregos da região.
Eliseu faz um alerta de saúde pública, relacionando a onipresença do plástico — que substituiu o papel e o vidro nas últimas décadas —, ao aumento de doenças neurodegenerativas e ao autismo. Citando o pensador Karl Marx, ele reflete sobre como a busca desenfreada pelo lucro está levando a natureza à bancarrota.
“Revitalizar o São Francisco não é apenas limpar a água; é revitalizar a consciência do povo. O exemplo está aqui: é possível gerar renda, educar a população e manter a natureza viva. Só falta vontade política para replicar”, conclui o empresário.


