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Anjo das pernas tortas já pousou numa certa Delmiro Gouveia

Tribuna traz a história do dia em que Garrincha disputou uma

Por Wellington Santos / Tribuna Independente 04/06/2026 08h48 - Atualizado em 04/06/2026 08h59
Anjo das pernas tortas já pousou numa certa Delmiro Gouveia
Garrincha com Chico Doutor e seu filho na 'pelada' em Delmiro Gouveia, em 1973 - Foto: Reprodução

O craque mambembe, aquele que já foi o maior ponta-direita que o mundo já viu, um dia jogou no Alto Sertão de Alagoas, numa certa Delmiro Gouveia, município cerca de 300 km da capital Maceió.

E ali naquele torrão quente do Sertão se fez o que escreveu certa vez o jornalista Geraldo Mayrink, em um artigo intitulado ‘A vida torta de Mané Garrincha’. Um dos trechos diz: “Foi, portanto, com alguma tristeza, mas sem nenhuma surpresa, que correu pela Itália e depois pelo Brasil a notícia de que o maior ponta-direita do mundo estava jogando de camiseta vermelha e calção branco, com um time de amadores formado de açougueiros num campeonato reunindo trabalhadores de bar, mecânicos e operários do lugar”, vaticinara o jornalista.

“Eu faço isso”, dizia Garrincha à época, “para me divertir e me manter em forma.” Aqui não posso nem correr, que quebro o pé. O campo é cheio de pedras e buracos”.

E tal como a narrativa anterior, Mané, um primitivo, um matuto, meio índio, meio selvagem, criado num submundo de miséria e ignorância, um lugar atrasado onde nem o trem parava, foi um dia no ano de 1973 jogar no campo localizado na chácara do empresário conhecido em todas as bandas do Sertão Francisco Martins de Oliveira, o “Chico Doutor”. O campo hoje em dia pouco lembra as épocas áureas em que o empresário delmirense recebia artistas da música popular brasileira do primeiro time. Foi lá, na propriedade que atualmente tem um quê de abandono, que o industrial e empresário da construção civil Chico Doutor”, acolheu e recebeu de braços abertos o craque das pernas tortas.

Público à beira do campo para ver o Anjo das Pernas Tortas (Foto: Divulgação)

Delmiro — embora muito mais desenvolvida do que Pau Grande (RJ), a terra natal de Garrincha —, tinha, sim, alguma coisa muito parecida com a tal de Pau Grande. Segundo Mayrink, “Pau Grande não tinha cinema, nem cartório, nem mais nada. Quase tudo – terrenos, empregos, pessoas – pertence à fábrica América Fabril, uma tecelagem que hoje, mal se recuperando de uma concordata, não consegue reempregar todos os seus antigos funcionários”.

Por coincidência, ou não, Delmiro também já teve sua fábrica, a Fábrica da Pedra, onde lá também existiam tecelãs e que já fora o maior conglomerado econômico de toda a região do Alto Sertão do quarteto Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Bahia.

Além das rodovias que construiu no Sertão alagoano, Chico Doutor era popular pelas festas que promovia em sua propriedade, seja na fazenda Flor-da-Serra ou na Casa da Piscina, no bairro Oásis, mansão com 10 suítes que comportava duas piscinas, uma delas semiolímpica e que serviu de palco para a apresentação de vários artistas, entre eles cantores como Ângela Maria, Luiz Gonzaga, Altemar Dutra e, claro, o anjo-artista das pernas tortas dos gramados, Mané Garrincha.

Edson Martins de Oliveira (in memoriam), à época da passagem da Tribuna Independente por Delmiro, em 2018, filho de Chico Doutor, contou à reportagem o que lembrava da passagem de Garrincha pela chácara de seu pai.

“Ele era meio caladão. Quando falava dizia que não gostava de concentração e gostava de beber”. Edson recordou ainda de uma encomenda que Garrincha confiara a seu pai. “Ele gostava muito de passarinhos e meu pai comprou um curió lá de Atalaia para ele. Foram oito dias com papai e tudo bem tranquilo”, disse Edson à reportagem.

O filho de Chico Doutor lembrou ainda de outro episódio ligado à ida de Garrincha ao Sertão, na época. “Depois de jogar em Delmiro, Garrincha também fez uma apresentação em Paulo Afonso. Deram um tombo nele e se formou uma pequena confusão e disseram para o zagueiro durão que aquilo era só um jogo de exibição”, completou Edson.

Craques mambembes

fazem festa com o anjo

Na passagem de Garrincha por Delmiro em 1973, alguns dos melhores jogadores da região à época tiveram a honra de participar da partida festiva organizada por Chico Doutor.

Um deles foi Gilmar de Neneco. Este era considerado então o melhor jogador de futebol de campo da cidade. Gilmar era gaiato com seus dribles rápidos. Uma de suas características era que, depois de driblar, não se aguentava e ria das próprias peripécias que fazia em campo.

Edson (in memoriam) e Gilmar falaram à Tribuna sobre jogo de Garrinha, em Delmiro (Foto: Divulgação)

“No jogo do Garrincha eu entrei no segundo tempo”, recorda, ao rir quando interrogado pela Tribuna se era a ‘arma secreta’ para fazer dupla com Mané. “Só sei que ganhamos por dois a zero”, diz Gilmar.

Outro que participou do jogo festivo era o endiabrado Antônio de Oliveira Barbosa, 71 anos, conhecido como Tonho de Euzébio. Atleta delmirense, teve passagens como jogador profissional em vários clubes no país, entre eles o Itabaiana, o Sergipe e o Icasa-CE.

Atacante versátil tanto pela direita como pela esquerda, Tonho de Euzébio esteve no jogo de exibição e recorda que a partida foi entre a Seleção de Delmiro contra a Seleção de São José da Tapera. “Foi dois a zero para a seleção de Delmiro, dois gols do Garrincha”, lembra Euzébio, ao garantir que ninguém fez ‘corpo mole’ para que Garrincha fizesse os gols.

“Ele falava muito que queria pegar passarinho, principalmente curió, mas eu disse que na nossa região só tinha pardal”, relatou Euzébio à Tribuna.

“A outra partida foi em Paulo Afonso e eu estive lá também e jogamos contra o time da Mendes Júnior”, completa Euzébio, ao não recordar o placar do segundo jogo festivo.

Bado, o “garrincha de Delmiro”

José Ednaldo Simão, conhecido na região como Bado (in memoriam), também teve o privilégio de jogar ao lado de Mané Garrincha na passagem do anjo por Alagoas. No caso dele, o encontro com o lendário ponta-direita foi diferente dos outros dois que a Tribuna entrevistou. “Não joguei com Garrincha em Delmiro. Mas, sim, em Arapiraca, quando vesti a camisa do ASA”, contou Bado, que se notabilizou como jogador de extrema habilidade com a bola e, para muitos da região, o melhor jogador que o Sertão viu nos tempos áureos.

No registro fotográfico da época, Bado aparece com a camisa do ASA agachado ao lado do Anjo das Pernas Tortas. “Perdemos o primeiro jogo contra o CSA, em Maceió, mas vencemos o segundo jogo, em Arapiraca”, recorda-se, ao informar que antes de passar por Delmiro Gouveia, Garrincha fez partidas contra CSA e ASA.

Garrincha e Bado (2º e 3º agachados da esq. para direita) no ASA em 73

Na época da entrevista com a Tribuna, Bado vivia numa modesta casa em Delmiro com a pequena aposentadoria que lhe restou. “O que eu ganhei durante a carreira foi gasto com muita diversão, na vaidade, mas não me arrependo. Às vezes, chegava nas boates e mandava fechar as portas e pagava todas as contas para os amigos”, disse Bado, à época.

E como Garrincha, Bado gostava muito de apreciar uma “canazinha” e sumiu sem deixar ‘paradeiro, depois de combinar que iria fazer uma sessão de fotos para esta reportagem em 2018. Enfim, qualquer semelhança desse tal Bado com um certo Garrincha é pura coincidência.

FICHA TÉCNICA

19\09\1973

Árbitro: Ivanildo Jacinto

Renda: NCr$ 19.864,00

Gols: Dida, Tião (ASA, contra) e Manoelzinho (de pênalti) (CSA); Zito (ASA).

Expulsões: Zé de Lira (ASA) e Pires (CSA).

CSA – Dida; Mendes (Dudu), Pires, Zé Preta (Lourival) e Jaminho; Zé Leite e Soareste; Mané Garrincha (Manoelzinho), Dida (Batoré), Giraldo (Jorge Siri) e Misso.

Técnico: Dida

ASA – Veludo; Zé de Lira, Tião, Miranda e Lula; Cambota e Zito; Bió (Clóvis), Bado, Ailton e Pescador.

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23\09\1973 (domingo)

Árbitro: Pelópidas Argolo

Renda: NCr$ 12.100,00 - Público: 5.055

Gol: Cambota aos 32’ do 2° tempo.

ASA – Veludo; Clóvis, Tião, Miranda e Lula; Zito e Cambota; Mané Garrincha (Ailton), Bado, Laranjeiras e Bió.

Técnico: Júlio Silva

CSA – Zé Galego; Vergetti, Pires, Cássio e Gilvan; Dudu e Zé Roberto; Manoelzinho, Gaguinho, Giraldo e Luiz Mário.

Técnico: Dida