Esporte

25 de novembro de 2020 14:03

Um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, Maradona morre aos 60 anos

Maior ídolo do futebol argentino, que se recuperava de cirurgia no cérebro, não resiste a mal súbito

↑ Maradona havia passado por cirurgia no cérebro há poucas semanas (Foto: Reprodução / Instagram)

Diego Armando Maradona morreu nesta quarta-feira, aos 60 anos, após uma parada cardiorrespiratória. Um dos grandes da história do esporte e maior ídolo do futebol argentino, o astro sofreu o mal súbito no fim da manhã, quando ambulâncias foram chamadas à sua casa, onde se recuperava de uma cirurgia no cérebro. O ex-jogador, porém, não resistiu, tendo sua morte confirmada pela imprensa argentina e pela TV pública do país no começo da tarde.

Maradona já havia preocupado os fãs no começo do mês, quando foi internado às pressas, com sintomas de anemia. Na época, foi descoberta uma pequena hemorragia no cérebro, e o ex-jogador precisou passar por uma cirurgia para drená-la. Após mais de uma semana de internação, ele recebeu alta no dia 12 de novembro e teria ficado em casa no período.

Campeão mundial com a Argentina em 1986, Maradona teve sua carreira marcada pela genialidade em campo e pelas polêmicas fora dele. O camisa 10 defendeu a seleção em 91 jogos, atuando em quatro Copas do Mundo: 1982, 1986, 1990 e 1994. No Mundial dos Estados Unidos, viveu um dos piores momentos de sua trajetória, quando foi pego no exame antidoping ainda na primeira fase da competição.

Nos clubes, sua trajetória começou no Argentinos Juniors, onde brilhou e ganhou uma chance no Boca Juniors, seu time do coração. De lá, rumou para o Barcelona e depois para o Napoli, onde viveu um caso de amor com a torcida e fez história com a conquista do título italiano. Após passagens por Sevilla e Newell’s Old Boys, Maradona encerrou sua carreira no Boca, em 1998, e passou a ser figura comum em jogos na Bombonera.

Maradona deixa marca de gênio polêmico na história do futebol

“Muitas vezes me dizem: você é Deus. E eu respondo: vocês estão equivocados. Deus é Deus e eu sou simplesmente um jogador de futebol”

Aos 60 anos e 26 dias, Dios virou só Diego. A frase acima dita por ele mesmo em 1991 se tornou verdade. Campeão do mundo em 1986 e um dos maiores ídolos do futebol mundial, o ex-jogador argentino Maradona morreu nesta quarta-feira.

Contraditório, desafiador, engenhoso. Amigo leal e inimigo temível. Gênio e polêmico. Maradona despertou devoção por onde passou. Renasceu inúmeras vezes para protagonizar uma das trajetórias mais intensas da história do futebol.

Nascido em 30 de outubro de 1960, viveu a infância em Villa Fiorito, um bairro muito pobre da periferia de Buenos Aires, onde começou a se destacar por sua habilidade com a bola nos pés. Começou a carreira no Argentinos Juniors, com apenas 15 anos.

Depois de cinco temporadas e 116 gols em 166 partidas, Maradona se transferiu para o gigante Boca Juniors em 1981. Mas sua primeira passagem na Bombonera foi curta. Em 1982, ele foi vendido ao Barcelona na transferência mais cara do futebol àquela altura: U$ 8 milhões (U$ 21,5 milhões, em valores corrigidos).El Diez manteve o brilho em campo.

Mas as duas temporadas na Espanha não são lembradas por títulos. Sofreu com lesões, se envolveu em brigas com colegas do clube, uma hepatite e festas. Muitas celebrações e o início de um drama o assombraria por muito tempo: as drogas. O argentino deixou o Barcelona em 1984 com três títulos.

O Dios napolitano

Perto de completar 24 anos, Diego chegou a Nápoles recepcionado por 70 mil torcedores no San Paolo. Era 5 de julho de 1984, e aquela apaixonada torcida via apenas o começo de uma trajetória que lhes daria títulos, alegria e orgulho para uma região discriminada na Itália.

Maradona se reencontrou no Napoli e o transformou em um dos grandes do país na época de maior glória do Campeonato Italiano. Diante da Juventus de Platini e do Milan treinador por Arrigo Sacchi e com os holandeses Van Basten, Gullit e Rijkaard.

Conquistou os dois únicos Scudettos da história do Napoli: em 1986/87 e 1989/90, este último protagonizando uma memorável dupla com o brasileiro Careca. Também levantou a Copa da Uefa – atual Liga Europa – de 1988/89, além da Copa Itália de 1986/87 e a Supercopa de 1990. É o ídolo máximo do clube.

De Diego a Dios

Diego era apenas um garoto de 16 anos, que ainda surpreendia a todos pelo Argentino Juniors, quando debutou na seleção de seu país. Foi em uma vitória por 5 a 1 contra a Hungria, em amistoso. No ano seguinte, era cogitado a compor a lista de Cesar Menotti para a Copa do Mundo em seu país natal, mas ficou fora.

O primeiro Mundial de Maradona foi em 1982. Titular da Argentina na Espanha, ele disputou cinco jogos e foi expulso no duelo contra o Brasil, quando o time comandado por Telê Santana venceu por 3 a 1 e eliminou o rival. Mas tudo seria diferente quatro anos mais tarde.

No México, El Diez comandou a Argentina em seu bicampeonato. Foram seguidas atuações memoráveis. Contra a Inglaterra, nas quartas de final, Maradona foi capaz de fazer dois gols que evidenciam sua capacidade para ser gênio e polêmico ao mesmo tempo.

Ele abriu o placar com um leve toque de mão na saída do goleiro Beardsley no que deve ser o gol irregular mais famoso de todos os tempos. E fez o segundo percorrendo meio-campo e deixando para trás cinco marcadores.

O gol do século. Um gol que deu um grito de liberdade a milhões de argentinos que sofreramquatro anos antes na Guerra das Malvinas contra os mesmos ingleses.

Maradona faria mais dois gols contra a Bélgica, na semifinal, e daria o passe para o gol decisivo de Burruchaga na final contra a Alemanha. Coube ao camisa 10 erguer o bicampeonato, no que foi seu auge na carreira.

El Pibe participaria mais dois Mundiais. Esteve perto da segunda conquista consecutiva em 1990. Ele foi essencial na eliminação do Brasil, nas oitavas de final, e viu a torcida napolitana gritar seu nome e torcer pela Argentina contra a Itália na semifinal. Chorou com o vice para a Alemanha.

Em 1994, nos Estados Unidos, disputou dois jogos e fez um gol contra a Grécia. Mas se viu em uma das inúmeras polêmicas de sua vida. Após a partida contra a Nigéria, Maradona foi sorteado para o exame antidoping e testou positivo para a substância efedrina, um estimulante do sistema nervoso e cardiovascular. Foi suspenso da Copa, e a Argentina eliminada nas oitavas para a Romênia.

O Dios das polêmicas

Maradona disputou 676 partidas e marcou 345 gols em 21 anos de carreira, entre a seleção e clubes. E por muito tempo, o vício em cocaína o acompanhou. Sua gloriosa trajetória no Napoli foi interrompida em março de 1991, quando foi suspenso por 15 meses após após exame antidoping constatar o uso da droga.

Foi o começo de um declínio. Pouco tempo depois da punição, o ídolo foi preso por porte e consumo de cocaína em Buenos Aires. Ficou uma noite detido, pagou fiança de U$ 20 mil e foi liberado.

Ele voltou aos gramados atuando pelo Sevilla (1992-1993) e de lá retornou à Argentina para uma breve passagem pelo Newell’s Old Boys em 1993. Depois da Copa do Mundo de 1994 e da segunda sanção, vestiu mais uma vez a camisa do Boca, onde deixou os gramados em 25 de outubro de 1997, cinco dias antes de seu 37º aniversário.

Numa despedida memorável em 2001, dentro do estádio La Bombonera lotado, Maradona falou sobre seus vícios:

“Errei e paguei, mas o que fiz em campo não se apagou”.

Maradona flertou com a máfia em Nápoles. Segundo ele, “era apenas para sua proteção”. Indomável, ele enfrentou o poder do futebol mundial, desafiou o establishment, abraçou líderes da esquerda latino-americana, fez amizade com Fidel Castro e Vladimir Putin, tatuou Che Guevara e é o ídolo de figuras lendárias do esporte universal.

Coleciona frases fortes, polêmicas e, por muitas vezes, preconceituosas. Em 2016, chegou a dizer que era vergonhoso que mulheres de jogadores falassem sobre futebol. Tatuou “perra” (cadela, em espanhol), em homenagem a uma de suas ex-namoradas.

Em 2000, o argentino sofreu um ataque cardíaco devido a uma overdose no resort uruguaio de Punta del Este. Um longo tratamento aconteceu, com idas e vindas a Havana, longe das câmeras. Pesando 100 quilos, outra crise cardíaca e respiratória o surpreendeu em 2004 em Buenos Aires e o deixou à beira da morte.

Recuperado, ele fez uma cirurgia bariátrica e perdeu 50 quilos, para retornar um ano depois como um apresentador de televisão de sucesso. Em 2007, os excessos no consumo de álcool o levaram a uma nova hospitalização, agora por hepatite. Foi internado em um hospital psiquiátrico. Saiu novamente.

Para os gramados, voltou como treinador, função que já havia tentado, sem sucesso, no Mandiyú (1994) e Racing (1995). Depois de liderar a seleção nacional, ele comandou o Al Wasl (2011-2012) dos Emirados Árabes, depois o Al Fujairah (2017-2018) e seguiu para o México, onde esteve à frente do Los Dorados de Sinaloa (2018).

Operado dos joelhos e com uma bengala, assumiu em 2019 em seu país o comando de um abatido Gimnasia y Esgrima La Plata.

Os filhos: outro drama maradoniano

Com a segurança que garantiram por terem sido suas “únicas filhas” por 25 anos, Dalma e Giannina foram o fio condutor de Maradona, mas também suas mais duras críticas. Nascidas em 1987 e 1988, sua mãe, Claudia Villafañe, era namorada de adolescência do ex-jogador. Após 24 anos eles se divorciaram e em 2020 travam um duro litígio.

O último filho a chegar foi Diego Fernando, que teve em 2013 com a ex-namorada Verónica Ojeda.

Mas Maradona adicionou descendentes nos últimos anos. Em 2014, reconheceu Jana, nascida em 1996 e filha de Valeria Sabalain, e em 2016, após 29 anos de rejeição de vínculo, reconheceu como filho Diego Junior, nascido sete meses antes de Dalma e filho da italiana Cristina Sinagra.

Em 2019, seu advogado Matías Morla afirmou que o ex-jogador tem mais três filhos em Cuba, ainda não reconhecidos.

“Faltam três para completar o time de 11, você consegue”, escreveu a filha Giannina no Instagram.

Fonte: Globo Esporte

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