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Verity: Desejo, segredos e Anne Hathaway acima do roteiro

Quem escreve a história controla a verdade.

Por João Michelone com Observatório do cinema 08/10/2026 17h57
Verity: Desejo, segredos e Anne Hathaway acima do roteiro
Verity: Desejo, segredos e Anne Hathaway acima do roteiro - Foto: Divulgação

Existe uma marca de mordida na cabeceira de uma cama. Ela não é recente, e quem a deixou está deitada no quarto ao lado, supostamente incapaz de se mexer. É a partir de detalhes assim que Verity, adaptação do best-seller de Colleen Hoover, tenta te prender: com a sensação de que alguém está sempre olhando, mesmo quando não deveria conseguir.

Dirigido por Michael Showalter, o filme estreia hoje (30 de setembro) nos cinemas. Quando os créditos sobem, fica aquela sensação de que você precisa conversar com alguém sobre tudo o que acabou de acontecer. A dúvida é se essa conversa vai ser de empolgação ou de nervoso. Para mim, foi um pouco das duas coisas.

Do que se trata Verity (sem spoilers)

Lowen Ashleigh, interpretada por Dakota Johnson, é uma escritora em dificuldade que recebe uma proposta boa demais para recusar: terminar a série de livros de Verity Crawford, autora famosa que ficou incapacitada depois de um acidente de carro. Para isso, ela se muda para a casa da família, onde vive o marido de Verity, Jeremy, interpretado por Josh Hartnett.

No escritório da autora, Lowen encontra um manuscrito autobiográfico que não deveria existir. E, a cada página lida, fica mais difícil separar o que é ficção do que é confissão.

Anne Hathaway faz muito com quase nada

O grande trunfo do filme é Anne Hathaway. Durante boa parte da história, a atriz passa sentada, com o olhar perdido, sem falas. E mesmo assim é impossível tirar os olhos dela. Cada vez que a câmera volta para o quarto de Verity, o filme fica mais tenso, porque você passa a procurar qualquer movimento mínimo.

É uma escolha curiosa para quem vinha de papéis fisicamente exigentes, e ela transforma a imobilidade em ameaça. Quando o roteiro finalmente permite que a personagem apareça de outras formas, Anne Hathaway abraça o lado exagerado sem medo, e é aí que o filme mais diverte.

Dakota Johnson desperdiçada, Josh Hartnett no ponto

Dakota Johnson é uma boa atriz, mas aqui fica subaproveitada. Lowen é curiosa, insegura e vai se deixando envolver pela casa, pelo manuscrito e pelo marido, só que o roteiro raramente dá a ela algo além de reagir ao que acontece em volta. E é difícil não lembrar de Cinquenta Tons de Cinza toda vez que o filme puxa para o lado do desejo, uma sombra que não ajuda.

Josh Hartnett, que anda aparecendo menos do que deveria, tem o papel mais delicado. Jeremy precisa parecer o marido e pai perfeito e, ao mesmo tempo, deixar uma pontinha de dúvida no ar.

Um detalhe resume bem isso: quando ele sugere, com naturalidade demais, que Lowen use um vestido de Verity para uma saída à noite. Pequeno, desconfortável e muito eficiente. É uma pena que o filme não confie mais nesses momentos sutis.

Veredito: vale a pena assistir Verity?

Vale. Verity não é o thriller perfeito, e em alguns momentos exagera na dose, mas cumpre o que promete: prende a atenção, provoca, choca e te faz sair do cinema discutindo quem estava falando a verdade.

E há Anne Hathaway, que sozinha já justifica o ingresso. Ela entrega uma das atuações mais inquietantes do ano quase sem se mexer, e cada cena com ela deixa o filme maior.

Verity é o tipo de filme para ver com amigos, pipoca na mão, e sair discutindo quem estava falando a verdade. Fãs do livro também devem sair satisfeitos com a fidelidade às cenas mais marcantes.

Nota: 8/10.




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