Ciência e Tecnologia

Estudos da Ufal apontam como clima pode influenciar internações por doenças respiratórias

Dois artigos publicados em revistas internacionais sobre clima utilizam modelos de aprendizado de máquina para previsão de hospitalizações

Por Ascom Ufal 15/08/2026 01h59
Estudos da Ufal apontam como clima pode influenciar internações por doenças respiratórias
Professor Fabrício Silva, do Icat - Foto: Ascom Ufal

Pesquisadores do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat - https://icat.ufal.br/pt-br) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) tiveram dois artigos publicados em revistas científicas internacionais que investigam a relação entre condições atmosféricas e hospitalizações por doenças respiratórias em Maceió. Os estudos utilizam modelos de aprendizado de máquina para analisar dados meteorológicos e de saúde e desenvolver ferramentas capazes de auxiliar na previsão de internações.

Os trabalhos integram a linha de pesquisa em Biometeorologia, área interdisciplinar que investiga as relações entre as condições atmosféricas e os organismos vivos. Segundo o professor do Icat Fabrício Silva, a área vem ganhando espaço internacionalmente e também começa a se consolidar na Ufal.

“A Biometeorologia vem ganhando corpo com essas publicações. A gente está tentando provar que é possível que essa linha de pesquisa avance também aqui na Ufal, no nosso instituto, principalmente com foco em Alagoas. Esses dois primeiros estudos tiveram como foco Maceió, que é a capital, pela disponibilidade não só dos dados climáticos, mas também dos dados do Datasus, por exemplo, que são de boa qualidade. Então, agora, só tende a avançar”, explicou.

Previsão de hospitalizações por asma

O primeiro artigo, intitulado "Predicting Asthma Hospitalizations from Climate and Air Pollution Data: A Machine Learning-Based Approach" (https://www.mdpi.com/2225-1154...), foi publicado na revista científica internacional Climate. O estudo investiga a possibilidade de prever notificações mensais de asma em Maceió a partir da combinação de informações meteorológicas, dados sobre poluição do ar e registros anteriores da doença.

Para isso, os pesquisadores compararam diferentes técnicas de aprendizado de máquina e avaliaram quais apresentavam melhor desempenho na identificação das relações entre as condições ambientais e as hospitalizações. Entre os métodos analisados estavam Random Forest, XGBoost, Regressão Linear Múltipla, Máquina de Vetores de Suporte e K-Nearest Neighbors.

Segundo Fabrício Silva, a pesquisa permitiu identificar quais modelos de inteligência artificial que têm sido utilizados atualmente conseguiram modelar melhor a relação entre clima e saúde apresentavam melhor capacidade de relacionar as variáveis ambientais às internações por asma.

Entre os métodos avaliados, o Random Forest apresentou o melhor desempenho, principalmente quando foram incorporadas informações anteriores sobre os registros de asma. A temperatura mínima e o dióxido de enxofre também se destacaram entre as variáveis mais importantes para a previsão.

“Também identificamos quais eram as variáveis meteorológicas aqui para a nossa cidade de Maceió que davam um melhor sinal de relação entre o que acontece com o clima, o que acontece com as variáveis meteorológicas e o que acontece efetivamente com as internações. Nisso, encontramos, por exemplo, que as principais variáveis que dão uma melhor resposta para obter um bom modelo de previsão para essas doenças são a temperatura, a umidade relativa, a radiação solar, a pressão atmosférica e uma variável que, para a gente, foi uma surpresa: a evaporação”, afirmou.

A pesquisa reuniu professores e pesquisadores de diferentes áreas da Ufal. Entre os integrantes estão os professores do Icat Fabrício Silva, Glauber Marinho, Helber Barros Gomes e Heliofábio Barros Gomes, além da estudante do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia (PPGMET/Ufal) Rafael Lisboa Costa.

Também participaram pesquisadores do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente (Igdema/Ufal) e do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS/Ufal), além de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), do Instituto Evandro Chagas (IEC) e da Universidade de Évora, em Portugal.

Doenças respiratórias e diferenças entre faixas etárias

O segundo artigo, intitulado Age-specific climate sensitivity of respiratory hospitalizations in a tropical coastal city: 20-year Random Forest forecasts (https://link.springer.com/arti...), foi publicado na International Journal of Biometeorology. O estudo amplia a investigação para as doenças respiratórias de maneira geral e analisa como diferentes grupos etários respondem às condições climáticas.

A pesquisa utilizou uma série histórica de 20 anos, entre 2000 e 2019, para analisar as hospitalizações por doenças respiratórias em Maceió. Os pesquisadores dividiram a população em três grupos: crianças de 0 a 4 anos, adultos de 5 a 59 anos e idosos com 60 anos ou mais.

Foram consideradas variáveis como temperatura, umidade relativa, precipitação, pressão atmosférica e radiação solar, além de diferentes períodos entre as condições climáticas e as hospitalizações. A partir dessas informações, os pesquisadores utilizaram o modelo Random Forest para identificar relações não lineares e realizar previsões.

O trabalho identificou a temperatura mínima como o principal fator associado às hospitalizações nos diferentes grupos etários, com efeitos que puderam ser observados por até duas semanas. Também foram observadas respostas diferentes de acordo com a idade. A análise também apontou que crianças apresentam respostas mais imediatas às variações de temperatura e precipitação, enquanto a população idosa apresentou respostas mais tardias relacionadas a variáveis como pressão atmosférica e evaporação.

Os modelos apresentaram desempenho mais elevado para crianças e adultos e moderado para idosos. Os resultados também indicaram uma redução das taxas de hospitalização entre crianças e adultos ao longo do período analisado, enquanto, entre os idosos, houve estabilização e posterior aumento a partir de 2010. Para o pesquisador, os resultados demonstram que as condições meteorológicas podem contribuir para a construção de modelos capazes de antecipar cenários de hospitalização.

“Realmente existe uma relação entre essas variáveis e as doenças. Ou seja, a variabilidade dessas variáveis, como elas interagem entre si, ajudam muito a você ter mais ou menos casos dessas doenças nas próximas semanas e nos próximos meses”, afirmou.

A pesquisa também reúne pesquisadores de diferentes áreas e instituições. Além dos professores e pesquisadores do Icat, participaram pesquisadores do ICBS/Ufal e do Centro de Mudanças Climáticas e Energia do Instituto Ayni: Conservação Ambiental e Desenvolvimento Social, em Maceió, além de pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e de outras instituições.

Ciência voltada à saúde pública

Além da contribuição científica, as pesquisas têm uma dimensão prática relacionada ao planejamento da saúde pública. O professor do Icat e diretor do instituto, Glauber Marinho, destacou que os estudos permitem transformar o conhecimento produzido na Universidade em informações que podem ser utilizadas pelos gestores públicos.

“A importância de a Ufal participar de artigos e pesquisas como essa é que, além da publicação científica associada ao conteúdo gerado pelo projeto de pesquisa, a gente mostra a atividade de geração de conhecimento na academia atrelada a uma necessidade do Ministério da Saúde, por exemplo. Com modelos como esse, estamos fornecendo material que, na prática, pode ser utilizado por outras instituições de saúde aqui do Brasil”, explicou.

O professor Fabrício contou que os estudos fazem parte de uma agenda de pesquisa que pretende ampliar a análise para outras cidades alagoanas. “Com esses dois estudos de Maceió, proximamente a gente vai avançar, por exemplo, para Arapiraca e outras cidades que têm uma população maior no estado, para ver até que nível de população a gente consegue gerar uma boa modelagem da relação entre clima e doenças”, explicou.

A perspectiva também inclui a investigação de outras doenças. “O foco desses dois trabalhos iniciais foi doenças respiratórias, porque um foi asma e o outro foi doenças respiratórias de um modo geral, mas a gente quer avançar também, por exemplo, para doenças cardiovasculares”, acrescentou.