Cidades

Verticalização ameaça a Garça Torta

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas afirmam que residencial Dom Pietro jamais poderia ter recebido licença de construção

Por Claudio Bulgarelli / Tribuna Independente 07/11/2026 08h15 - Atualizado em 07/11/2026 08h29
Verticalização ameaça a Garça Torta
Construção do edifício Dom Pietro está ameaçando a tranquilidade dos moradores de Garça Torta - Foto: Divulgação

A construção acelerada do residencial Dom Pietro, um empreendimento com previsão de 20 andares na rua São Pedro, praia da Garça Torta, litoral norte de Maceió, continua provocando debate e preocupação entre ambientalistas, arquitetos, políticos e urbanistas, mas sobretudo, entre os moradores, que continuam denunciando os impactos das obras, como abalo estrutural em imóveis vizinhos, tráfego pesado de máquinas e discussões sobre o esmagamento da vocação ambiental e cultural do local, além de ameaças e intimidações dos encarregados da obra.

O professor da Universidade Federal de Alagoas, o urbanista Dilson Ferreira, chamou a atenção para os impactos que uma obra desse porte pode provocar em uma região marcada por ruas estreitas e áreas de relevância ambiental. “Destaco as dificuldades de acesso e logística para a execução do empreendimento, como a passagem de uma retroescavadeira pela rua, que destruiu calçadas durante o deslocamento. E o que vai acontecer depois? A situação levanta questionamentos sobre o que poderá acontecer quando a obra precisar receber equipamentos ainda maiores, como guindastes, caminhões e máquinas pesadas. E as betoneiras, certamente terão dezenas paradas na rua, já que uma obra desse tamanho vai precisar de muito concreto, ferro e vergalhões”, afirma ele.

Dilson Ferreira também alerta para os possíveis impactos futuros caso a região passe por um processo de adensamento urbano e se transforme em um novo polo imobiliário. Na avaliação apresentada por ele, a estrutura viária atual pode não comportar o aumento da circulação de veículos e pessoas. Outro ponto levantado pelo professor é o risco de, futuramente, intervenções urbanísticas ampliarem as vias e atingirem imóveis já existentes. Ele questiona se, diante dos interesses do mercado imobiliário, a população local poderá acabar pressionada por possíveis desapropriações, como aconteceu recentemente

O debate envolve questões que vão além da construção de um único edifício, como mobilidade urbana, infraestrutura, preservação ambiental, planejamento e o futuro de uma comunidade tradicional do litoral de Maceió. E diante de tantas incertezas, o deputado federal Paulão usou a tribuna da Câmara dos Deputados para denunciar os impactos das obras. “A circulação de máquinas pesadas já provocou tremores nas residências, destruição de calçadas e dificuldades para a circulação de vans e do transporte escolar, comprometendo a qualidade de vida dos moradores.”

Em seu pronunciamento, ele destacou a luta da moradora e ativista social Beth Krisam e do professor Dilson Ferreira, que vêm denunciando os impactos ambientais e as ameaças à memória e à identidade do bairro.

Quem autorizou a obra no edifício

Dom Pietro no bairro litorâneo?

Para Beth Krisam e o médico Bruno Fontan, do Observatório Ambiental, a Garça Torta virou endereço de luxo justamente por aquilo que ainda preserva, como as ruas estreitas, casas baixas, uma praia mais sossegada e um ritmo diferente do restante da orla. Mas questionam: E o que acontece quando esse sossego começa a atrair prédios de 20 andares? E certamente a construção do Dom Pietro, empreendimento da Bezerra Incorporadora, de Pernambuco, é o principal problema vivido atualmente pela comunidade.

A discussão, porém, começou bem antes. Em janeiro, o Ministério Público Federal recomendou a paralisação da obra após apontar problemas no licenciamento ambiental e urbanístico. Entre as preocupações estavam o abastecimento de água, o esgotamento sanitário e os impactos sobre a vizinhança. Mas em maio, o Iplam, o Instituto de Planejamento Urbano de Maceió, concedeu uma autorização ambiental municipal de implantação ao empreendimento, conforme publicação no Diário Oficial. Ainda falta esclarecer publicamente como foram resolvidas as pendências apontadas pelo MPF e quais condições acompanharam essa autorização. A construtora já afirmou que segue as normas técnicas e se colocou à disposição para vistoriar e reparar imóveis afetados.

Mas isso não diminui em nada a preocupação dos moradores, que durante a semana denunciaram ameaças dos encarregados da obra, com a chegada de maquinário pesado pelas ruas estreitas.

Beth Krisam se pergunta como pode uma obra ter continuidade mesmo diante das recomendações de paralisação do MFP, que apontou que a obra não possui a devida autorização da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), necessária por se tratar de um terreno em área de Marinha. Segundo ela, o órgão federal e o Ministério Público apontam a ausência de Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e falhas graves na licença de implantação ambiental para um prédio desse porte na região. Mas a empresa responsável defende a regularidade do projeto, alegando possuir os alvarás exigidos pelas normas municipais vigentes na época da aprovação.

A Bezerra Engenharia, apesar de ser uma construtora e incorporadora com cerca de 40 anos, com sede em Caruaru e atuação no Agreste pernambucano, começou muito mal sua história em Alagoas. Fundada em dezembro de 1986 (com operações desde 1985), a empresa atua no setor de construção de edifícios e empreendimentos de alto e médio padrão, com atuação em Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Gravatá.

O Dom Pietro, primeiro empreendimento da Bezerra Engenharia em Alagoas, até o momento só trouxe problemas e muitas polêmicas. Localizado na rua São Pedro, na Praia de Garça Torta, o residencial de alto padrão com 20 andares e estrutura de clube privativo à beira-mar, tem previsão de entrega para dezembro de 2029.

GARÇA TORTA

Rua São Pedro está

perdendo a sua tranquilidade

O bairro de Garça Torta foi oficialmente criado em 6 de janeiro de 2000, por meio da Lei Municipal nº 4.953, que alterou a antiga lei de perimetramento urbano e definiu o abairramento de Maceió. A lenda e a tradição oral contam que a região era frequentada por garças que pousavam em árvores com troncos tortos à beira da praia, o que acabou batizando o local. Há também relatos folclóricos sobre a origem do apelido ligado a uma ave ou a histórias locais de tradição.

Histórica e tradicionalmente, a Garça Torta desenvolveu-se como uma pacata colônia de pescadores, mantendo um estilo de vida simples e forte ligação com a natureza e a preservação ambiental. Nos últimos anos, devido às pressões do crescimento urbano e imobiliário, a comunidade se organizou em movimentos de valorização cultural e defesa do espaço — como o grupo “Abrace a Garça” —, buscando proteger o patrimônio paisagístico local contra o avanço de grandes empreendimentos, como o Dom Pietro.

Já a rua São Pedro, historicamente conhecida por sua atmosfera pacata de vila de pescadores, vizinhança residencial e proximidade com a Praça São Pedro e a Igreja de São Pedro, vai mudar para sempre. A rua e seu entorno acompanham a história do bairro, reconhecido como patrimônio cultural de Maceió, marcado por uma forte colônia de pescadores, casarios simples e forte apelo de turismo cultural e gastronômico. O nome faz referência a São Pedro, padroeiro associado à fé e à tradição pesqueira local.

Historicamente descrita como uma via calma e de perfil comunitário (elogiada, inclusive, por figuras como o cantor Djavan em defesa de sua preservação), a rua reflete o modo de vida tradicional do litoral norte da capital alagoana. Mas nos últimos anos, e com maior intensidade em 2026, a Rua São Pedro tem sido o epicentro de embates urbanísticos. A via estreita e de uso residencial passou a sofrer com os impactos da construção de grandes empreendimentos imobiliários (como espigões e prédios de grande porte na beira da praia), gerando denúncias de moradores, abalo estrutural em imóveis vizinhos, tráfego pesado de máquinas e discussões sobre o esmagamento da vocação ambiental e cultural do local.