Cidades
Encarregado de obra intimida moradores da Rua São Pedro
Moradores da Rua São Pedro, na praia de Garça Torta, litoral norte de Maceió, que já denunciam a mais de um ano que a obra do Edifício Dom Pietro, da construtora pernambucana Bezerra Engenharia, tem gerado sérios transtornos estruturais e ambientais, além de tensões com os responsáveis pela construção, passaram a ser intimidados por encarregados da obra com a chegada de máquinas pesadas nos últimos dias. Segundo esses moradores, eles estão intimidando a comunidade, inclusive, ameaçando as mulheres, alegando que as máquinas têm livre acesso, mesmo destruindo as calçadas e o meio-fio.
A construção do edifício de luxo de 20 andares, que deveria ter sido paralisada após uma recomendação do MPF (Ministério Público Federal), que alegou falhas na licença ambiental, falta de autorização federal para obra em área de Marinha e ausência de estudo de impacto à vizinhança, avançam. As obras do “Dom Pietro - Residencial Beach Club”, que começaram em novembro de 2025, e as corretoras já estão vendendo apartamentos a partir de R$ 1,8 milhão, está novamente no centro de uma guerra declarada com os moradores da praia de Garça Torta, uma das raras da capital alagoana que mantém trechos mais rústicos, sem prédios erguidos na sua estreita rua principal. O bairro também guarda tradição cultural, com pequenas barracas de praia, restaurantes boêmios e presença de pescadores.
Mas tudo isso está murando. As obras estão provocando rachaduras em diversas residências vizinhas ao canteiro de obras. O barulho constante, excesso de poeira, tráfego intenso de caminhões, interrupções no trânsito e problemas crônicos de infraestrutura, fazem parte do cotidiano dos moradores.
O clima na região é de extrema tensão devido a múltiplos fatores que impactam a segurança, a estrutura e a tranquilidade da comunidade como a falta de diálogo, já que vizinhos relatam que o uso de maquinário pesado e britadeiras gerou fortes tremores que causaram rachaduras em várias residências próximas. Moradores afirmam que tentaram estabelecer um diálogo pacífico com os encarregados da obra para alertar sobre o risco aos sobrados vizinhos, mas o empreendimento seguiu avançando de forma agressiva.
Nos últimos dias, com chegada do maquinário pesado, calçadas estão sendo destruídas e o clima de intimidação ganhou força. Uma empresária dona de um restaurante, que preferiu não ter seu nome revelado, afirmou que tanto ela, quanto outras mulheres da rua, estão sendo intimidadas. Ela afirmou que as máquinas estão destruindo calçadas e os encarregados gritando com os vizinhos, sem o mínimo respeito com a comunidade. Diante desse novo quadro, eles vão acionar novamente o Ministério Público.
Mas na casa de Beth Krisam, moradora, é possível ver a obra. “Nós sempre estivemos nos atos e movimentações da prefeitura, mas sobre essa obra, ninguém da construtora nos procurou para conversar”, conta a moradora, que integra o Movimento Observatório Ambiental do Litoral Norte, contra a verticalização da área.
“Nos fins de semana aqui já não comporta carros, imagina quando tivermos esse prédio”, conta Aline Mendes, que mora no bairro desde que nasceu, há 45 anos. Antes do início das obras, moradores chegaram a promover protestos para reclamar da construção. “Aqui sempre foi um local marcado pela tranquilidade, e quem mora aqui quer preservar isso. Nem o asfalto da rua queríamos”, conta.
Morador da Garça há 18 anos, o médico Bruno Fontan relata como a comunidade tem sido afetada pelos mais diversos aspectos dessa construção. “Dom Pietro digamos que é o empreendimento mais simbólico no momento, aqui na Garça Torta, desse projeto de especulação imobiliária que vem avançando em toda a cidade. Principalmente, particularmente, aqui no litoral norte. “Pé de areia”, como o próprio nome já diz, é um prédio de 20 andares na beira da praia, num bairro onde você vê uma enormidade de problemas de estrutura, e que não tem como a gente não se convencer de que vai piorar demais a situação do bairro”, declarou.
A professora da Arquitetura e Urbanismo da Ufal, Maria Angélica, que também reside na Garça Torta há mais de 20 anos, conta que vem acompanhando as transformações da região há muito tempo, buscando mobilizar esforços junto à comunidade para que o bairro fique protegido de violações – sobretudo cometidas contra as pessoas mais vulnerabilizadas no local. “Está lá um prédio que vai causar um enorme sombreamento na praia. Então ele é oferecido como um lugar para as pessoas viverem a natureza, mas na verdade vai destruir a natureza, porque ali é uma região de arrecifes. A gente tem as tartarugas que vão para a costa e tudo isso vai receber um sombreamento enorme, além de um deslocamento dos ventos, que certamente vai acontecer, porque a gente já sente aqui na pista, na pista AL 101 Norte, quando a gente passa em um desses grandes prédios que foram construídos”.
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