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Inca estima 880 casos de câncer de mama no restante do ano em Alagoas

Dados são para novas ocorrências no estado em 2026; enquanto isso, quem sobreviveu à doença comemora cura

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 03/10/2026 08h40
Inca estima 880 casos de câncer de mama no restante do ano em Alagoas
Professoras Ruth França e Rejane Carneiro são sobreviventes que lutaram e venceram o câncer de mama - Foto: Cortesia

Até o final de 2026, uma média de 880 alagoanas poderá receber o diagnóstico de câncer de mama. A estimativa é do Instituto Nacional de Câncer (Inca) que explicou que como a doença ainda não é, na prática, de notificação obrigatória junto ao Ministério da Saúde, os números correspondem a uma média divulgada a cada três anos.

Em todo o Brasil, até o final deste ano, com base nas últimas estimativas do Inca, 78.610 mulheres deverão receber novos casos de câncer de mama.

Os cálculos aproximados referem-se ao triênio 2026/2028, sendo que os números devem ser considerados isoladamente, em cada um dos anos desse intervalo.

Com base nessas estatísticas, a campanha “Outubro Rosa”, objetiva concentrar as ações de conscientização sobre câncer de mama e diagnóstico precoce.

As estimativas do Inca apontam o câncer de mama como o mais incidente na população feminina do Brasil, ocupando o primeiro lugar, excetuando-se o câncer de pele não melanoma. As estimativas do Inca não fazem recorte por faixas etárias.

A cobertura de mamografia é baixa (chegando a cerca de 24%, muito abaixo da meta de 70% da Organização Mundial de Saúde. Sinais de alerta (caroço, retração do mamilo, secreção, alteração na pele) merecem avaliação médica, mesmo fora do período de rastreio.

A médica mastologista e cirurgiã oncoplástica, Lígia Teixeira, afirmou que a idade média de diagnóstico de câncer de mama no Brasil deve cair nos próximos anos porque, cada vez mais, mulheres mais jovens estão sendo diagnosticadas com câncer de mama.

Segundo a médica, alguns entraves distanciam as mulheres do diagnóstico precoce da doença, tais como a desinformação, o medo da dor no exame de mamografia e o medo de saber que tem câncer.

“Hábitos saudáveis como a prática de exercícios físicos, alimentação equilibrada, rica em alimentos naturais e pobre em açúcar, por exemplo, evitar obesidade, que é um fator de risco conhecido para câncer de mama, ter uma boa qualidade de sono e evitar o consumo exagerado de bebida alcoólica são algumas medidas necessárias para ajudar a evitar o câncer de mama”, enumerou Lígia Teixeira.

As chances de cura giram em torno de 95%, quando doença é detectada precocemente. O incentivo ao diagnóstico precoce ganhou um grande aliado, no ano passado, quando o Ministério da Saúde anunciou a redução na faixa etária indicada para realizar, de forma gratuita, exames de mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Desde a mudança, mesmo sem sinais ou sintomas de câncer, mulheres de 40 a 49 anos poderão fazer o exame. Essa faixa etária concentra 23% dos casos da doença e a detecção precoce aumenta as chances de cura.

A mamografia é o exame de rastreamento recomendado para mulheres, com o objetivo de ajudar a detectar tumores mamários antes que se tornem palpáveis.

“É possível reduzir o risco de desenvolver a doença através do estilo de vida saudável, com controle do peso, prática regular de exercício físico e evitando alimentos ultraprocessados como presunto e salsicha. É também importante saber que a mamografia é o principal exame para o diagnóstico precoce”, destacou a médica.

Mastologista Lígia Teixeira alerta para importância de detectar o câncer de mama no início (Foto: Cortesia)

Ainda conforme Lígia Teixeira, o exame padrão ouro para o rastreamento do câncer de mama é a mamografia, que deve ser realizada anualmente a partir dos 40 anos de idade. Um grupo de mulheres, em especial, precisa ficar mais atenta, as que tem muitos casos de câncer de mama e ovário na família.

Como orientações gerais, a médica enumerou a prática de exercícios físicos regulares, alimentação rica em produtos naturais e com poucos industrializados, evitar a obesidade, além de realizar exames de rotina e caso tenha qualquer alteração na mama procurar um mastologista.

Da descoberta da doença à superação que levou até a cura

A enfermeira e professora aposentada da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Ruth França Trindade, 65, contou sua história contra o câncer de mama e definiu sua jornada como do ponto da descoberta da doença ao da superação. “Contar minha história, onze anos depois de ter recebido um diagnóstico de câncer de mama, é uma grande vitória. É uma oportunidade de dividir a minha experiência com outras mulheres, familiares, profissionais da saúde e todos que acreditam na importância do diagnóstico precoce e do acolhimento”.

A suspeita veio em fevereiro de 2015, aos 54 anos, quando procurou um mastologista ao perceber um nódulo na mama. “Eu nunca tinha ido antes a um mastologista e, confesso, fui tranquila, porque não me via como alguém com risco para desenvolver câncer e mama. Eu não tinha histórico familiar de câncer, sempre tive uma vida saudável, praticava esportes, não era sedentária nem obesa. Então, quando encontrei aquele nódulo, pensei apenas que era um problema que precisava saber o que era e resolver, nada mais. Vieram os exames. Fiz ultrassonografia, mamografia, punção e depois a biópsia. Em abril, veio o diagnóstico: carcinoma mamário”.

Ela recordou não ter chorado, apesar de a emoção ter-lhe tomado conta. Os olhos marejaram. Ela respirou fundo. Ao decidir não viver a experiência sozinha, contou a família, amigos, e compartilhou o que estava vivendo. Segundo ela, foi uma escolha muito importante, porque o apoio de todos fez toda a diferença.

Um dia após seu aniversário de 54 anos, em 19 de maio de 2015, fez a cirurgia de quadrantectomia da mama esquerda. No mês seguinte, em junho, iniciei a quimioterapia: foram seis ciclos.

“O período da quimioterapia é sempre desafiador. A energia cai, os efeitos colaterais aparecem, mas quase não os tive, o corpo enfraquece. Mas eu já tinha decido que não iria assumir o papel de ‘doente. Sempre que possível, eu ia ao cinema, almoçava fora, fazia compras. Eu procurava viver, dentro das limitações, a minha rotina. Claro, havia dias em que o corpo pedia descanso, e eu respeitava. Mas eu não me fechei. Nunca quis que o câncer fosse maior do que a vida que eu tinha para viver”.

Nesse período, Ruth França Trindade buscou experiências que lhe trouxessem alegria. Viajou, nadou com golfinhos em Cuba, comemorou 18 anos de paraquedismo – um esporte que faz parte da sua vida e que a ensinou muito sobre enfrentar riscos.

“No paraquedismo, usamos uma sigla: IDA – Identificar, Decidir e Agir. É assim que lidamos com qualquer pane durante um salto. E foi exatamente isso que fiz: câncer identificado o câncer, decidi tratar e agi rapidamente para seguir com o protocolo. Esse olhar objetivo me ajudou a não me sentir vítima. Antes do diagnóstico, eu não me sentia doente. Eu me via como uma pessoa saudável que tinha um problema a ser resolvido. Essa postura fez toda a diferença. Sempre gosto de lembrar de uma frase: ‘A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional’. E eu não escolhi o sofrimento. Escolhi a vida.

Atualmente, Ruth França Trindade destaca também a importância do diagnóstico precoce. Em 2019, ela conheceu a canoagem rosa através de um convite da idealizadora do Projeto Lisa Flor – Daniele Dantas.

Ruth França Trindade deixou um recado: “cada mulher precisa saber sobre a importância de se tocar, de conhecer o próprio corpo e de não adiar a consulta com o mastologista”.

A professora aposentada Maria Rejane Carneiro Rego, 65 anos, descobriu um câncer de mama no auge da vida profissional, há 20 anos.

Depois de sentir uma dor na mama, o sinal de alerta a levou a uma médica e logo vieram os pedidos de mamografia e ultrassonografia das mamas.

A médica deu-lhe a notícia da pior forma possível. Disse-lhe que ela estava com câncer terminal e a encaminhou a uma mastologista. A professora entrou em desespero, só pensava nos filhos adolescentes. Pedia a Deus para deixá-la terminar de cria-los.

“No primeiro encontro com os meus filhos, logo depois de ter recebido o diagnóstico, eles já me olharam perguntando o que houve. Eles choraram. Eu disse-lhes que tivessem calma que eu ia sobreviver”.

Foi um ano de quimioterapia. Na sequência, mastectomia total radical com esvaziamento da axila. Após, novo ciclo de quimioterapia e radioterapia. E mais 12 anos e meio de quimioterapia oral.

“Hoje me considero curada. Tenho acompanhamento médico anual. Sinto medo a cada exame que faço, mas sigo. Ao sentir falta de uma rede de apoio, conheci a Canoagem rosa. Temos uma equipe de mulheres que sobreviveram ao câncer de mama e remam”, concluiu, imbuída de esperança.

Aos 43 anos, a técnica em Radiologia, Samya Tacilla Santana Xavier, comemora, com alegria, todo dia o fato de ter vencido o câncer de mama descoberto aos 37 anos.

“Fiz a cirurgia de imediato, retirei uma mama e os linfonodos. Depois um ano de quimioterapia e depois radioterapia. Faço tratamento medicamentoso até hoje e tomo uma injeção a cada três meses no hospital. Também fiz imunoterapia por um ano. Ao longo desses anos, já fiz 3 cirurgias reparadoras”, detalhou.

Apesar da rotina de exames, médicos e remédios, Samya Tacilla faz academia e caminhada na praia. Ela mora no Francês, em Marechal Deodoro e usa o endereço como refúgio para uma qualidade de vida melhor. Mãe de um casal, está sem trabalhar na área por conta da radiação e está tentando se reinventar. “Não é fácil! Após um câncer, a vida não é mais a mesma. Tudo muda. Ganhei uma nova chance e uma vida. Aprendi a conviver com a dor e com os traumas e tenho consciência de buscar uma vida mais saudável!”, finalizou.

Outubro Rosa

O movimento internacional de conscientização para a detecção precoce do câncer de mama – Outubro Rosa – foi criado no início da década de 1990, quando o símbolo da prevenção ao câncer de mama – o laço cor-de-rosa – foi lançado pela Fundação Susan G. Komen for the Cure e distribuído aos participantes da primeira Corrida pela Cura, realizada em Nova York (EUA). Desde então, a campanha cresce a cada ano, sendo uma das mais conhecidas mundialmente.

No Brasil, tem como objetivo divulgar informações sobre o câncer de mama e fortalecer as recomendações do Ministério da Saúde para prevenção, diagnóstico precoce da doença.