Cidades
Formação de educadores reforça atendimento às crianças em bairros afetados pelo afundamento de solo
MPF acompanha resultados do Trilhas da Infância, ação de reparação para profissionais da rede pública de Maceió
O fortalecimento de políticas públicas e das pessoas que diariamente as colocam em prática também faz parte do processo de reparação pelos danos provocados pelo afundamento do solo em Maceió. Foi com essa perspectiva que o Ministério Público Federal participou, na manhã da terça-feira (22), do Fórum de Encerramento do Projeto Trilhas da Infância, iniciativa de atualização técnica destinada a profissionais das redes municipais de Educação, Saúde e Assistência Social que atuam com a primeira infância.
As procuradoras da República Roberta Bomfim e Julia Cadete participaram do encontro realizado no CMEI Rosaly Leão Gomes, na Cidade Universitária, equipamento entregue no âmbito do PAS. O evento foi a culminância do período de formação, troca de experiências e construção coletiva desenvolvida junto aos profissionais da rede municipal. O Trilhas da Infância integra o eixo Políticas Sociais e Redução de Vulnerabilidades do Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), previsto no Termo de Acordo Socioambiental firmado pelo Ministério Público Federal (MPF) e Braskem, com participação do Ministério Público do Estado de Alagoas (MP/AL) e adesão do Município de Maceió.
Ao longo do percurso, o projeto reuniu quase 200 profissionais, realizou visitas para coleta de informações em oito Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) e promoveu 18 encontros de formação, além de 19 reuniões para a construção de propostas de ação. Mais de 100 profissionais foram certificados. As atividades buscaram aproximar teoria e prática e, sobretudo, estimular a atuação integrada entre áreas que compartilham o cuidado e a proteção das crianças.
Para as procuradoras, os relatos apresentados durante o Fórum deram uma dimensão concreta do alcance dessa forma de reparação. Mais do que capacitar individualmente os participantes, o projeto criou espaços para que profissionais de diferentes serviços se conhecessem, compartilhassem dificuldades dos territórios e construíssem respostas conjuntas e criativas para problemas que atravessam Educação, Saúde e Assistência Social.
Quando a reparação também resgata esperança
Um dos depoimentos que marcaram o encontro foi o da professora gestora do CMEI Sônia Maria Souza Cavalcanti, no Bom Parto. Ao compartilhar a experiência da unidade, ela destacou o resgate da esperança proporcionado pelo projeto em um território diretamente atingido pelo desastre socioambiental. A unidade também está entre os equipamentos que serão contemplados por ações previstas no PAS, aproximando, naquele território, duas frentes da reparação: a melhoria da estrutura pública e o fortalecimento dos profissionais responsáveis pelo atendimento às crianças e suas famílias.
O Bom Parto está entre os bairros afetados pelo afundamento do solo e sofreu profundas transformações com a desocupação de parte de seu território. A saída de moradores e de serviços públicos alterou a dinâmica comunitária e afetou também quem permaneceu no bairro. Assim, os profissionais da rede passaram a lidar não apenas com as consequências sociais do esvaziamento, mas também com repercussões sobre a saúde física e emocional das crianças.
“Quando pensamos em reparação, precisamos olhar também para as pessoas e para as redes públicas que permanecerão nesses territórios. O relato vindo do Bom Parto mostra o quanto é importante fortalecer quem está na ponta, acolhendo crianças e famílias que ficaram e estão lidando diariamente com consequências que em alguns momentos se aprofundaram com a desocupação dos bairros”, destacou a procuradora da República Roberta Bomfim.
Encontros que aproximam a rede
Outro relato destacado durante o evento foi o da gestora do CMEI Profa. Zaira Nascimento de Oliveira, na Chã da Jaqueira, que também apresentou a experiência relacionada ao CMEI Profa. Lucineide Gomes Flor, no Flexal. Para ela, uma das principais contribuições do Trilhas foi justamente proporcionar encontros.
A experiência permitiu estreitar vínculos entre profissionais que trabalham em equipamentos próximos e atendem, muitas vezes, as mesmas crianças e famílias. Entre eles estão o CMEI Lucineide Gomes Flor, a UBS Flexal e o CRAS Emy Geylyane, em Bebedouro — equipamentos entregues no contexto das ações previstas no PAS.
“Uma das coisas mais significativas que vimos hoje foi perceber que o projeto ajudou profissionais que já dividiam um território e atendiam a mesma população a efetivamente se encontrarem. A entrega dos equipamentos é fundamental, mas a reparação ganha outra dimensão quando conseguimos também aproximar as pessoas que trabalham neles e criar uma rede capaz de permanecer articulada”, afirmou a procuradora da República Julia Cadete.
Da formação para a prática
A programação do Fórum foi construída justamente para revisitar esse percurso. Depois da abertura institucional, os participantes acompanharam a apresentação “Trilhas percorridas e Memórias da Caminhada” e um painel dedicado às Comunidades de Práticas, espaços criados nos CMEIs para escuta, troca de experiências e construção coletiva entre profissionais.
As experiências resultaram em propostas elaboradas pelos próprios participantes a partir das necessidades identificadas nos territórios. Entre elas estão ações integradas de cuidado no cotidiano escolar; mutirão de Saúde e Assistência Social; fortalecimento do diálogo intersetorial para o cuidado integral; ações voltadas às atipicidades nos CMEIs; grupos de escuta para educadores e cuidados em saúde mental; e serviço de convivência no apoio à parentalidade.
O encontro também abriu espaço para refletir sobre essas propostas e contou com palestra sobre infâncias brasileiras e políticas públicas de cuidado intersetorial. Participaram das discussões especialistas com atuação nacional na área da primeira infância, entre elas Soraia Melo, coordenadora da Secretaria Executiva da Rede Nacional Primeira Infância; Elisângela Mercado, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e integrante das redes Nacional e Estadual da Primeira Infância; e Mariana Mickhela de Souza, coordenadora-geral de Articulação Federativa e em Rede da Política Nacional Integrada da Primeira Infância, do Ministério da Educação.
Embora o Fórum marque o encerramento do percurso formativo do Trilhas da Infância, as propostas apresentadas apontam para a continuidade das práticas construídas durante o projeto. A expectativa é que os vínculos estabelecidos entre os profissionais e serviços possam permanecer no cotidiano dos territórios, fortalecendo o atendimento integral às crianças e suas famílias.
O resultado do Trilhas evidencia uma dimensão importante do PAS: além da implantação e recuperação de estruturas e serviços públicos, as ações de reparação podem contribuir para fortalecer as redes que dão vida a esses equipamentos, qualificando profissionais, aproximando políticas públicas e criando condições para respostas mais integradas às necessidades da população.
PAS
O Plano de Ações Sociourbanísticas foi construído a partir de escutas públicas e reúne iniciativas destinadas à reparação e compensação dos danos sociais e urbanísticos decorrentes do desastre provocado pela mineração em Maceió. As ações abrangem diferentes áreas e são acompanhadas pelas instituições que assinaram o acordo socioambiental.
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