Cidades

Instituto de Arquitetos do Brasil aciona Ministério Público de Alagoas contra construtoras

Documento aponta avanço desenfreado de verticalização e supressão de áreas verdes nos bairros da Serraria e do Poço

Por Wellington Santos / Tribuna Independente 27/08/2026 09h21
Instituto de Arquitetos do Brasil aciona Ministério Público de Alagoas contra construtoras
Área verde no bairro do Poço, em Maceió, também é apontada pelo IAB como próxima a ser suprimida para dar lugar a prédios - Foto: Divulgação

O Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Alagoas (IAB/AL) formalizou denúncia junto ao Ministério Público do Estado de Alagoas (MP/AL), em qual contesta o avanço contínuo e desenfreado da ocupação urbana e verticalização na capital alagoana. De acordo com o IAB, o que vem ocorrendo em Maceió é a supressão de vegetação densa e madura em áreas essenciais para o equilíbrio ambiental da cidade.

O foco da denúncia aponta dois bairros específicos na capital alagoana ameaçados de supressão de áreas verdes: Serraria e Poço.

A ação do IAB/AL direciona o alerta das autoridades para duas grandes áreas verdes remanescentes intraurbanas que estão sob ameaça iminente de desmatamento e ocupação: o primeiro é no bairro da Serraria, apontando a demarcação por parte da construtora Solidez Engenharia de uma extensa área de vegetação densa e madura localizada nas imediações do Recanto Coração de Jesus, atrás do supermercado Assaí Serraria.

A segunda é no bairro do Poço localizado em um expressivo “miolo de quadra” verde próximo ao moinho Motrisa, onde está prevista a implantação de um empreendimento residencial vertical da construtora Telesil (projeto Splêndido).

A representação do IAB/AL destaca que o direito de edificar não é absoluto e que a substituição de ativos naturais por empreendimentos imobiliários degrada o ecossistema urbano, reduz a umidade, eleva o desconforto térmico e expõe os moradores a poeira e ao aumento de material particulado no ar.

Tribuna detalhou obra onde construtora suprimirá manancial

A Tribuna publicou, na semana passada, reportagem revelando que uma área de 30 mil metros quadrados — equivalente a 3 hectares —, localizado logo atrás onde atualmente funciona o supermercado Atacarejo, na Serraria e com expressiva cobertura vegetal, abrigo de espécies maduras e centenárias como jaqueiras, mangueiras, pinheiros, palmeiras, cajueiros, coqueiros, aceroleiras, pitangueiras e uma diversidade de plantas medicinais, como aroeiras, deve ser suprimida em breve para dar lugar a um condomínio residencial composto por quatro torres.

A Tribuna esteve in loco e apurou que, em breve, já estará em funcionamento o estande de vendas para comercialização do empreendimento. Esta semana, a reportagem passou novamente pelo local e constatou que a obra segue célere com a construção do estande de vendas.

Na ocasião, a reportagem apontou a iminente transformação da área que acende o alerta sobre o equilíbrio ecológico e os impactos urbanísticos na região. Segundo o urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a intervenção em um ecossistema com árvores de grande porte e potencial presença de espécies da Mata Atlântica exige rigor técnico e cumprimento estrito da legislação ambiental.

Área na Serraria equivalente a três hectares e que será devastada (Foto: Edilson Omena)


Fundamentado pelos princípios da Carta Brasileira da Paisagem e pelas diretrizes da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap), o IAB/AL argumenta que a paisagem urbana deve ser tratada como um sistema vivo e estratégico de infraestrutura, e não como mera ornamentação.

“Em um contexto de crise climática e intensificação de ilhas de calor, a manutenção de áreas vegetadas em Maceió deixa de ser uma escolha paisagística para tornar-se uma medida de saúde pública e proteção civil”, diz uma parte do documento enviado ao MP.