Cidades

Condomínio ameaça refúgio de Mata Atlântica

Terreno de 3 hectares de fauna e flora dará lugar a empreendimento imobiliário no bairro da Serraria

Por Wellington Santos / Tribuna Independente 22/08/2026 08h17 - Atualizado em 22/08/2026 08h32
Condomínio ameaça refúgio de Mata Atlântica
Área urbana rara de Mata Atlântica localizada no bairro da Serraria, com cerca de 3 hectares, será devastada; empresa responsável pelo empreendimento imobiliário é a construtora Solidez Engenharia - Foto: Edilson Omena

Em meio ao concreto que ganha cada vez mais espaço no bairro da Serraria, em Maceió, uma área de 30 mil metros quadrados — equivalente a 3 hectares —, resiste como um pulmão verde e abrigo para a biodiversidade local. O terreno, com 230 metros de frente, 280 metros de lateral e 30 metros de fundo (localizado logo atrás onde atualmente funciona o supermercado Atacarejo, na Serraria) e com expressiva cobertura vegetal, abriga espécies maduras e centenárias como jaqueiras, mangueiras, pinheiros, palmeiras, cajueiros, coqueiros, aceroleiras, pitangueiras e uma diversidade de plantas medicinais, como aroeiras. No entanto, esse fragmento natural está prestes a dar lugar a um condomínio residencial composto por quatro torres.

A empresa responsável pelo novo empreendimento imobiliário é a construtora Solidez Engenharia. A Tribuna esteve in loco e apurou que, em breve, já estará em funcionamento o estande de vendas para comercialização do empreendimento.

A iminente transformação da área acende o alerta sobre o equilíbrio ecológico e os impactos urbanísticos na região. Segundo o urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a intervenção em um ecossistema com árvores de grande porte e potencial presença de espécies da Mata Atlântica exige rigor técnico e cumprimento estrito da legislação ambiental.

Urbanista Dilson Ferreira (Foto: Edilson Omena)

“A decisão de desmatar não cabe à construtora nem à prefeitura de forma arbitrária; ela depende exclusivamente de estudos técnicos de impacto ambiental elaborados por biólogos e botânicos”, destaca o urbanista.

A preservação da fauna e da flora locais é o ponto central do debate. De acordo com Ferreira, o diagnóstico precisa avaliar a presença de fauna terrestre e avifauna — como espécimes de cassacos, répteis e ninhos de aves —, além de mapear espécimes arbóreos protegidos por lei, a exemplo do Pau-Brasil e do Ipê.

“Volto a frisar: não é a prefeitura que define isso, quem define é um estudo, é biólogo, são especialistas em botânica que devem avaliar. Tanto a fauna que existe, principalmente a avifauna, pássaro, e também a questão das árvores, porque pode ser que tenha árvore que não se pode cortar, como um Pau-brasil, ou Ipê, que por lei não podem ser tiradas assim”, esclarece.

Diante do valor ecológico e histórico do terreno, o especialista defende que a destinação ideal para a área seria a desapropriação pública para a criação de um parque urbano, mantendo a vegetação original e promovendo o uso comunitário.

“Caso o projeto imobiliário avance, a legislação exige a realização simultânea do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), que analisa o adensamento populacional, a capacidade da infraestrutura de saneamento e energia, a geração de ruídos, o sombreamento e os reflexos na mobilidade urbana do bairro. Essas leis que ainda estão em vigência são estritamente rigorosas em relação a isso”, alerta Ferreira.

DILSON FERREIRA

“Área deveria ser parque e desapropriada”, diz urbanista

Dilson Ferreira destaca ainda que, na hipótese de autorização para a supressão vegetal, a legislação municipal estabelece diretrizes de compensação. O regramento determina que, para cada árvore retirada, ao menos dez novas mudas devem ser plantadas e mantidas até a fase adulta em áreas públicas ou no Parque Municipal, acrescenta Dilson Ferreira.

“Para o caso de a prefeitura autorizar o desmatamento, ela não pode autorizar porque ela quer. Ela tem que autorizar em cima de um laudo e o laudo tem que ser feito por pessoas especializadas”, reitera.

A efetividade dessa medida, contudo, acrescenta o urbanista, depende de fiscalização rigorosa para assegurar que a recomposição florestal ocorra na prática e minimize as perdas para o ecossistema urbano.

NOTA OFICIAL

Iplam: “construtora cumpre fases de licenciamento”

Questionado sobre o processo de autorização da obra, o Instituto de Pesquisa, Planejamento e Licenciamento Urbano e Ambiental de Maceió (Iplam) – responsável pelo licenciamento ambiental desta obra específica -, informou através da assessoria, em Nota, que “o empreendimento vem cumprindo, até o momento, todas as etapas e exigências requeridas pelo processo de licenciamento no município”.

Já a construtora Solidez Engenharia foi procurada pela Tribuna para explicar como vai ser a estrutura do novo condomínio, mas se limitou apenas a dizer que serão quatro prédios no local e depois não voltou a responder as solicitações da reportagem.

SERRARIA

Até meados da década de 1970, a Serraria mantinha características essencialmente rurais, formada por sítios, chácaras de recreio, granjas e grandes glebas de terra. O clima mais ameno — fruto de sua altitude em relação ao nível do mar — atraía moradores em busca de refúgio do calor do litoral.

A transição para área urbana ganhou força entre as décadas de 1980 e 1990, com a abertura e pavimentação das vias de ligação entre a encosta do Farol/Barro Duro e o Tabuleiro. Nesse período, surgiram importantes marcos habitacionais na região, como o Conjunto José Tenório, que impulsionou o povoamento local e o surgimento de um comércio de bairro vibrante.

A partir dos anos 2000, o bairro tornou-se um dos principais focos do mercado imobiliário em Maceió. A presença da Avenida Menino Marcelo (Via Expressa) acelerou a construção de grandes condomínios fechados de casas, edifícios residenciais, colégios privados, galerias e supermercados, transformando a antiga área verde em um polo de serviços altamente adensado.

Hoje, a Serraria conecta a região central às zonas de expansão do Benedito Bentes e Antares, preservando em sua geografia e toponímia as marcas do seu passado extrativista.