Cidades
Ecologista alerta para possíveis impactos do El Niño em Alagoas
Poder público e sociedade devem fazer mobilização geral para encontrar medidas paliativas e estruturantes
O engenheiro agrônomo e ambientalista Ricardo Ramalho, recém chagado do Sertão alagoano, onde participou de um debate em homenagem ao Dia Mundial da Caatinga, alerta as autoridades gerais para uma atenção especial aos eventos extremos que se aproximam com a chegada do El Niño, no semiárido alagoano e em outras regiões do entorno, no Estado, no segundo semestre deste ano.
“Precisamos nos movimentar para que o Governo, em todas as suas instâncias, planeje com a sociedade civil, medidas para, com a máxima antecedência, amenizar os efeitos danosos do El Nino, em Alagoas”, afimou ele, em entrevista à reportagem da Tribuna Independente.
Segundo ele, o fenômeno El Niño é esperado com efeitos climáticos extremos no Brasil e outros países espalhados pelo mundo. Não por acaso, a ONU divulgou recentemente um alerta sobre os riscos de doenças relacionadas a altas temperaturas, como dengue e malária, e a pressão sobre os sistemas de abastecimento de alimentos e água. A ONU também frisa os impactos do El Niño em cascata no clima, na economia e na segurança.
“Em 2016, Alagoas chegou ao ápice de uma crise dramática de escassez hídrica que perdurou e se agravou por seis anos. Segundo dados oficiais da época, 86% da área do Estado alcançou a classificação de seca extrema ou excepcional, chovendo, naquele ano, apenas 40% da média esperada de chuvas. Ocorreu uma estiagem devastadora que secou reservatórios diversos de água superficial, como açudes, barragens, lagos, além de cacimbas, nascentes e poços”, recordou Ramalho, em artigo publicado essa semana, nas mídias digitais.
Segundo ele, o fenômeno climático não se limitou à região semiárida de Alagoas, mas a todos os territórios do Estado, provocando prejuízos aos agricultores e agricultoras, da totalidade das categorias e das lavouras em geral, desde às mais exigentes em água àquelas menos exigentes.
Ramalho escreveu ainda que a produção agropecuária foi, significativamente, diminuída, por falta de chuvas. “Pastos, frutas, grãos, hortaliças minguaram drasticamente. Observaram-se coqueiros e canaviais definhando e morrendo, em pleno litoral, normalmente, de farta precipitação pluviométrica”, destacou o ecologista.
Por isso, ele destaca: “com essa calamidade pública, o governo e a sociedade se mobilizaram para enfrentar a situação e uma série de medidas e providências foram encaminhadas para amenizar o problema da falta de água”. No entanto, um novo ciclo de eventos extremos se aproxima, com a chegada do El Niño, no segundo semestre de 2026.
NOVA AMEAÇA
“Passada uma década, surge nova ameaça, além das mudanças climáticas que se verificam em todo o mundo: El Niño, que em espanhol significa ‘O Menino’, nome que os pescadores referenciam ao Menino Jesus, uma vez que o fenômeno do esquentamento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, ocorre na época natalina. Provoca uma sequência de modificações climáticas, principalmente, na temperatura e no volume das chuvas, seja por excesso ou falta. No Nordeste se reflete com seca e calor intenso”, relatou Ricardo Ramalho.
Ainda de acordo com ele, a última nota técnica, de um conjunto de instituições que analisam as possibilidades de ocorrência do El Niño, de maio passado, apontam que seus efeitos se iniciam no segundo semestre do ano em curso, podendo se estender até 2027.
Quanto à intensidade e às previsões, o ecologista adianta são moderada ou forte. “Os riscos para a agricultura situam-se em chuvas abaixo da média, com intervalos de veranicos nas épocas críticas, principalmente das lavouras típicas da agricultura familiar como milho, feijão e mandioca, como na germinação, floração e enchimento dos grãos”, apontou Ramalho.
“Também, em função da diminuição das chuvas e aumento do calor, os pastos naturais apresentam menor desenvolvimento e ocorre uma redução da rebrota da vegetação nativa da Caatinga. Somem-se, ainda, prejuízos, inicialmente não percebidos de degradação dos pastos pelo superpastejo dos rebanhos”, completou.
Segundo Ramalho, nas duas semanas passadas, as informações populares e observações in loco na região semiárida do Estado, o cenário era, nitidamente, de mais irregularidades na frequência de chuvas e baixo volume para as médias tradicionais, dessa época, caracterizada como, tipicamente, invernosa.
Secretaria de Recursos Hídricos tem plano para enfrentar efeitos extremos
Questionado sobre o que fazer frente às evidências, cada vez mais presentes dos efeitos do El Niño, Ricardo Ramalho afirmou que “cabe aos governos se anteciparem ao agravamento da questão climática e montar um plano estadual de emergência que reúna esforços e ideias nesse sentido”.
O ecologista encerra o artigo dizendo que até por esses motivos de previsibilidade desses riscos climáticos pela ciência, “não cabe a desculpa da falta de informação, existindo, em verdade, ausência de planejamento governamental e na adoção de ações reativas de desastres naturais anunciados antecipadamente que se transformam em verdadeiras tragédias sócio ambientais”.
Ele espera do poder público e da sociedade uma mobilização maior e integrada, para saber encontrar medidas paliativas e estruturantes de enfrentamento da questão. “Para tanto, é essencial escutar a natureza e os ensinamentos da etnoecologia, através das mestras e mestres do saber popular, mesclados e fortalecidos pelo conhecimento e informações da ciência”.
Outro lado
Diante das previsões de intensificação do fenômeno El Niño, o Governo de Alagoas, através da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), atua por meio de monitoramento qualificado e continuado, associado a ações estruturantes em execução.
Segundo a assessoria de comunicação da Semarh, o Estado instituiu a Sala de Alerta, primeira do Brasil, focada na prevenção de desastres naturais.
“Na gestão do governador Paulo Dantas, Alagoas passou a ser o primeiro Estado do Brasil a monitorar as condições meteorológicas de todos os seus municípios simultaneamente e em tempo real. A estrutura técnica foi atualizada com a criação da Superintendência de Prevenção em Desastres Naturais da Semarh e com a aquisição e implantação da nova rede de monitoramento”, destracou a assessoria.
Além disso, a equipe da Semarh atua como coautora do Monitor de Secas, fornecendo dados para o planejamento público.
Como resposta para os períodos de estiagem, o plano de contingência se apoia em obras de convivência com o semiárido planejadas para reduzir a dependência do interior em relação ao regime imediato de chuvas:
1) Microssistemas Comunitários de Abastecimento: Atendem diretamente 8.592 pessoas com água encanada local, contando com uma estrutura que disponibiliza uma reserva de 2,3 milhões de litros de água e capacidade de distribuição diária de 369 mil litros.
2) Programa Água Doce: Fornece atendimento e dessalinização de água para 36 mil pessoas, abrangendo 30 municípios localizados em áreas de alta salinidade.
3) Perfuração de Poços Artesianos: Contabiliza mais de 500 poços perfurados estrategicamente, atendendo cerca de 75 mil cidadãos em 42 municípios alagoanos, como alternativa de acesso à água.
Além das entregas listadas, Alagoas planeja a criação de uma comissão multidisciplinar para gerenciar os cenários caso o El Niño apresente maior intensidade. O trabalho é conduzido com base em critérios técnicos e parâmetros científicos para evitar alardes sem fundamentação.
O relatório do Monitor de Secas aponta o seguinte panorama para o período recente: com exceção do Sertão, onde o índice de chuvas ficou dentro da normalidade, as demais regiões ambientais registraram precipitações acima da média histórica.
Mais lidas
-
1Beneficiários
Proteção Social da PM/AL convoca veteranos e pensionistas para Prova de Vida 2026
-
2Loteria
Mega-Sena acumula e prêmio principal vai para R$ 27 milhões
-
3Copa do Mundo
Noruega elimina a Costa do Marfim e enfrenta o Brasil nas oitavas
-
4Cultura e tradição
Prefeitura de Maceió lança 33º Festival Municipal do Bumba-Meu-Boi
-
5Cachê milionário
Prefeito chama Gusttavo Lima de ladrão após show cancelado




