Cidades
Quando o descanso já não é suficiente
Psicóloga alerta que cansaço persistente pode estar ligado à sobrecarga emocional e digital da vida moderna e não apenas à falta de descanso físico
Acordar cansado depois de uma noite inteira de sono ou sentir que o fim de semana não foi suficiente para recuperar as energias tem se tornado uma queixa cada vez mais frequente. O que muitos interpretam como simples desgaste físico pode ser, na verdade, um sinal de fadiga mental — condição associada ao excesso de estímulos, informações e cobranças que marcam a vida contemporânea.
Ao TH Entrevista, a psicóloga clínica e especialista em gestão de pessoas Sabine Heumann do Amaral, explicou que a sensação constante de esgotamento tem se tornado uma das principais demandas observadas nos consultórios.
“É uma queixa muito recorrente das pessoas que buscam psicoterapia. De uma forma ou de outra, a fadiga mental atravessa a vida de praticamente todos nós na atualidade”, afirmou.
De acordo com a especialista, diferentemente do cansaço físico, que costuma melhorar com repouso, a fadiga mental está relacionada à sobrecarga cognitiva e emocional provocada pela hiperconectividade e pela sensação permanente de urgência.
“Estamos o tempo todo recebendo notificações, acessíveis para o trabalho e para diversas demandas. Mesmo quando a pessoa descansa, ela continua cansada porque esse não é um cansaço físico, mas mental”, ressaltou.
Além da avalanche de informações, Sabine destaca outro fator que contribui para o problema: a autocobrança excessiva.
“Muitas pessoas vivem com a sensação de que deveriam estar produzindo mais. Quando param para descansar, acabam se culpando por não estarem sendo produtivas. Isso também gera desgaste emocional e mental”, observou.
Por que o descanso nem sempre funciona?
Uma das principais dúvidas de quem enfrenta a fadiga mental é entender por que dormir ou passar o fim de semana sem trabalhar nem sempre resolve o problema.
Ainda conforme a psicóloga, o primeiro passo é identificar qual tipo de desgaste está predominando.
“Nem todo cansaço é igual. Existe o cansaço físico, mental e emocional. Cada um exige formas diferentes de recuperação”, salientou.
Ela explicou também que pessoas que trabalham intensamente diante de telas ou lidam com alta demanda intelectual precisam de estratégias que promovam uma verdadeira desconexão da mente.
“Às vezes a pessoa está deitada descansando, mas continua olhando o celular ou assistindo televisão. O cérebro continua recebendo estímulos e não consegue se recuperar”, disse.
Entre as alternativas recomendadas estão atividades manuais, hobbies, momentos ao ar livre e o contato com a natureza.
“São atividades que exigem presença e ajudam a interromper o fluxo constante de informações que recebemos diariamente.”
A dificuldade de desligar do trabalhoOutro aspecto apontado pela especialista é a crescente dificuldade de separar vida profissional e pessoal, especialmente após a popularização do trabalho remoto e do uso constante dos aplicativos de mensagens.
“Antigamente os limites entre trabalho e vida pessoal eram mais claros. Hoje carregamos o trabalho no bolso através do celular”, afirmou.
Para ela, criar barreiras digitais pode ser uma estratégia importante para preservar a saúde mental.
“É possível estabelecer horários para uso do celular e limitar notificações. Essas pequenas mudanças ajudam a criar momentos reais de desconexão.”
Sabine alertou ainda que muitas vezes a sensação de urgência não vem apenas das cobranças externas.
“Precisamos nos perguntar se aquela mensagem realmente precisa ser respondida naquele momento ou se pode esperar até o dia seguinte. Nem tudo é urgente como parece.”
Quando o cansaço pode se tornar um problema maior
A psicóloga destaca que ignorar os sinais de fadiga mental pode abrir caminho para quadros mais graves, como ansiedade, depressão e síndrome de burnout.
“Estamos falando de prevenção. Cuidar da saúde mental antes que o problema se agrave é fundamental para evitar situações que podem levar até mesmo ao afastamento do trabalho”, alertou.
Segundo ela, observar a própria rotina e identificar o que realmente ajuda a recuperar as energias é um exercício essencial.
“O primeiro passo é se conhecer. Entender o que te desgasta e o que te recarrega. Nem todo cansaço será resolvido apenas dormindo. Muitas vezes, o descanso que a mente precisa é diferente daquele que imaginamos.”
A entrevista completa com a psicóloga Sabine Heumann do Amaral está disponível no canal do Tribuna Hoje no YouTube, no portal Tribuna Hoje e na programação da TV COM, canal 12 da Net/Claro.
Confira no link abaixo:
TH Entrevista - Nem dormir resolve: excesso de estímulos e cobranças faz crescer fadiga mental
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