Cidades
Uso de geobags salva três praias em Alagoas
Para engenheiro Marco Lyra, soluções híbridas são melhores escolhas para conter avanço do mar no litoral brasileiro
Obras de proteção costeira no Brasil frequentemente falham quando priorizam estruturas rígidas, como espigões e muros, que bloqueiam o transporte de sedimentos e intensificam a erosão em praias vizinhas, ou quando engordas artificiais sofrem com falhas de drenagem e perda rápida do material. Nos últimos anos, no entanto, as soluções híbridas, que combinam infraestruturas rígidas tradicionais, com elementos naturais e flexíveis, estão dissipando a energia das ondas em vez de bloqueá-las abruptamente, reduzindo a erosão e facilitando o acúmulo natural de areia na costa.
No litoral alagoano já existem alguns casos de sucesso para proteção costeira com uso de obras híbridas, pelos menos em três praias. Em Maceió, na Garça Torta, na Barra de São Miguel, na praia de Barra Mar, uma das que mais sofrem com destruição costeira e em Porto de Pedras, na praia do Patacho, um dos casos mais emblemáticos, já que antes da instalação dos sistemas de contenção com bolsas de areia (sandbags), sofria com um severo avanço do mar, com processo de erosão costeira ameaçando a faixa de areia, causando a derrubada de centenas de coqueiros e danificando propriedades privadas.
Nos casos específicos foram utilizados o Dissipador de Energia Sandbag – DES e um muro de gravidade de forma complementar para contenção de espraio de ondas, garantindo a contenção do avanço do mar no local e a recuperação do perfil da praia, depositando sedimentos no trecho e alargando a faixa de praia, inclusive com nascimento de vegetação de restinga.
Para o engenheiro civil alagoano Marco Lyra, as soluções híbridas são as melhores escolhas para conter o avanço do mar nas praias brasileiras, especialmente em muitas de Alagoas.
Com forte atuação no Nordeste, o especialista se destaca pelo desenvolvimento de tecnologias sustentáveis para proteção de praias, já que é pioneiro na aplicação de sistemas dissipadores de energia baseados em Bagwall e Sandbag, que reduzem a força das ondas sem destruir a dinâmica natural das praias. É autor do livro técnico “Como controlar o avanço do mar”, lançado em 2025, focado em estratégias práticas e baseadas em evidências contra a erosão costeira.
“Se o objetivo for impacto rápido e visível, a engorda artificial funciona, mas é cara e temporária. A engorda da praia (ou aterro hidráulico) é uma técnica de engenharia costeira que consiste em adicionar grandes volumes de areia para alargar a faixa de praia. O objetivo é criar uma barreira física que absorva a energia das ondas, contendo a erosão causada pelo avanço do mar e protegendo a orla. Se o objetivo for estabilidade e custo-benefício, as soluções dissipativas são superiores, já que são intervenções projetadas para reduzir a força destrutiva das ondas. Em vez de apenas bloquear o mar (o que pode intensificar a erosão), essas estruturas absorvem e dissipam a energia da água, contendo o avanço do mar e facilitando o acúmulo natural de areia. Mas se o objetivo for eficiência real, a solução híbrida é a melhor escolha”, afirma o especialista.
Mas segundo ele, o avanço do mar afeta ainda criticamente pelo menos 14 praias em Alagoas. Os pontos mais vulneráveis ficam no litoral sul e na capital, com áreas perdendo faixas de areia rapidamente e ameaçando estruturas comerciais e residenciais.
Na Barra Nova, em Marechal Deodoro, é uma das áreas mais críticas do estado, onde a maré alta frequentemente invade ruas, destrói barreiras de contenção e atinge residências e comércios; Praia do Gunga, em Roteiro, que apresenta risco severo, com projeções de perda de até 60 metros de sua faixa de areia; praia do Saco, também em Marechal Deodoro, onde a erosão provocou a demolição de escadarias de acesso e oferece risco de desmoronamento estrutural e a Praia do Francês, que sofre com o avanço constante do mar em trechos específicos. E mais a sul, a Praia do Pontal, em Coruripe e Pontal do Peba, em Piaçabuçu, litorais que exigem prevenção urgente devido à acelerada erosão costeira.
Em Maceió, a praia da Ponta Verde, que enfrenta forte erosão do solo, o que tem exposto raízes de árvores e danificado o calçadão, exigindo intervenções constantes de obras de contenção, a praia da Sereia, em Ipioca, onde o mar tem avançado com violência durante a maré alta, destruindo estruturas e impactando fortemente os comerciantes locais, além das praias do Pontal da Barra (Av. Assis Chateaubriand), Praia da Avenida e Praia da Ponta da Terra.
E ele cita alguns exemplos de obras que não surtiram o efeito prático, como a recente obra de engorda artificial na praia de Ponta Negra, em Natal, no Rio Grande do Norte, que custou cerca de R$ 100 milhões; o Aterro de Boa Viagem, em Recife e em algumas praias de Aracaju, já que enquanto algumas áreas pontuais acumulam faixas artificiais de areia, setores a sotavento (como a Praia dos Artistas em Aracaju), outras registraram o quase desaparecimento de faixas de areia, formação de correntes perigosas e buracos profundos.
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