Cidades

Pesquisa analisa pedido de perdão do Estado pelo Quebra de Xangô

Trabalho realizado durante o curso de mestrado em Linguística e Literatura foi o primeiro no estado a ser defendido em um terreiro de candomblé

Por Diana Monteiro / Ascom Ufal 14/04/2026 01h06
Pesquisa analisa pedido de perdão do Estado pelo Quebra de Xangô
Amaurício comemorando a qualificação acadêmica, mestre em linguística e em literatura - Foto: Ascom Ufal

No dia 1º de fevereiro de 1912 a perseguição às religiões de matriz africana registrou e marcou em Alagoas um violento episódio de intolerância religiosa. Terreiros de candomblé foram destruídos em Maceió, objetos sagrados queimados, pais e mães de santo atacados na tentativa de apagar a cultura afro-brasileira no Estado, então governado por Euclides Malta.

O acontecimento, que passou a ser conhecido como Quebra do Xangô, teve José Fernandes de Barros Lima, líder da oposição e posteriormente governador de Alagoas, apontado como um dos autores intelectuais da perseguição, e configurou-se como um marco de intolerância religiosa. Cem anos depois, em 1º de fevereiro de 2012, veio o pedido de perdão, oficializado pelo então governador Teotônio Vilela Filho. O ato assinado reconhece a violência institucional do passado, mas a luta pela preservação da memória e pela justiça histórica continua em meio a persistentes desafios.

“O pedido de perdão opera como um gesto simbólico importante, que reconhece a violência histórica e seus impactos para as comunidades tradicionais de terreiro, porém se faz necessário implementar políticas públicas reparatórias e efetivá-las. É preciso reconhecer a resistência das casas de axé que não deixaram as tradições e as manifestações culturais desaparecerem, que protagonizam a construção de uma sociedade mais democrática e diversa”, afirma Amaurício de Jesus, que defendeu no mês de março sua dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura (PPGLL) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e foi aprovado com destaque para a importância de publicar a pesquisa.

Sobre o estudo, intitulado de Entre o dito e o silenciado: O funcionamento discursivo do “ Pedido Perdão” em Alagoas, Amaurício de Jesus, que galga mais um degrau em sua trajetória de qualificação vislumbrando a carreira acadêmica, diz que, embora o estudo revisite o acontecimento discursivo que foi o Quebra de Xangô de 1912 e o “Pedido de Perdão”, ele é contemporâneo quando atualiza a discursividade sobre as casas de axé e sua atuação para manter uma memória atualizada na conquista de políticas públicas.

Para o pesquisador, a defesa no espaço de terreiro reforça um ato simbólico de aproximação entre os saberes tradicionais e acadêmicos, em que o discurso dos excluídos esteve presente. Para ele, a aproximação com as casas e lideranças do axé, possibilitou que ele estivesse sempre envolvido com as ações de celebração à memória do “Quebra”, do pedido de perdão e do processo de tombamento da Coleção Perseverança. Essa coleção é considerada o documento mais importante para a memória religiosa afro-alagoana. Foi tombada definitivamente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é composta por 211 objetos sagrados que resistiram ao Quebra de Xangô.

A motivação para desenvolver a pesquisa focada no tema advém de toda uma trajetória de vida de Amaurício e da sua vivência iniciada na década de 1980, quando começou um trabalho com as manifestações da cultura afro-alagoana, engajando-se no movimento negro local. O que resultou na formação do primeiro grupo de dança afro, o Ekodidé, promovendo uma aproximação com as lideranças das casas de axé, possibilitando diversas articulações.

Graduado em Educação Artística, pós-graduado em Gestão Cultural pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Amaurício diz que continua atuando com as lideranças das casas de axé que formaram a rede alagoana de comunidades tradicionais de matriz africana. E aproveita para reafirmar que é preciso reconhecer a resistência das casas de axé que não deixaram as tradições e as manifestações culturais desaparecerem, que protagonizam a construção de uma sociedade mais democrática e diversa”. Enaltece a dinâmica da defesa do trabalho protagonizada pela instituição alagoana: “Quero destacar o quanto foi importante a Universidade ter realizado a defesa de forma presencial e pela primeira vez uma defesa de mestrado sendo realizada em um espaço de terreiro, possibilitando que as lideranças pudessem estar presentes. Foi a forma de realizar a devolutiva, tão importante para a sociedade”, diz o mestre em Linguística e Literatura, pós-graduado pela Ufal.

Conexão com a realidade na produção do saber

A orientadora da pesquisa, Débora Massmann, afirma que a dinâmica inédita de apresentar um trabalho em um terreiro está além de um escolha simbólica: “A realização da banca de defesa de mestrado de Amaurício de Jesus no terreiro Axé Pratagy, fora dos muros da universidade, produz um deslocamento epistemológico e político de grande densidade. Não se trata apenas de uma escolha logística ou simbólica, mas de um gesto que tensiona a própria ideia de onde o conhecimento pode ser legitimamente produzido, validado e compartilhado”.

Do ponto de vista do conhecimento, enfatiza que a decisão afirma o terreiro como espaço epistêmico. O local da defesa do trabalho sendo no citado espaço, segundo a professora, reconhece-se que ali não está apenas o “objeto” da pesquisa, mas um território de produção de saberes complexos, historicamente invisibilizados ou subalternizados pela racionalidade acadêmica dominante. “A dissertação, nesse contexto, deixa de operar sobre uma realidade externa e passa a se constituir em diálogo com uma realidade viva, que interpela, responde e coproduz o conhecimento. Trata-se, portanto, de um movimento de decolonização epistemológica, no qual se confronta a hierarquia entre saber científico e saber tradicional, abrindo espaço para uma ecologia de saberes”.

Ainda sobre a escolha de ser no “ambiente de sua própria existência” (o terreiro), a professora Débora complementa dizendo que decorre de uma exigência de coerência entre onde o conhecimento é produzido e onde ele é validado. “Se a pesquisa nasce do diálogo com esse espaço, faz sentido que sua avaliação também aconteça ali. O significado desse gesto é profundo: ele reconhece o terreiro como lugar legítimo de produção de saber, rompe com a centralidade exclusiva da universidade e afirma uma ética de devolutiva à comunidade. Além disso, constitui um ato político, ao enfrentar hierarquias históricas entre saberes e contribui para a valorização das religiões de matriz africana como espaços de conhecimento, e não apenas de tradição”.

Ainda, de acordo com a professora Débora, a dissertação, ao se vincular a uma realidade ainda vivida, recusa a lógica de distanciamento que muitas vezes caracteriza a pesquisa acadêmica. Ela se inscreve em um campo de responsabilidade ética, em que o conhecimento produzido retorna à comunidade que o tornou possível. Nesse sentido, a banca no terreiro também materializa um princípio de devolutiva social: o saber não se encerra na universidade, mas circula, fortalece e é reapropriado pelos sujeitos e coletividades implicados.

“Portanto, o que está em jogo é mais do que a defesa de um trabalho: é a reconfiguração das fronteiras entre universidade e comunidade, entre teoria e prática, entre centro e margem. É um gesto que, ao mesmo tempo, produz conhecimento situado e sustenta uma luta contínua por reconhecimento, dignidade e pluralização dos modos de saber”.

Legitimação, mediação, transformação

Na construção do conhecimento em conexão com a realidade de desafios, a importância da Ufal também é considerada pela professora Débora Massmann no processo de resistência em busca de transformações necessárias: “Como luta, esse gesto é profundamente político. Em um cenário ainda marcado por racismo religioso, marginalização das religiões de matriz africana e disputas por legitimidade, levar a universidade ao terreiro é um ato de enfrentamento. É afirmar que esses espaços não apenas resistem, mas também produzem teoria, crítica e pensamento. Mesmo diante dos entraves institucionais (normativos, burocráticos e simbólicos) que ainda regulam o que pode ou não ser reconhecido como espaço legítimo de avaliação acadêmica, a realização da banca no Axé Pratagy evidencia fissuras nesse modelo e aponta para sua transformação”, afirma.

E aproveita para detalhar um pouco sobre o papel exercido pela universidade: “A Universidade Federal de Alagoas desempenha um papel decisivo nesse processo porque atua como instância de legitimação, mediação e transformação. Primeiro, sua importância está na legitimação institucional: ao reconhecer e validar uma pesquisa construída em diálogo com o terreiro, inclusive permitindo sua defesa fora do espaço acadêmico tradicional, a universidade amplia o que conta como conhecimento legítimo. Isso tem efeito simbólico e político relevante, pois desloca hierarquias históricas entre saberes.

Segundo, de acordo com a professora, a Ufal funciona como ponte entre universidade e comunidade. “Ao sustentar esse tipo de iniciativa, ela contribui para que o conhecimento não fique restrito ao espaço acadêmico, mas circule, retorne e dialogue com os sujeitos que o produzem na prática. Terceiro, há um papel formativo: a instituição promove um modelo de aprendizado crítico e situado, no qual estudantes e pesquisadoras/es são incentivados a construir saberes comprometidos com a realidade social, com ética e responsabilidade.

“Por fim, a Ufal se consolida como referência justamente por assumir esse posicionamento: não apenas produzir conhecimento, mas revisar suas próprias práticas, abrindo-se à pluralidade epistemológica e contribuindo para uma universidade mais inclusiva, socialmente implicada e conectada com os territórios em que atua”, enfatiza Débora, que presidiu a banca examinadora de defesa composta pelos professores Sóstenes Ericson Vicente da Silva (PPGLL), Gabriel Omar Alvarez (PPGAS/Ufal) e Ulisses Neves Rafael (PPGA/UFS). Este, de Federal de Sergipe, é especialista no tema do Quebra.

Desafios e enfrentamentos

Débora destaca que os desafios que ainda se colocam às religiões de matriz africana no Brasil são estruturais, históricos e multifacetados. Apesar de avanços institucionais e jurídicos, persiste um cenário de tensões que evidencia a necessidade de enfrentamentos contínuos em diferentes frentes. Ela cita o Racismo religioso e violência simbólica/material: “Ainda há forte incidência de discriminação, ataques a terreiros, intolerância nas escolas e nos espaços públicos, frequentemente legitimados por discursos moralizantes. Esse racismo religioso não é episódico, mas estrutural, atravessando práticas institucionais e relações cotidianas”, diz.

Invisibilidade e deslegitimação dos saberes, os conhecimentos produzidos nos terreiros: cosmologias, éticas, pedagogias, práticas de cuidado, também estão entre os desafios citados pela pesquisadora pois continuam sendo, em grande medida, desconsiderados como formas legítimas de conhecimento. Débora diz que há um déficit de reconhecimento epistemológico, o que reforça a hierarquização entre saberes acadêmicos e saberes tradicionais. Disputas no campo educacional, também: “Mesmo com a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira, sua implementação é irregular. As religiões de matriz africana são frequentemente tratadas de modo superficial, estigmatizado ou silenciado, o que perpetua preconceitos e desinformação desde a formação básica”, reflete.

Outro desafio destacado pela professora trata sobre a intolerância institucional e à fragilidade na garantia de direitos: “Embora haja marcos legais que asseguram a liberdade religiosa, sua efetivação é desigual. Denúncias nem sempre são acolhidas adequadamente, e muitas comunidades enfrentam dificuldades no acesso à justiça e à proteção estatal”.

Ela cita ainda a apropriação cultural e esvaziamento de sentido no contexto dos enfrentamentos: “Elementos das religiões de matriz africana são frequentemente apropriados de forma descontextualizada, sem reconhecimento das comunidades de origem, o que contribui para a diluição de seus significados e para a exploração simbólica. Segurança e proteção de lideranças religiosas é outro desafio. Lideranças de terreiros, especialmente mulheres negras, enfrentam riscos ampliados de violência e perseguição, exigindo políticas específicas de proteção”.

A produção e circulação do conhecimento é outro enfrentamento destacado pela professora Débora Massmann. “Ainda é um desafio garantir que pesquisas sobre essas religiões sejam feitas de forma ética, colaborativa e com devolutiva efetiva às comunidades, evitando extrativismo acadêmico”. E finaliza, dizendo: “Em síntese, o grande desafio é duplo: combater o racismo religioso em suas múltiplas formas e, simultaneamente, reconhecer e integrar os saberes de matriz africana como constitutivos da sociedade brasileira, não como exceção, mas como parte central de sua formação histórica, cultural e intelectual. Isso implica ações articuladas entre educação, políticas públicas, sistema de justiça e, sobretudo, uma mudança mais profunda nas formas de produzir e legitimar conhecimento”.