Cidades

Abate de jumentos volta a causar polêmica

Pesquisador da Ufal contesta decisão do Tribunal Regional Federal autorizando sacrifício dos animais para fins industriais

Por Wellington Santos / Tribuna Independente 02/04/2026 08h15 - Atualizado em 02/04/2026 08h55
Abate de jumentos volta a causar polêmica
Carta aberta assinada por cientistas e pesquisadores pede suspensão imediata do abate de jegues no Brasil, animais que correm risco de extinção - Foto: Adailson Calheiros / Arquivo

Símbolo da tradição rural brasileira — principalmente no Nordeste e, por tabela, em Alagoas — o jumento volta ao centro de um acalorado debate científico e judicial, que ganhou novos capítulos recentemente. Isso porque o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) autorizou o abate de jumentos em novembro de 2025. Em função disso, um grupo de sete pesquisadores de universidades públicas e privadas divulgou uma carta aberta contra a decisão.

Em função disso, especialistas pedem revisão da decisão judicial que permite o abate de jumentos. Uma carta aberta de cientistas pede a suspensão imediata do abate de jegues, com risco de extinção, maus tratos e inviabilidade econômica.

O documento intitulado “O abate de jumentos no Brasil é extrativista e economicamente insustentável” é categórico e rechaça a prática com argumentos econômicos e zootécnicos.

Um desses pesquisadores que subscrevem o documento é Pierre Barnabé, da Universidade Federal de Alagoas, que avalia a decisão do TRF-1.

“Desde 2016 estamos nessa realidade. Ano passado vários pesquisadores disseram que há necessidade de parar com esse abate. Não temos uma cadeia como a de bovinos, aves, o que existe é uma exploração”.

“A atividade é essencialmente extrativista e não há nenhum centro de produção de jumentos para abate nem no Nordeste e nem em Alagoas. Não há indústria sólida nem agronegócio nessa área. Os jumentos vão para abate sem nenhum controle sanitário, são capturados, vendidos e retirados do sertão do país. Temos é um problema de saúde pública, porque eles são levados para centros de manutenção de abrigos de jumentos na Bahia”, completa Barnabé.

“Houve a carta aberta pedindo a suspensão dessa decisão e revisão, porque não existe uma cadeia produtiva de carne de jumento, não há uma cadeia produtiva viável. Não existe controle sanitário nesse viés. O que existe é uma exploração”, diz.

Carta de Maceió tenta evitar extinção dos animais nordestinos

Pierre Barnabé cita o documento III Workshop Internacional Jumentos do Brasil, realizado em junho de 2025, em Maceió, com representantes de 6 países, onde foi divulgada a “Declaração de Maceió – Estado de emergência: Extinção do jumento nordestino”, alertando para a redução de 94% do rebanho nacional de asininos (jumentos e jumentas), que caiu de 1,3 milhão em 1997 para 78 mil em 2025, de acordo com estimativas de pesquisadores baseadas em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura e Pecuária (SIF-Mapa) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Houve essa liberação como se houvesse uma cadeia produtiva, mas a realidade é que não existe. Não há um mercado consumidor no Brasil. Não se tem hábito de se consumir, o que há é um subproduto e, portanto, não tem nenhuma viabilidade comercial no nosso país”, defende o pesquisador da Ufal.

Segundo o Mapa, 248 mil animais foram abatidos, uma média de 113 por dia, entre 2018 e 2023. Enquanto no século passado o interesse estava na carne do jumento, atualmente a motivação é a pele dos animais, utilizada na produção de um composto chamado ejiao. Feito com o colágeno extraído da pele dos jumentos, é bastante consumido na China e vendido on-line por até US$ 920 o quilograma (kg). De acordo com a organização não governamental britânica The Donkey Sanctuary, o consumo de ejiao impõe a necessidade de matar 6 milhões de jumentos por ano. (W.S.)