Cidades
Braskem assume contaminação de água em Marechal Deodoro
Laudo exigido pelo MP/AL diz que trabalho de despoluição no Polo de Marechal deve continuar para zerar organoclorados contaminantes
Trinta anos após o vazamento de toneladas de organoclorados na fábrica da antiga Alclor Química de Alagoas S/A, ocorrido em 24 de março de 1996, o lençol freático do Polo Cloroquímico de Marechal Deodoro segue contaminado, colocando em risco a saúde de moradores do município e da região metropolitana de Maceió.
A informação consta em laudo assinado pelo geólogo Perillo Rostan de Mendonça Wanderley, datado de 30 de agosto de 2025 e encaminhado à Braskem. O documento, encomendado pela própria empresa dentro de exigências do Ministério Público do Estado de Alagoas (MP/AL), aponta a permanência de contaminantes na área.
Segundo o relatório, em junho de 2025 as vazões de extração de água subterrânea foram de 159,17 m³/h e 124,80 m³/h. No mesmo período, foram removidos 1.474,98 quilos de contaminantes — sendo 815,34 kg em maio e 659,63 kg em junho. Já por meio dos sistemas de extração de vapores do solo (SVEs), foram retirados 66.399 quilos de contaminantes no bimestre, sendo 43.267,41 kg em maio e 23.131,61 kg em junho.
O laudo conclui que os trabalhos de descontaminação dos aquíferos saturado e insaturado devem continuar, uma vez que ainda há presença de organoclorados.
Apesar de ter sido condenada em 2006, com base em inquérito civil público sobre o acidente, a Braskem não vinha cumprindo satisfatoriamente as determinações impostas pela sentença. Diante disso, em 12 de janeiro de 2026, a promotora de Justiça Maria Luísa Maia Santos, da Promotoria de Meio Ambiente de Marechal Deodoro, instaurou um Procedimento Administrativo para acompanhar o cumprimento da decisão judicial.
Entre as medidas determinadas estão o registro da portaria, a publicação no Diário Oficial do Ministério Público, a comunicação ao procurador-geral de Justiça, a juntada da sentença e de relatórios periódicos, além da avaliação de laudos técnicos para eventual adoção de novas providências.
De acordo com a assessoria do MP/AL, o procedimento segue em tramitação e aguarda uma resposta definitiva da Braskem sobre as ações necessárias para a descontaminação do lençol freático, bem como um prazo para que a população possa consumir água sem risco.
Com base na defesa da empresa, a promotora também deverá arbitrar uma nova multa. A própria Braskem reconheceu a responsabilidade pelo acidente, considerado por trabalhadores do Polo como um dos maiores já registrados em Alagoas.
O Sindicato Unificado dos Trabalhadores Petroleiros, Petroquímicos, Químicos e Plásticos nos Estados de Alagoas e Sergipe (Sindipetro AL/SE) acompanha o caso desde a época do acidente, quando ainda atuava como Sindiquímica. A entidade espera que a empresa cumpra integralmente a sentença, incluindo a descontaminação total da área no tabuleiro de Marechal Deodoro.
Segundo o sindicato, a reabertura do caso pelo Ministério Público renova a expectativa por uma solução definitiva. “Sabemos que houve um acordo com exigências de medidas mitigadoras para despoluir e descontaminar o solo e o lençol freático da região atingida. Agora, resta saber se a área foi de fato descontaminada. Acreditamos que não”, informou a assessoria.
Após acesso ao relatório encomendado pela própria Braskem, um representante da entidade afirmou que, mesmo com ações de recuperação ambiental, ainda é evidente a presença de organoclorados no lençol freático.
Depoimento
Um operário que trabalhava no Polo de Marechal Deodoro à época do acidente relatou que o vazamento ocorreu devido ao uso de tecnologia inadequada na bacia de efluentes, o que resultou na contaminação do lençol freático.
Segundo ele, a empresa teria tentado firmar parceria com o sindicato para evitar a divulgação do caso, proposta que foi recusada. Uma empresa foi contratada para realizar a descontaminação, com previsão superior a 50 anos para a recuperação total da área.
O trabalhador também afirmou que, antes do prazo estimado, a Braskem teria interrompido os trabalhos, alegando que o lençol freático já estaria descontaminado. Ele ainda citou estudos que apontam risco de aumento de casos de leucemia na região, especialmente entre pessoas que utilizam poços artesianos.
Epicloridrina
A epicloridrina é um líquido incolor, volátil e altamente reativo, utilizado na produção de resinas epóxi, elastômeros, glicerina e produtos químicos para papel. Trata-se de uma substância tóxica, inflamável e classificada como potencial carcinogênica, exigindo rigorosos protocolos de segurança no manuseio.
Já a resina epóxi é um polímero termorrígido de alta resistência, formado pela reação entre uma resina e um endurecedor. É amplamente utilizada em pisos, móveis e aplicações industriais, devido à sua durabilidade, aderência e resistência química.
Em nota, a Braskem afirmou que “vem cumprindo integralmente a sua obrigação atribuída em processo judicial iniciado em 1991” e que as ações são contínuas, com acompanhamento das autoridades competentes.
Na ação civil pública, o MP/AL pediu a condenação da empresa e estabeleceu multa diária — à época fixada em 1 milhão de cruzeiros — em caso de descumprimento das medidas, entre elas a despoluição da área e a apresentação de laudos que comprovem a descontaminação
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