Polícia

Polícia Federal pede a prisão de delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas

Gustavo Xavier, da Polícia Civil, está sendo apontado como chefe de organização criminosa que fraudava concursos públicos

Por Redação - Tribuna Independente 19/03/2026 08h10
Polícia Federal pede a prisão de delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas
Gustavo Xavier, delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas - Foto: Sandro Lima

A Polícia Federal pediu a prisão preventiva do delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, no âmbito da segunda fase da Operação Concorrência Simulada, deflagrada na última terça-feira, dia 17.

A operação Concorrência Simulada tem como objetivo combater uma organização criminosa envolvida com fraudes em concursos públicos e lavagem de dinheiro. A operação foi deflagrada simultaneamente em Alagoas, Pernambuco e Paraíba. As fraudes teriam beneficiado ao menos 16 pessoas. Em um dos casos, o valor cobrado teria chegado a R$ 500 mil.

O pedido de prisão tramitou na 16ª Vara Federal da Paraíba. No texto, a Polícia Federal relatou que o delegado Gustavo Xavier usava policial civil como intermediário para suas exigências. A decisão foi do juiz federal Manuel Maia de Vasconcelos Neto.

No pedido da Polícia Federal, que teve o aval do Ministério Público Federal (MPF), Gustavo Xavier é apontado em delação premiada como chefe da ORCRIM (Organização Criminosa) que, entre outros beneficiados, conseguiu aprovar a própria esposa, Aially Soares Tavares Pinto Xavier, para o cargo de auditora fiscal do Trabalho, no Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024.

Além da esposa, o irmão do delegado, Mércio Xavier, também teria sido favorecido por fraude, em 2023, em concurso do Banco do Brasil. Além deles, a esposa de seu “braço direito”, o policial civil Eudson Matos, também teria sido aprovada na Polícia Científica de Alagoas por determinação de Gustavo Xavier.

O comandante da polícia judiciária do governo de Paulo Dantas (MDB) não teve prisão decretada, mas foi alvo de quebra de sigilo telemático e de busca e apreensão em sua residência, juntamente com outros 12 investigados, após ser apontado pela PF como líder da organização criminosa que fraudou concursos públicos.

Na operação, foram presos Dárcio de Carvalho Lopes da Silva Souza, professor de Português conhecido em Recife como “Dadá Meu Frango”, e Flavio Luciano Nascimento Borges, o “Panda”, com histórico de prisões e reincidência por fraudes a concursos públicos.

Todos os investigados devem responder pelos crimes de fraude em certame de interesse público, participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de documento público.

O delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, é homem de confiança do governador Paulo Dantas. Ele também é acusado de ter ameaçado o delator identificado como Thyago Andrade, para que fraudasse concursos em benefício de seus aliados.

De acordo com apurações da Polícia Federal, o esquema fraudou acesso a cargos em tribunais, universidades e polícias federal, civis e militares.

“Gustavo Xavier passou a ter poder de comando na ORCRIM quando, mediante ameaça, fez com que Thyago José cometesse fraude em benefícios de seus aliados”, diz um trecho da decisão que avaliou o pedido da Polícia Federal pela prisão do delegado alagoano.

O chefe da Polícia Civil de Alagoas também é citado pela Polícia Federal como responsável por vazar uma operação realizada no dia 2 de março do ano passado, mandando avisar a Thyago José sobre o cumprimento de mandados judiciais.

O Ministério Público Federal explicou que a Operação Concorrência Simulada decorre do aprofundamento das investigações sobre o material apreendido na Operação Última Fase, que revelou, em outubro do ano passado, a existência de novos integrantes da organização criminosa, além de possíveis beneficiários do esquema.

As apurações indicam que o grupo atuava de forma estruturada na fraude de concursos de alta concorrência, com destaque para o Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024, no cargo de auditor fiscal do Trabalho. O esquema teria como base a obtenção antecipada de provas e o repasse de conteúdos a candidatos, entre outras práticas ilícitas.

Outro nome citado na decisão é o do policial civil Eudson Matos, que seria, conforme a Polícia Federal, “porta-voz do delegado da Polícia Civil de Alagoas” — o que ainda precisaria ser comprovado com o aprofundamento das investigações, segundo o magistrado.

Segundo a Polícia Federal, os fraudadores utilizavam drones para captar imagens das provas através das janelas dos locais de aplicação. As respostas eram transmitidas via ponto eletrônico para os candidatos. Contudo, a instituição não detalhou os locais de realização das provas.

A investigação abrange o Concurso Público Nacional Unificado (CNU/2024), provas do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, universidades federais, como a da Paraíba (UFPB), e polícias civis de Pernambuco e Alagoas.

Uma das modalidades citadas pela Polícia Federal é o uso de um “clone”, pessoas com maior conhecimento técnico contratadas para realizar o exame no lugar dos inscritos.

O esquema, segundo a Polícia Federal, envolvia a falsificação de documentos de identidade, em que a foto do verdadeiro candidato era substituída pela do “clone” que fazia a prova.

Esse método foi apontado em pelo menos dois casos envolvendo a aprovação do irmão do delegado-geral nos concursos do Banco do Brasil e da Prefeitura de Arapiraca.

Candidatos que obtiveram notas suspeitas, com respostas idênticas em dezenas de questões, foram afastados de cargos que já ocupavam e outros tiveram a aprovação cancelada, segundo a Polícia Federal.

Os suspeitos denunciados na operação poderão responder por crimes como fraude em concurso público, concussão, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

No total, foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão, além de dois mandados de prisão preventiva.

Segundo a Polícia Federal, as investigações começaram a partir da checagem de informações obtidas em fontes abertas, que indicavam possíveis irregularidades.

Foram solicitados à banca organizadora dos concursos os gabaritos dos candidatos suspeitos. Uma análise comparativa dos dados foi feita e mostrou a existência de respostas idênticas entre diversos participantes, o que levantou fortes indícios de fraude.

Os investigadores também identificaram um grupo de candidatos com padrões incomuns, formado por pessoas próximas, como familiares. Também houve casos de candidatos que realizaram provas em locais distantes de onde residiam, o que, segundo a Polícia Federal, teria sido usado para facilitar a atuação do esquema.

As apurações também indicaram que o grupo atuava de forma organizada, com divisão de tarefas e articulação prévia. Conversas extraídas de aparelhos celulares apreendidos revelaram negociações financeiras, acertos para aprovação em concursos e até mesmo a definição de valores elevados para garantir resultados.

Ainda conforme a decisão, Ramon Izidoro Soares Alvez, policial civil de Alagoas e atualmente vereador, também é apontado como integrante da ORCRIM. Ele acompanhava Eudson Matos para repassar ordens a Thyago José.

Em uma narrativa detalhada, o magistrado expõe o suposto esquema de fraude em concursos públicos em várias instituições e estados, de acordo com a Polícia Federal.

O juiz Manoel Maia de Vasconcelos autorizou buscas e apreensões, no entanto, negou o pedido de prisão de ambos e de outros denunciados no esquema de fraudes em concursos públicos.

O magistrado, no entanto, finalizou a decisão determinando o aprofundamento das investigações.

Eudson Matos está detido na Central de Flagrantes de Maceió. Ele teve prisão decretada em abril pela Vara Criminal de Várzea Grande, em Mato Grosso, acusado de tentativa de assassinato do empresário Adriano César Barreto. Ele também responde a uma acusação de assassinato em Alagoas.

Conforme apuração do jornal Tribuna Independente, o delegado Gustavo Xavier deverá permanecer no cargo. A assessoria da Polícia Civil foi procurada e não respondeu até o fechamento desta edição.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da Polícia Civil de Alagoas, e o espaço segue aberto para posicionamento.