Cidades

NASA alerta para destruição de praias

Especialista Marcos Lyra diz que estudo serve para Alagoas, pois cidades costeiras estão entre as mais sensíveis à elevação do mar

Por Claudio Bulgarelli - Sucursal Região Norte / Tribuna Independente 07/03/2026 08h40
NASA alerta para destruição de praias
O mar avança sobre os imóveis, destruindo tudo que encontra pela frente, a exemplo de Barra Nova, povoado localizado em Marechal Deodoro - Foto: Edilson Omena

O aumento do nível do mar deixou de ser apenas uma projeção científica distante e passou a fazer parte do cotidiano de muitas regiões costeiras, afetando diretamente cidades litorâneas, ecossistemas marinhos e atividades econômicas que dependem do mar, em um contexto de aquecimento global e maior frequência de eventos extremos. A combinação entre o derretimento de gelo continental e a expansão da água ao esquentar explica por que o nível do mar continua subindo, ainda que existam variações regionais. Projeções indicam que, se as emissões seguirem elevadas, essa elevação persistirá por muitas décadas.

Segundo o especialista alagoano em proteção costeira, engenheiro Marco Lyra, o aumento do nível do mar pode afetar diversas cidades brasileiras, principalmente as localizadas em regiões costeiras e áreas de baixa altitude. Os estudos mais recentes da NASA destacam capitais, ilhas habitadas, deltas de rios e zonas estuarinas como pontos críticos de vulnerabilidade, incluindo o Rio de Janeiro, a Ilha de Marajó e até o Parque dos Lençóis Maranhenses.

Para ele, o alerta vale também para Alagoas, pois as cidades costeiras estão entre as mais sensíveis à elevação do mar, sobretudo bairros em áreas baixas ou aterradas. “Com o mar mais alto, ondas e marés invadem com maior facilidade calçadões, avenidas à beira-mar, áreas portuárias e sistemas de drenagem urbana”, diz Marco Lyra.

O engenheiro afirma que os impactos mais comuns do avanço do mar incluem erosão costeira (quando o aumento do nível do mar intensifica a força das ondas sobre praias e falésias); inundações mais frequentes (marés altas passam a provocar alagamentos recorrentes, mesmo sem ocorrência de tempestades); intrusão salina (a água do mar pode avançar para rios, estuários e aquíferos subterrâneos) e danos à infraestrutura (portos, sistemas de drenagem, redes de esgoto, estações de tratamento e vias costeiras sofrem maior pressão).

“Mas existem também os impactos sociais e habitacionais, em que moradias situadas em áreas de risco ficam mais expostas a alagamentos e deslizamentos; os problemas de saúde pública, já que alagamentos frequentes favorecem a contaminação da água, o extravasamento de esgoto e a proliferação de vetores de doenças, como mosquitos; e, além de tudo, os impactos econômicos, porque setores como turismo, comércio e atividades portuárias podem sofrer prejuízos com danos estruturais, perda de praias e interrupções frequentes”, afirma o engenheiro.

Planejamento

urbano adaptativo

De forma geral, o avanço do mar exige planejamento urbano adaptativo, investimentos em infraestrutura resiliente e obras de proteção costeira baseadas em engenharia costeira, capazes de aumentar a capacidade de resiliência da praia, conter o avanço do mar e proteger a vegetação de restinga nas áreas de intervenção.

Para ele, o estado de Alagoas apresenta exemplos relevantes de obras de proteção costeira consideradas bem-sucedidas, com aplicação de estruturas dissipativas, como sistemas do tipo Bagwall e Sandbag, voltados à redução da energia das ondas e à retenção de sedimentos. Essas soluções, quando bem dimensionadas, podem contribuir para a estabilização da linha de costa e a recuperação da faixa de areia, inclusive com reconhecimento técnico em âmbito internacional.

“Entretanto, é fundamental realizar análises criteriosas de custo-benefício, considerando não apenas o investimento inicial, mas também manutenção, durabilidade, impactos ambientais e benefícios socioeconômicos. A priorização de soluções sustentáveis — combinando engenharia com restauração ambiental, como recuperação de restinga e manejo adequado da drenagem — tende a produzir resultados mais duradouros. Assim, é indispensável planejamento e ação coordenada dos municípios litorâneos de Alagoas, garantindo estratégias de adaptação climática, recuperação das praias e devolução à população de uma praia natural, segura e recreativa, aliando proteção ambiental, desenvolvimento urbano e qualidade de vida”, conclui o engenheiro.

Ainda segundo Marco Lyra, em Alagoas o mar está engolindo parte de 14 praias, sendo que o estudo de progradação do litoral destaca nove municípios que precisam se prevenir da erosão costeira com urgência. Para ele, as áreas com maior risco de erosão e avanço do mar são: em Piaçabuçu, na Praia do Pontal do Peba; em Coruripe, na Praia do Pontal; em Roteiro, na Praia do Gunga (risco de perda de 60 m de faixa de areia); em Barra de São Miguel, nas praias de Barra Mar e Praia das Conchas; em Marechal Deodoro, nas praias do Saco, Barra Nova e parte da Praia do Francês, todas no Litoral Sul.

Em Maceió, no Pontal da Barra (Av. Assis Chateaubriand), onde foram feitas obras de contenção; na Praia da Avenida; na Praia da Ponta Verde (regiões próximas a obras de contenção); na Praia da Jatiúca, Garça Torta e Riacho Doce, que estão perdendo terreno rapidamente; e parte da Praia de Ipioca, na foz do rio.

No Litoral Norte: Praia da Ilha da Croa, na Barra de Santo Antônio; no Passo de Camaragibe, a Praia do Marceneiro; em Porto de Pedras, a Praia de Salinas, na foz do rio Manguaba; em Japaratinga, nas praias de Barreiras de Boqueirão; e em Maragogi, nas praias de Barra Grande e na divisa Maragogi/São José da Coroa Grande, afetando os manguezais e destruindo residências.

Mas a preparação não depende apenas de obras, mas também de organização social, informação confiável e participação comunitária. Comunidades bem informadas respondem melhor a alertas de risco e cobram políticas adequadas dos gestores públicos. Mapeamento de áreas vulneráveis, planos comunitários de emergência, capacitação de lideranças, educação ambiental e monitoramento participativo de ressacas e alagamentos são iniciativas que fortalecem a resiliência local e tornam as respostas mais justas e alinhadas à realidade de pescadores, trabalhadores do turismo e moradores.