Cidades

Vídeo: população opina sobre polêmica Paulo Afonso x Delmiro Gouveia

Disputa histórica e geográfica pela posse de ilhas onde estão situadas as usinas da Chesf atravessa a ponte que liga Alagoas à Bahia

Por Wellington Santos /Produção: Lucas França/ Tribuna Independente 12/02/2026 08h00 - Atualizado em 12/02/2026 12h04
Vídeo: população opina sobre polêmica Paulo Afonso x Delmiro Gouveia
Na imagem acima, o Aeroporto de Paulo Afonso; abaixo, o centro de Delmiro Gouveia - Foto: Edilson Omena

A Tribuna publica nesta quinta-feira (12) a segunda reportagem sobre a disputa histórica e geográfica que atravessa a ponte que liga Alagoas à Bahia. No centro do imbróglio, a posse das ilhas onde estão situadas as usinas da Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco (Chesf), atualmente sob jurisdição da cidade baiana de Paulo Afonso, mas reivindicadas pelo município alagoano de Delmiro Gouveia, no sertão.

O assunto voltou à tona depois que o Ministério Público do Estado de Alagoas (MP/AL), por meio da 3 ª Promotoria de Justiça da Comarca de Delmiro Gouveia, publicou no dia 29 de janeiro, no Diário Oficial do Ministério Público do Estado de Alagoas (MP), a Portaria Nº 001/2026, através do promotor de Justiça Frederico Alves Monteiro, abrindo procedimento administrativo para que se debata a polêmica.

A entrada do MP no debate entre a suposta usurpação territorial de Paulo Afonso sobre as ilhas que pertenceriam ao município de Delmiro Gouveia foi provocada pelo funcionário público tributarista da Prefeitura de Delmiro Renato Ferreira dos Santos, 63 anos, graças à tese que consumiu quase 30 anos da vida de Renato intitulada “A posse clandestina das terras de Paulo Afonso-BA: Uma análise jurídico-histórica”.

Confira no link abaixo a primeira reportagem sobre o assunto publicada semana passada:

https://tribunahoje.com/especial/2026/01/31/101-ministerio-publico-de-al-reabre-caso-sobre-ilhas-de-paulo-afonso-na-bahia-que-supostamente-pertencem-ao- estado-de-alagoas

O caso, que pode chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF), baseia-se em estudos tributários e históricos que questionam se a divisa natural do Rio São Francisco foi respeitada ou se Alagoas perdeu território para o estado vizinho ao longo das décadas.

Para entender uma das faces desta “briga”, a Tribuna foi ouvir vozes da população dos dois lados da divisa.

NO “SENADINHO” DE PAULO AFONSO, CETICISMO PREVALECE

Na Bahia, o clima entre os moradores é de ceticismo e defesa da identidade local. Para eles, a história e a geografia falam por si.

Socorro Nunes, uma pernambucana que é comerciante há meio século no centro de Paulo Afonso, até tenta absorver a ideia de uma mudança, mas, no frigir dos ovos, ela aponta de que lado está na “briga”. “Eu tenho 50 anos de Paulo Afonso e sou apaixonada por aqui. Se uma mudança dessas for para melhorar para todo mundo, que assim seja. Mas se for para piorar Paulo Afonso e só melhorar Delmiro, aí fica difícil. As ilhas sempre foram daqui. É uma pergunta difícil, mas no fundo, Paulo Afonso é Paulo Afonso.”

Comerciante Socorro Nunes até aceita a mudança, mas que não prejudique a ela e a Paulo Afonso, onde negocia há quase 50 anos (Foto: Edilson Omena)

Já o aposentado Paulo Carregosa, que foi entrevistado pela Tribuna na espécie de “senadinho” localizado bem no coração da cidade, a resposta é sumária: “Para mim, isso não tem lógica. A divisa é o Rio São Francisco. Para Paulo Afonso ser de Delmiro, o rio teria que passar depois da cidade, e ele passa lá embaixo. Paulo Afonso sempre foi município de Glória (BA). Não vejo como a Justiça mudar o mapa se o rio está ali dividindo os estados”, opina Carregosa.

Outro frequentador assíduo do “senadinho”, Manuel Cordeiro, é ainda mais radical: “Isso aqui nunca pertenceu a Alagoas. Antigamente era Forquilha, Vila Potir, pertence à Bahia. Se começarem a questionar isso, daqui a pouco Pernambuco e Sergipe também vão querer brigar por Paulo Afonso. A usina de Delmiro Gouveia fica do lado de Alagoas, mas as terras daqui são nossas”, pontua Cordeiro.

Aposentados em um bar no “Senadinho” no centro de Paulo Afonso: descontentamento geral com a possibilidade de mudança (Foto: Edilson Omena)

Durante o tempo em que a Tribuna ficou entrevistando e fazendo filmagens em Paulo Afonso - e especificamente no senadinho onde estavam cerca de 20 pessoas na praça central -, o descontentamento com a história era flagrante no semblante dos moradores.

JÁ EM DELMIRO, CLIMA É DE RESGATE E DESENVOLVIMENTO

Do lado alagoano, a tese defendida pelo tributarista Renato Santos ganha força como uma promessa de reparação histórica e salto econômico.

Para Luciano Aguiar, ex-secretário e ex-dirigente da Clube dos Dirigentes Lojistas de Delmiro Gouveia, a pesquisa de Renato Santos é profunda. “A CDL inclusive patrocinou buscas por mapas originais no Rio de Janeiro. Além da questão financeira e Alagoas vem perdendo arrecadação há tempos e há o sentido de pertencimento. Precisamos levar essa história para as escolas. Delmiro perdeu força econômica nos últimos 20 anos e esse resgate é vital”, opina Aguiar.

Cidadão de Delmiro Gouveia, Luciano Aguiar acredita na pesquisa de Renato Santos e diz que se ele conseguir provar tese, será a redenção econômica do município (Foto: Edilson Omena)

Já o trabalhador Jailton Gomes afirma: “Como filho de Delmiro, sinto prazer em saber que o que é nosso poder voltar. Se for comprovado por direito, temos que assumir. Isso vai marcar a história da cidade e ajudar no nosso crescimento”, avalia.

Trabalhador Jailton Gomes diz que se mudança um dia acontecer, vai ser histórico para o município de Delmiro Gouveia (Foto: Edilson Omena)

No centro de Delmiro, a Tribuna ouviu as amigas Janaína Santos e Cinthia Barreto que faziam um lanchinho numa praça central. “Acreditamos que seria excelente para o turismo e para a geração de empregos”, opinou Janaína. “Ver essas localidades próximas fazendo parte oficialmente de Delmiro traria uma melhoria muito grande para o povo daqui”, completou Cinthia.

Cinthia e Janaína destacam o desenvolvimento no turismo da cidade se Delmiro conseguir reverter o território das ilhas de Paulo Afonso (Foto: Edilson Omena)

SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME...

O caso mais emblemático nas opiniões que a Tribuna colheu sobre a polêmica Alagoas versus Bahia é, sem dúvidas, a do historiador Clécio Lopes, que mora e leciona há mais de 20 anos em Delmiro, mas é natural de Paulo Afonso. Pisando em ovos para opinar sobre o assunto, ele comentou:

“O problema remonta às Sesmarias. Houve uma posse que acabou adentrando a outra província e, na época, ninguém se preocupou em ajustar a documentação. É uma situação complexa. Eu mesmo nasci em Paulo Afonso, mas fui criado em Alagoas; sou um filho dessa região e vejo que essa ‘guerra de territórios’ é fruto de falhas do passado”, disse Clécio, entrevista defronte a um dos símbolos da cidade de Delmiro Gouveia, o Memorial homônimo que homenageia o desbravador do sertão.

Professor Clécio Santos, entre a cruz e a espada: nasceu em Paulo Afonso, mas vive há mais de 20 anos em Delmiro Gouveia (Foto: Edilson Omena)

Para o geógrafo Kleber Silva e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) no campus Sertão, é um debate que faz rever o destino do Sertão. “Geograficamente, falamos de territorialidade e posse. Economicamente, o impacto seria extraordinário devido à compensação financeira e aos royalties da Chesf. Isso daria a Delmiro Gouveia uma nova presença no contexto regional, impulsionando a indústria e o comércio”, avalia Silva.

Na próxima semana, a Tribuna traz a terceira reportagem para saber o que pensam os empresários e políticos das duas cidades.