Cidades
Reportagem denuncia fome e desigualdades sociais em Alagoas
Trabalho independente de estudantes da Ufal une dados, histórias reais e reforça o papel social do Jornalismo
“O quê? Quem? Quando? Onde? Por quê?” são perguntas-base de qualquer produção jornalística. A partir dessas cinco questões clássicas, o jornalista é capaz de investigar, contextualizar e dar sentido aos fatos. É esse olhar atento e questionador que permite transformar o que, à primeira vista, parece ordinário em pauta de interesse público.
Foi com esse faro jornalístico que as estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Jhessyka Fernandes, Sinara Besera e Maryana Carvalho produziram a reportagem “'A fome dói': Instituto Amigos da Sopa (Iasal) alimenta e capacita comunidades carentes”. De forma independente, o trabalho dá destaque a um projeto social e revela, a partir dele, a desigualdade social que ainda marca o estado de Alagoas.
Conhecendo a ação
O interesse das estudantes pela temática vem justamente da forte desigualdade social que atinge o estado, já que, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Alagoas ocupa o 22º lugar dos estados mais desiguais do país, e, ao conhecer o instituto, focaram em descobrir mais sobre este local e seu trabalho social.
Jhessyka conta que, ao se aprofundar na funcionalidade do projeto, descobriu a grandeza da ação. Por lá, além das doações de mais de quatro mil litros de sopa para mais de 520 famílias distribuídas semanalmente desde 2012, a Iasal oferece cursos profissionalizantes e realiza campanhas para arrecadação de donativos. A partir disso, elas quiseram dar destaque ao vetor transformador que o instituto vem exercendo.
“A gente percebeu que o que eles faziam lá era muito grande, porque muitas ONGs trabalham muito nisso de ofertar aquele apoio momentâneo, aquela coisa que você sabe que vai durar apenas naquele dia, e nisso a pessoa volta para esse estado de insegurança alimentar. E aí a gente viu que eles tinham uma questão muito mais ampla. Se você tem alguma questão insegura para conseguir alimento, eles fazem oficinas profissionalizantes; consequentemente, você consegue arrumar emprego por causa das oficinas, a segurança alimentar diminui, a questão socioeconômica também da pessoa melhora e, por ela, ela vai ter acesso a outras coisas dentro do próprio instituto”, destacou a estudante.
Para Jhessyka, falar deste projeto em específico também é uma forma de fomentar a doação na sociedade, já que o projeto se estabelece pela doação e pelo trabalho voluntário e que é importante que a sociedade veja que cada contribuição conta para quem precisa.
“E a gente tentou meio que costurar isso tudo ao redor da questão da doação. A galera gosta de fazer doações, mas existe uma desconfiança e, quando a gente fala sobre doações para instituições da organização civil, então, não confiam. E aí, a gente queria também tentar abrir o olhar dessa galera e também dar para confiar quando você acompanha de perto, porque eles vão analisar, acompanhar e se envolver também”, ressaltou.
Os desafios do fazer jornalístico
Com o interesse pelo tema, surgiram também os percalços do processo de produção. As estudantes queriam que, além de apresentar a atuação do Iasal, a reportagem trouxesse dados capazes de reforçar o papel essencial que organizações como essa desempenham junto à população em situação de vulnerabilidade social, evidenciando que, por trás dos números, existem pessoas com histórias reais.
Nesse percurso, elas relataram a dificuldade em encontrar dados confiáveis sobre o tema na imprensa do estado, um desafio que, para futuras jornalistas, compromete a construção de qualquer material informativo consistente. Além disso, somou-se a preocupação em garantir clareza e precisão na abordagem, evitando informações subentendidas, de modo que o foco da matéria estivesse sempre evidente.
“Foi um trabalho que exigiu da gente procurar mais, porque não foi tão fácil de encontrar, sabe, essas informações. E, também, por se tratar de temas tão sensíveis, a gente tinha que ter cuidado nas informações e trazer com clareza o que a gente queria transmitir, né, sobre essa comparação entre as ações e a necessidade, realmente, da população em nosso estado. Então, foi um trabalho que foi em conjunto, a gente trabalhou nessa apuração pra ver se aqueles dados eram verídicos, se os sites eram confiáveis. Eu acho que isso fez a diferença pra confiabilidade do que a gente introduziu”, disse a estudante Sinara Beserra.
Para Jhessyka, a falta de dados implicava também no aprofundamento de cada caso, uma vez que, se uma pessoa está em situação de rua, alguns fatores podem potencializar a situação.
“A gente teve que usar números de instituições que não são inerentes ao nosso estado. A gente teve, obviamente, a questão de populações em situação de rua graças ao censo do ano passado do governo do estado de Alagoas, só que a gente não tinha muito como saber, por exemplo, de que raça as pessoas são, qual é a sexualidade das pessoas, de que forma a comunidade vai se reverter e, de alguma forma, implicar ou não a pessoa estar em situação de rua. O jornalismo alagoano é muito problemático porque não se aprofunda. A gente não tem jornalismo científico de verdade, nem jornalismo de dados amplo como deveria ser”, reforça.
Profissionais e humanos
E uma grande questão na formação jornalística é como equilibrar o pessoal e o profissional. Durante a produção, as estudantes tiveram contato com famílias beneficiadas pelo programa e puderam ver a realidade da vulnerabilidade social de perto.
Sinara diz que o jornalismo é uma profissão feita a partir da escuta e descreve que manter o equilíbrio entre o lado emocional e o profissional é uma parte essencial para que as pessoas confiem suas histórias nas mãos de outra pessoa e que o toque humanizado é o principal diferencial para o jornalismo.
“Eu falo que é uma das coisas que mais me interessam na área, é essa capacidade da gente contar histórias. E, principalmente, histórias verídicas, né, de pessoas reais que estão ali, que contam da sua dificuldade, da sua alegria. Então, ver e trazer, né, dar voz pra essas pessoas, pra pessoa assistida ou, então, pros próprios fundadores do projeto foi muito importante”, exclamou.
E mais importante que saber é conhecer. As meninas participaram da ação de distribuição de cestas básicas de Natal, e Sinara diz que foi uma experiência transformadora na sua formação.
“A gente estava naquele dia e foi muito emocionante ver como aquelas pessoas que precisavam mesmo daquela ajuda se sentem gratas por estarem recebendo. Então, eu acho que a gente ter participado fez essa diferença de trazer esse trabalho tão pra perto do que a gente realmente poderia mostrar. Ele faz diferença na vida de pessoas reais. Não são só números, não é só a quantidade que é assistida, mas são pessoas, são famílias que precisam dessa ajuda que o jornalismo está dando”, contou, entusiasmada.
Maryana contou como o contato direto com as famílias relembrou seu amor pela profissão e que ouvir histórias é o que mais ama na área. Ela relembra que as estudantes foram totalmente acolhidas pelas pessoas do projeto e puderam adentrar na vida daquelas pessoas, como foi o caso da dona de casa associada ao projeto, Ediane Rocha.
“É sempre emocionante esse processo. A Ediane, por exemplo, contou como foi difícil, que teve época que passava fome, que a igreja não a acolheu, que o pai dela ganhava um salário mínimo e a gente sabe que um salário mínimo muitas vezes não dá para nada, porque tem muita conta para pagar, e é sempre triste ouvir essas histórias, mas, ao mesmo tempo, é importante conhecer, saber o que as pessoas estão passando, até para que, quando a gente escreve, faz reportagens, instrua o conhecimento não só da gente, mas também de outras pessoas que só leem jornal ou assistem TV”, reforçou.
“Voltar os nossos olhos para essas histórias que precisam de mais tempo”
O valor-notícia, o dia a dia das redações, a correria dos sites e a notícia rápida são essenciais para que o jornalismo aconteça e que tenhamos acesso ao que acontece ao nosso redor, mas, para a estudante Sinara, essas histórias só puderam ser contadas quando as estudantes pararam e voltaram os olhos para a ação. Ela acredita que, como profissionais do jornalismo, é essencial lembrar diariamente do trabalho que ele exerce na vida das pessoas.
“Como jornalista, voltar os nossos olhos para essas histórias que precisam de mais tempo nosso, que precisam de mais contato, que precisam ser contadas com calma é fundamental. Porque, com tanta informação rápida, a gente não consegue absorver muito bem o que é realmente importante. Então, se a gente passa quatro anos para se formar, para aprender, que a gente faça o nosso trabalho realmente bem feito. Porque é pra isso que a gente estuda, é pra isso que a gente se forma, é pra isso que a gente vai trabalhar, para trazer profissionalismo e clareza sobre os assuntos que precisam ser tratados”, pontua.
A lógica de Sinara é reforçada por Jhessyka, que complementa: “Não é uma única reportagem que muda a sociedade, mas é uma questão de interesse. A informação precisa ser cobrada pela sociedade também. A gente precisa cobrar do jornalismo que vá para bairros que não têm água, que cubra isso. A gente precisa consumir informação, correr atrás do conhecimento, porque informação e conhecimento libertam”, continuou a estudante.
Formação de qualidade
Em 2009, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram que o diploma de jornalismo não é obrigatório para exercer a profissão, mas, para as estudantes, a formação e o contato profissional dentro da universidade foram essenciais para a formação profissional delas.
Sinara é incisiva ao dizer que é impossível abrir mão do conhecimento adquirido que só a educação pode transmitir e que, apesar das dificuldades enfrentadas na sua formação, este é o grande diferencial do jornalismo profissional.
“Não tem como a gente lidar com esse tipo de necessidade e demanda que são as produções jornalísticas se a gente não tem realmente essa base de conhecimento que apenas a universidade pode trazer. Falando por mim, que, como repórter nessa reportagem, eu não conseguiria fazer se não fosse realmente o que a universidade ofereceu pra gente como estudante. Ter o contato com os nossos professores e profissionais da área que já atuaram faz toda a diferença pra gente entender como é que funciona”, enfatizou.
Maryana acredita que a universidade também forma os estudantes como seres humanos e que muito mais que ensino, a universidade abre portas para novas descobertas. “A Universidade Federal amplia muito as possibilidades com extensão, pesquisa. Eu fiz extensão, tive contato com projetos, com professores que incentivam a prática. A formação acadêmica dá a base e depois a gente vai praticando esse conhecimento fora da universidade. Tudo o que eu aprendi na universidade eu não aprenderia fora dela”, ressaltou.
Maryana espera que, mesmo com os desânimos que surgem pelo caminho, as pessoas continuem acreditando no jornalismo. “Eu espero que esse trabalho incentive muito. A situação do curso hoje é difícil, isso desanima. Mas eu espero que as pessoas se empenhem, encontrem amizades como eu encontrei as meninas, se inscrevam em projetos, tentem. Espero que venham muitas reportagens, histórias, podcasts, reportagens de TV. Que as pessoas se encontrem e que o curso de jornalismo daqui de Maceió, de Alagoas, se fortaleça mais”, insistiu Maryana.
Para o futuro da produção, as estudantes esperam que a comunidade acadêmica e a sociedade em geral notem como a produção jornalística é ampla e cheia de possibilidades. “A gente pode olhar em três perspectivas: o poder da comunicação, a cobrança por políticas públicas baseadas em dados e a cultura da doação. A gente só consegue cobrar políticas públicas eficazes se estiver envolvido, fiscalizando e participando”, finalizou Jhessyka.
Confira a reportagem abaixo:
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