Cidades
Alagoas perdeu 14% de manguezal em 17 anos
Estado possui mais de 5,5 mil hectares do ecossistema, o que representa 0,2% de sua extensão e 0,4% de toda área no país

Em 17 anos, Alagoas perdeu 14% do seu manguezal. É o que aponta o Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), feito pelo Observatório do Clima em colaboração com outras 18 instituições. O acompanhamento do bioma no estado começou em 2008.
A redução dos manguezais no estado é menor que a média brasileira, que foi de 20%. No entanto, esse índice mais baixo não tranquiliza o trabalho dos ambientalistas que se desdobram para manter os manguezais de pé em Alagoas.
O estado tem 5.537,27 hectares de manguezais, o que representa 0,2% de sua extensão territorial e 0,4% de toda área de manguezal do país, conforme divulgou o Atlas dos Manguezais do Brasil em 2018. Não há estudos recentes, mas os que existem já apontavam, desde então, um cenário de devastação preocupante.
Os manguezais fazem parte de um dos ecossistemas mais diversificados do planeta. O ecossistema é muito importante para a natureza e para os seres humanos pela sua capacidade de captar CO2 da atmosfera.
O professor Alexandre Oliveira, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Estuários e Manguezais (Lapem), do Ceca (Centro de Ciências Agrárias), da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), junto com mais duas pesquisadoras: professoras Melissa Landell do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) e Simone Affonso da Silva do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente (IGDEMA),- explicou que 87% dos manguezais brasileiros estão dentro de unidades de conservação (UCs). São 120 unidades, das quais 55 são federais, 46 são estaduais e 19 são municipais.
“Deste total, 17% (1.998 km²) estão sob proteção integral e 83% (10.115 km²) de uso sustentável. Ressalto que os manguezais são considerados áreas de preservação permanente (APP) áreas protegidas devido a sua importância ambiental e serviços ecossistêmicos. Apesar disso, estamos perdendo manguezal principalmente para a especulação imobiliária. Especialmente no litoral Norte de Alagoas. E nos últimos anos, essa perda vem se intensificando, principalmente em Marechal Deodoro, no Sul do estado”, detalhou ao acrescentar que esses manguezais estão em áreas ditas nobres (área costeira e estuarina).
Ainda conforme o professor, há ainda o impacto das carciniculturas (fazendas de camarão) que dizimaram grandes extensões de manguezal nas décadas 80, 90 e 2000, visto que a lei das APPs é de 2012.
Os manguezais sofrem muito ainda com a poluição aquática. Agrotóxicos, ricos em metais pesados, lançados nas monoculturas, como a cana-de-açúcar em Alagoas, cujo destino final são os corpos hídricos ligados aos estuários e manguezais.
Segundo o pesquisador da Ufal, o manguezal é um ecossistema de extrema importância. “É um dos mais produtivos em relação à matéria orgânica, sendo responsável pela produção de nutrientes para todos os ecossistemas aquáticos. Além disso protege contra erosão marinha, é o berçário de espécies importantes de moluscos (sururu), crustáceos (caranguejo-uçá e siri), peixes, mamíferos aquáticos e aves. Existem estudos que apontam o manguezal como um dos maiores sequestradores de carbono da atmosfera, podendo sequestrar até oito vezes mais carbono do que ecossistemas tropicais”, salientou.
Ufal participa de restauração dos mangues
O professor Alexandre Oliveira representa a Ufal no programa de restauração ecológica de manguezais liderado pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal. Ele participa, inclusive, de um projeto que vai restaurar 200 hectares de manguezais no Maranhão.
O projeto soma mais de R$ 4 milhões de investimento da Petrobras via Funbio – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, associação civil sem fins lucrativos, com o título de Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), em atividade desde 1996.
Alexandre Oliveira é graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Tem Mestrado e Doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Atualmente é professor da Ufal e leciona nos cursos de Engenharia de Energia e Engenharia Elétrica e Agroecologia. Tem experiência na área de Ecologia e Ecotoxicologia; com ênfase em Ecologia de Crustáceos Decápodes, atuando principalmente em projetos na área.
Projeto atua na defesa e na preservação do bioma no Estado
Em Alagoas, apesar do cenário preocupante, o Projeto Mangue Vivo atua em defesa da preservação dos manguezais.
Mangue Vivo – Idealizado pelo Instituto Biota de Conservação, cujo presidente é o biólogo Bruno Stefanis, o projeto Mangue Vivo nasceu em 2023 com o objetivo de proteger os manguezais da bacia hidrográfica do Pratagy.
O Projeto Mangue Vivo monitora mensalmente porções de floresta de manguezal de 10 corpos hídricos da Região Hidrográfica do Pratagy em Alagoas. O mapeamento das áreas é realizado por meio de voos de drone padronizados. A área total monitorada é de 363 hectares distribuídos em 14 áreas de monitoramento.
A região vai do bairro de Jacarecica, em Maceió, até o município de Barra de Santo Antônio, no litoral Norte alagoano, uma região onde a especulação imobiliária avança em uma velocidade impressionante engolindo o manguezal.
O Projeto Mangue Vivo é realizado pelo Instituto Biota de Conservação com patrocínio da Coca-Cola Brasil e apoio da Solar Coca-Cola.
Na avaliação de Bruno Stefanis, a preservação dos manguezais é fundamental, uma vez que eles exercem importantes funções ecossistêmicas, como, por exemplo, prover áreas de abrigo e desenvolvimento para diversas espécies; servir como área de amortecimento entre o oceano e o continente, protegendo contra tempestades e ações erosivas das marés; atuar na retenção de poluentes e ciclagem de matéria orgânica; além de servir como fonte de renda para diversas comunidades que dependem de atividades como a pesca e coleta de mariscos.
Reforçando ainda mais a importância desse ecossistema, na região hidrográfica do Pratagy também são encontradas duas Áreas de proteção Ambiental (APA), a APA do Pratagy (estadual) e a APA Costa dos Corais (federal), duas unidades de conservação que tiveram entre seus objetivos de criação a proteção dos manguezais, bem como a fauna, flora e recursos hídricos associados
Mensalmente, um relatório técnico é disponibilizado no site do Instituto Biota para toda a sociedade.
Bairros afetados pela mineração tiveram perda equivalente a 15,73 hectares
Dos cinco bairros afetados pelo afundamento do solo em Maceió, três ficam às margens da Lagoa Mundaú. Juntas as regiões de Bebedouro, Mutange e Bom Parto perderam o equivalente a 15,73 hectares de manguezal.
Para reparar os danos, um acordo socioambiental entre a Braskem e órgãos de controle foi firmado em dezembro de 2020. A partir dele foi criado o Plano Ambiental do Meio Biótico (PAMB). O plano propõe a compensação ambiental por meio de restauração florestal de 47,19 hectares de manguezal.
No último mês de fevereiro, o Projeto Aflora Mangue finalizou mais uma etapa com a conclusão do plantio de 3.525 mudas de espécies nativas de manguezal em 1,41 hectare, às margens da Lagoa Mundaú, no Bom Parto. Com isso, somando-se à ação realizada no Flexal, o projeto alcança mais de 10 mil mudas plantadas em aproximadamente 4,5 hectares. A iniciativa prevê a recomposição de um total de 47 hectares de manguezal.
A implementação de medidas de compensação ambiental consta no Termo de Acordo Socioambiental, firmado entre Braskem e autoridades.
Tipos
Ecossistema fundamental para faunas aquáticas e terrestres
O manguezal é um ecossistema importante para a fauna aquática e terrestre. Também protege o solo das margens de rios e lagoas contra a erosão. Na região, o ecossistema é formado por três tipos de arvores características: o mangue vermelho, o preto e o branco. A transição entre elas é marcada pela influência das marés sobre o solo e a vegetação.
A zona do mangue vermelho é aquela mais próxima da lagoa e fica a maior parte do tempo submersa. Nesse ambiente, destacam-se as enormes raízes expostas, facilmente confundidas com caules.
O mangue preto fica na faixa um pouco mais distante da lagoa, mas ainda recebe influência direta das marés. Nessa zona o solo fica seco quando a maré baixa e submerso quando a maré sobe. As raízes expostas pontiagudas e retorcidas são características da vegetação nessa área.
Já o mangue branco está na zona mais distante da lagoa e fica submerso apenas nas marés mais altas. As raízes emergem em menor quantidade do solo, e se diferenciam das demais espécies pela cor avermelhada dos talos que ligam as folhas ao tronco.
Conforme o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o ecossistema é o lar de mais de 3 mil espécies de peixes e 120 milhões de pessoas em todo o mundo dependem dele como meio de subsistência. Sem os manguezais, a terra seria acometida por 39% mais inundações.
Os mangues têm um grande papel no combate ao aquecimento global, já que sua capacidade de armazenamento de carbono é de três a cinco vezes maior do que as florestas.
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