Saúde
Setembro Amarelo: Como falar sobre Saúde Mental com Crianças e Adolescentes
Professor de Psicologia explica como ensinar crianças e adolescentes a compreender as próprias emoções, identificar mudanças de comportamento e criar espaços seguros de diálogo e acolhimento
Falar sobre saúde mental desde a infância pode contribuir para o autoconhecimento, a socialização e a prevenção do adoecimento emocional no futuro. Para o terapeuta cognitivo-comportamental e professor do curso de Psicologia da Afya Unima, Anderson Paulo, um dos primeiros passos é ensinar crianças e adolescentes a reconhecer e compreender aquilo que sentem.
“Todas as emoções têm funções protetivas, são naturais e inerentes. Não existe um botão de liga e desliga. Por isso, precisamos ensinar às crianças como agir com as emoções e naturalizar o sentir, e não o evitar”, afirma o professor.
Para tornar esse processo mais acessível ao público infantil, recursos lúdicos podem ser importantes aliados. Brincadeiras, filmes, livros e jogos ajudam a criar caminhos para conversar sobre sentimentos e situações difíceis.
Anderson cita, por exemplo, o filme Divertida Mente, que pode ajudar famílias e educadores a abordar as diferentes emoções de forma mais próxima da realidade das crianças. A forma de comunicação, no entanto, precisa acompanhar cada fase do desenvolvimento.
“Quanto mais jovem é a criança, mais lúdico precisa ser para ser entendido. Quanto mais velho for, mais adaptada precisa ser a comunicação. Não dá para usar um fantoche com um adolescente de 16 anos. Ele pode até se sentir ofendido. O melhor caminho é adaptar a comunicação de acordo com a idade e com o contexto em que a criança ou o adolescente está inserido”, explica.
Mudanças
O professor alerta que alterações em comportamentos considerados habituais merecem atenção de pais, familiares, educadores e outros adultos próximos. Isolamento, introspecção, evitação, mudanças no apetite, agressividade, medo e reclamações frequentes que podem indicar uma tentativa de evitar determinada situação, pessoa ou ambiente são alguns dos sinais que precisam ser observados.
“Qualquer tipo de comportamento considerado normal da criança ou do adolescente que mude precisa ser observado e avaliado. Tudo isso pode ser indicador de sofrimento emocional, e entender as mudanças comportamentais é crucial para compreender suas motivações”, destaca.
Entre os principais tabus relacionados à saúde mental está a ideia de que determinados assuntos não devem ser abordados diretamente com crianças e adolescentes. Para o psicólogo, esse silêncio pode dificultar justamente a identificação de situações que exigem atenção.
“Precisamos desmistificar o ‘melhor não falar disso’. A comunicação e o acolhimento são algumas das maiores ferramentas que qualquer pessoa pode ter para ajudar outra, principalmente em uma situação de sofrimento”, afirma.
Quando há preocupação com um possível risco, Anderson orienta que a conversa seja direta, respeitosa e sem julgamentos.
“Pergunte o que está acontecendo. Pergunte se há falta de vontade de viver ou vontade de se matar, usando os termos que a própria pessoa relata. Observe, escute ativamente e adote uma postura não julgadora. Já existe sofrimento demais para a pessoa ainda sentir culpa ou vergonha pelo que falou ou fez”, ressalta.
Segundo ele, acolher também significa permanecer disponível e demonstrar presença. Caso o adulto não saiba como agir, pode perguntar diretamente de que forma pode ajudar, além de buscar suporte profissional quando necessário.
Caminhar juntas
Frases que minimizam sentimentos ou invalidam o sofrimento emocional também podem representar obstáculos para a busca por ajuda e devem ser evitadas. O professor observa que muitos jovens procuram atendimento depois de encontrarem, na escola, no trabalho, na faculdade ou até mesmo nas redes sociais, um espaço de acolhimento que não encontraram dentro de casa. Nesse contexto, Anderson reforça a importância de compreender as emoções como parte natural da experiência humana e faz uma analogia:
“As emoções são como ondas do mar: elas vêm e vão de forma natural. É preciso normalizar esse entendimento”.
A escola também exerce papel fundamental
Como crianças e adolescentes passam boa parte do dia no ambiente escolar, a instituição pode se tornar um importante espaço de escuta, acolhimento e identificação de possíveis mudanças emocionais.
“A escola precisa ter espaços de diálogo, sejam físicos ou momentos dedicados à escuta ativa. Isso pode acontecer por meio de aulas, oficinas e outras atividades que dialoguem sobre emoções e saúde mental. Mas os profissionais também precisam ser preparados para acolher e saber o que fazer, como agir e quando encaminhar”, afirma.
Para o especialista, a atuação deve envolver família, escola e profissionais de saúde. Psicólogos, psiquiatras, pediatras e outros profissionais podem ser acionados conforme cada situação.
“Todos andam de mãos dadas nesses momentos. Temos responsabilidades na formação emocional, intelectual, cultural e social dessas crianças e adolescentes.”
Além do Setembro Amarelo
Para que a discussão não fique restrita ao período da campanha, Anderson defende a construção permanente de canais de comunicação dentro das famílias e instituições. A recomendação é demonstrar interesse genuíno pela rotina da criança ou do adolescente, aproveitar os pequenos momentos de convivência, observar mudanças, perguntar diretamente quando houver preocupação e acolher sem julgamentos.
“Pergunte abertamente como foi o dia. Mostre interesse genuíno. Esteja presente nos pequenos momentos, como durante uma refeição, assistindo a um filme, brincando ou realizando tarefas juntos. Se notar algo diferente, pergunte. E, diante de sinais preocupantes, não tenha medo de investigar e perguntar diretamente”, orienta.
Para o professor, o Setembro Amarelo pode ser uma oportunidade para reforçar uma prática que precisa existir durante todo o ano: criar relações em que crianças e adolescentes saibam que podem falar sobre aquilo que sentem sem medo de serem ridicularizados, condenados ou julgados.
“Às vezes, o primeiro passo para ajudar uma criança ou adolescente não é ter todas as respostas. É estar presente, perguntar, escutar e mostrar que aquele sofrimento não precisa ser enfrentado sozinho.”
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