Saúde
Mortalidade materna desafia o Brasil
Ginecologista e obstetra Lycia Gama destaca importância do pré-natal, parto seguro e qualificação da assistência
A mortalidade materna continua sendo um dos principais desafios da saúde pública brasileira. Embora o país tenha apresentado redução nos índices após o período mais crítico da pandemia de Covid-19, os números ainda estão distantes da meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030. No Brasil, o compromisso é reduzir a Razão de Mortalidade Materna (RMM) para 30 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos.
Dados do Ministério da Saúde compilados pelo Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr) mostram que a RMM chegou a 71,97 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2020 e subiu para 107,53 em 2021, durante o pico da pandemia. Nos anos seguintes, o indicador voltou a cair, chegando a 50,65 em 2022 e 49,08 em 2023. Ainda assim, o resultado de 2023 permaneceu no limite entre as classificações média e alta utilizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Embora os dados oficiais de 2024 ainda não estejam consolidados, os números disponíveis permitem estimar uma RMM de aproximadamente 55,5 óbitos por 100 mil nascidos vivos, considerando os 1.326 óbitos maternos e os 2.389.325 nascidos vivos registrados naquele ano. O resultado representa uma leve alta em relação a 2023 e mantém o Brasil na faixa considerada alta pela OMS, além de deixar o país distante da meta estabelecida para o fim desta década.
No Nordeste, foram registrados 393 óbitos maternos em 2024, o equivalente a 29,64% do total nacional. Em Alagoas, foram contabilizadas 23 mortes maternas no mesmo período. Para a ginecologista e obstetra Lycia Gama, os números mostram que o enfrentamento do problema depende de uma rede de atenção estruturada e de medidas que permitam identificar e tratar precocemente as complicações durante a gestação, o parto e o puerpério.
“Quando falamos em mortalidade materna, estamos falando de mortes que, em sua maioria, poderiam ser evitadas. O cuidado pré-natal adequado, o acesso a um parto seguro e o planejamento familiar aliado à educação sexual são pilares essenciais para evitar desfechos graves”, afirma a médica.
Entre as principais causas diretas de morte materna no Brasil estão as síndromes hipertensivas, as hemorragias, as infecções puerperais e as complicações decorrentes do aborto. Segundo Lycia, as síndromes hipertensivas merecem atenção especial, por representarem uma parcela expressiva dos óbitos registrados no país.
“As síndromes hipertensivas sozinhas respondem por quase um quarto das mortes maternas no país, o que evidencia a importância do acompanhamento pré-natal e da qualidade da assistência. É fundamental identificar precocemente uma gestante que apresenta alterações da pressão arterial e acompanhar essa paciente de forma adequada”, explica.
A especialista ressalta que as mortes maternas podem ter causas diretas, relacionadas a complicações da gravidez, do parto ou do puerpério, ou indiretas, quando doenças preexistentes ou desenvolvidas durante a gestação são agravadas pelo período gestacional. Para ela, reconhecer os fatores de risco e garantir atendimento no momento adequado são medidas fundamentais para evitar a evolução dos casos.
“Todas essas causas que nós mencionamos são, em grande parte, evitáveis. Do ponto de vista técnico e assistencial, é possível reduzir drasticamente essas mortes. Mas isso depende não apenas da qualidade da assistência médica, como também das condições socioeconômicas da população, do acesso oportuno aos serviços de saúde e da capacidade de organização da rede de cuidados”, destaca Lycia.
A médica também chama atenção para a importância da qualificação da assistência obstétrica. Segundo ela, a obstetrícia não depende necessariamente de tecnologias sofisticadas para evitar muitos dos desfechos graves. A vigilância adequada, o diagnóstico precoce e a intervenção rápida podem fazer a diferença diante de uma intercorrência.
“A obstetrícia não depende de grandes tecnologias para salvar vidas em muitos dos casos. Precisamos de profissionais capacitados, vigilância, diagnóstico precoce e intervenção rápida. Uma assistência bem organizada consegue reconhecer os sinais de alerta e agir antes que uma situação potencialmente grave se transforme em uma emergência”, afirma.
Outro ponto destacado pela especialista é a necessidade de garantir um acompanhamento pré-natal adequado desde o início da gestação. O acompanhamento permite identificar fatores de risco, monitorar a saúde da mãe e do bebê e estabelecer estratégias para possíveis complicações.
“Precisamos garantir no mínimo oito consultas de pré-natal ao longo da gestação, com início precoce do acompanhamento ainda no primeiro trimestre. Também precisamos de uma rede de atenção ao parto que assegure acolhimento oportuno e manejo adequado das intercorrências”, orienta.
Para Lycia, a prevenção da mortalidade materna também começa antes da gravidez. O planejamento reprodutivo e o acesso aos métodos contraceptivos permitem que mulheres possam decidir se querem engravidar, quando e em quais condições, contribuindo para uma gestação mais segura.
A entrevista completa está disponível no canal do Tribuna Hoje no YouTube, no portal Tribuna Hoje e na programação da TV COM (canal 12 da Claro/Net), com exibição às 10h, 16h e 20h.
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