Roteiro cultural
Tradição que resiste: Junina Falamansa retorna aos arraiais com homenagem ao Baile da Chita
Grupo alagoano retoma atividades após hiato e leva aos palcos a história de um dos maiores bailes tradicionais de Alagoas
A força das quadrilhas juninas no Nordeste vai além da dança: ela pulsa como identidade, memória e resistência cultural. Em Alagoas, essa tradição ganha novo fôlego com o retorno da Quadrilha Junina Falamansa, que, após um período de inatividade, prepara um espetáculo inspirado no Tradicional Baile da Chita, evento reconhecido como o sexto Patrimônio Imaterial Histórico e Cultural do Estado e que, em julho deste ano, celebra 73 anos de história.
Fundada em 2000, por José da Hora, na comunidade Benedito Bentes II, na parte alta de Maceió, a Junina Falamansa nasceu com o propósito de animar os arraiais locais como uma quadrilha matuta. Três anos depois, ao se filiar à Liga de Quadrilhas Juninas de Alagoas (LIQAL), o grupo passou por uma transformação estética e artística, assumindo o formato estilizado e representando o bairro em competições por todo o estado e pelo Nordeste.

Presente de forma contínua no São João alagoano até 2019, o grupo enfrentou os impactos da pandemia com ações virtuais para manter viva a cultura. No entanto, o distanciamento social provocou um enfraquecimento das atividades, levando o grupo a um hiato que se estendeu até 2025. Agora, com cerca de 100 pessoas envolvidas entre brincantes, músicos e equipe técnica, a Falamansa retorna com ensaios intensivos e um projeto ambicioso para o período junino de 2026.
Entre passos, memórias e diálogo com a história local
Mais do que coreografias ensaiadas, as quadrilhas juninas representam um patrimônio vivo do Nordeste brasileiro. Elas preservam narrativas populares, celebram a coletividade e mantêm acesa a chama de festas que atravessam gerações. E, por aqui, esse movimento ganha contornos ainda mais significativos ao dialogar com histórias locais que marcaram comunidades inteiras, como é o caso do Baile da Chita.
A escolha do tema deste ano, conforme a organização da Falamansa, partiu do marcador e projetista Anderson Alves, após contato com uma reportagem exibida em 2025 em um jornal de uma emissora de TV local. Segundo ele, o impacto foi imediato. “Outro fator importante é que parte da família dos fundadores da quadrilha é majoritariamente natural e residente de Paulo Jacinto”, explica.
O Baile da Chita, além de manifestação cultural, teve papel fundamental no processo de emancipação política da cidade de Paulo Jacinto, na Zona da Mata alagoana. A festa reunia a comunidade em torno de um concurso de rainhas, cuja arrecadação contribuía diretamente para esse objetivo coletivo. Essa dimensão histórica foi determinante para a construção do espetáculo.

De acordo com o marcador, a narrativa apresentada pela quadrilha trará personagens reais, como Dona Josefa e seu esposo José Aurino de Barros, além de figuras marcantes do contexto da época. O enredo também incorpora a presença simbólica do cantor e compositor Luiz Gonzaga, que, segundo registros históricos, participou do tradicional baile, reforçando o valor cultural do evento.
Além disso, durante a apresentação, o público acompanhará a disputa das rainhas, elemento central da história original, além de um desfecho adaptado, pensado para surpreender e emocionar. “A gente vai tomar como base a história original, mas trazer um novo significado final para além da emancipação”, detalha Anderson.
Ainda segundo o grupo, a pesquisa para a construção do tema envolveu levantamento em fontes oficiais, reportagens e registros históricos, buscando fidelidade e respeito à memória coletiva.
Para a presidenta da quadrilha, Cristina Araújo, que tem uma ligação direta com o enredo e a história do baile, já que sua família é natural do município homenageado, o retorno do grupo carrega um significado profundo. “Depois de sete anos, é difícil até colocar em palavras o que estou sentindo. A Falamansa não é só uma quadrilha pra mim. Ela atravessa a minha vida, a minha história e a da minha família”, ressaltou.
Ela reforça que o tema escolhido dialoga diretamente com esse sentimento de pertencimento. “Não é só uma volta. É um recomeço cheio de história, de amor e de identidade”.
Com figurinos inspirados na chita, tecido símbolo do baile e da cultura popular, o espetáculo busca preservar a originalidade estética e reforçar a conexão com suas raízes. De volta às competições, a Falamansa inicia sua trajetória no grupo de acesso, com planos de disputar festivais em diversas cidades alagoanas e também em outros estados do Nordeste.

‘’Mais do que títulos, o objetivo é reconectar público e tradição. A expectativa vai muito além de ganhar concursos”, afirma Anderson, acrescentando que o real objetivo “está no brilho nos olhos de quem tem relação afetiva com a quadrilha e no sentimento de pertencimento que se fortalece a cada ensaio”.
Ao levar aos arraiais a história do Baile da Chita, a Junina Falamansa não apenas celebra um patrimônio cultural, mas também reafirma o papel das quadrilhas como guardiãs da memória e da identidade do povo nordestino.
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