Roteiro cultural

Exposição fotoetnográfica de Ricardo Maia celebra o quilombo Cajá dos Negros

Trabalho sobre a localidade em Batalha, Sertão alagoano, destaca o protagonismo feminino e reafirma a importância da memória negra para a cultura de Alagoas

Por Assessoria 20/12/2025 17h24
Exposição fotoetnográfica de Ricardo Maia celebra o quilombo Cajá dos Negros
O fotoartista expositor, Ricardo Maia; ao lado, Ivaniza Leite, líder quilombola laica/secular da comunidade, ora exposta na mostra - Foto: Licidéa Tenório e Ricardo Maia / Divulgação

A exposição “Cajá dos Negros – Uma comunidade de destinos quilombolas em Batalha, Agreste alagoano [sic]” se impõe como um trabalho sensível, potente e necessário no cenário cultural alagoano. Ao reunir fotografia, etnografia e compromisso social, a mostra reafirma o papel do fotoetnógrafo como aquele que não apenas registra imagens, mas constrói memória, produz escuta e lança luz sobre modos de vida historicamente invisibilizados. Mais do que um conjunto de fotografias, trata-se de um gesto político e afetivo que contribui para a preservação da história do quilombo Cajá dos Negros e para a compreensão ampliada da diversidade cultural de Alagoas. 

Em cartaz no Complexo Cultural do Teatro Deodoro, a exposição segue em visitação até 14 de janeiro de 2026, ocupando todo o espaço expositivo do equipamento cultural e marca a estreia da primeira mostra individual do psicólogo social e fotoartista Ricardo Maia, que apresenta ao público 96 fotografias produzidas a partir de uma imersão no território quilombola localizado no município de Batalha. Apesar da referência ao Agreste no nome da exposição, o município de Batalha está localizado no Sertão alagoano.

O trabalho é resultado de uma experiência fotoetnográfica vivenciada ao longo de três dias e três noites no quilombo Cajá dos Negros, durante um workshop imersivo realizado pela FRAGMA, em 2023, com apoio da Associação de Desenvolvimento Comunitário de Remanescente de Quilombo de Cajá dos Negros (ADECOQCAN). Inicialmente concebido como projeto coletivo, o ensaio foi posteriormente redirecionado por Ricardo Maia como proposta autoral, assumindo uma perspectiva decolonial, crítica e explicitamente comprometida com o protagonismo quilombola.

Ao falar sobre o processo de criação, Ricardo destaca que todas as imagens foram produzidas durante esse período de convivência direta com a comunidade. “As 96 fotos expostas são resultantes de uma imersão fotoetnográfica, de três dias inteiros e consecutivos, passados no quilombo Cajá dos Negros”, afirma o artista, que utilizou tanto a câmera de um celular quanto uma câmera fotográfica digital, reforçando a ideia de que o olhar e a presença são mais determinantes do que o aparato técnico.

Um dos aspectos que atravessam o ensaio é a recorrência da cor rosa nas imagens, elemento que, segundo o autor, ultrapassa o plano estético e adentra o campo simbólico. “A cor ‘rosa’ não é apenas um detalhe microscópico na cena imagética das fotos, nem tampouco um signo cromático sem importância no imaginário da comunidade”, observa Ricardo. Para ele, esse cromatismo revela uma dimensão micropolítica ligada sobretudo às mulheres negras do quilombo, expressando força, organização social e uma ética feminista compartilhada entre gerações.

Essa leitura se articula diretamente com o caráter feminista da exposição, que presta homenagem ao matriarcado quilombola e à liderança feminina presente no Cajá dos Negros. “Buscou-se, inclusive e sobretudo, prestar uma homenagem à mulher negra-quilombola, ao seu matriarcado e à sua liderança feminina com forte engajamento micropolítico”, destaca o fotógrafo, ao comentar o viés conceitual do trabalho.

A curadoria da mostra é assinada por Ricardo Maia, em parceria com Israel Oliveira e Alice Barros, e a montagem contou ainda com a colaboração dos criativos Robertson Dorta, Ítalo Vinícius e Alexsandro Rocha, responsável pela expografia computacional em 3D. O projeto foi contemplado em edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com recursos do Governo Federal, operacionalizados pelo Governo de Alagoas por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult).

Ao final, a exposição reafirma a potência da fotografia como instrumento de presença e compromisso. Como lembra o próprio Ricardo, inspirado em Roland Barthes, “a vidência do fotógrafo não consiste em ‘ver’, mas em estar lá”. E é justamente essa presença — ética, sensível e implicada — que faz de Cajá dos Negros uma contribuição fundamental para a memória, a cultura e a história viva de Alagoas.


Visualidade de Cajá dos Negros

Por Sílvia Teixeira de Lima*

Das diversas histórias dos quilombos que nos habitam, cada uma traz um conjunto de signos e significados únicos, específicos, próprios e que só acontecem ali, nas condições e contextos que não cabem em nenhum outro lugar. Cada elemento que o retrata, é cheio de informações que dialogam entre sim em diversos formatos.

Cajá dos Negros é um desses tantos quilombos, repletos de sentidos em cada coisa, em cada povo, em cada história que o compõe. Ao olhar para cada pessoa, cada gesto, cada construção, cada ser, vê-se uma relação pautada em diversos tipos de vivências e emaranhadas histórias, possibilitando a quem olha, ver inúmeras possibilidades de significados diante dos signos que apresenta.

O primeiro desses signos, é o seu povo, que traz um emblemático construto de histórias que envolvem uma relação complexa com a terra, o território, as crenças, os afetos, os poderes. Homens e mulheres que falam de si, dos seus mandatos sociais, políticos, econômicos, religiosos, ancestrais. Que com seus olhares, discursos, emoções, traduzem sentimentos dos mais variados com o que lhes dá a condição de existir.

O segundo desses signos, é a sua ancestralidade, que conta das suas raízes, da sua história preta, dos seus símbolos sagrados, dos seus mitos, da sua mitologia, da sua religiosidade, da sua construção social, que se mistura ao longo do tempo com o que chega do entorno, das cidades, dos espaços urbanos.

O terceiro desses signos, o Cajá, a árvore símbolo, que abrigou o início, ancorou o povo, deu sentido de realidade, poder de existir, fruto, vitalidade, consistência, territorialidade. O Cajá se faz viga de sustento, suporte, resistência.

O quarto desses signos, compõe as gerações que foram se construindo ao longo do tempo, formando resistências para não apagar suas histórias tecidas pelas alegrias, tristezas, lutas, choros, gestos, uniões entre cada descendente misturando seus traços, mas mantendo sua preciosa construção identitária.

O quinto desses signos, é a sua religiosidade, que busca manter viva a tradição de matriz africana, porém também a mistura do sincretismo com os componentes católicos e evangélicos, que a colonização trouxe.

Cada fotografia disposta neste cenário, capturou ao olhar do fotógrafo por traz da lente, muito mais signos e significados como que buscando descobrir as inúmeras conexões dessa teia de eventos que esse quilombo vem contando ao longo do tempo.

Cada uma dessas fotografias capturou detalhes ínfimos, que ficarão guardados, eternizados e que mesmo aqui expostas podem contar mais do que simples histórias de um povo, contarão relatos de existências, de encontros e conexões humanas.

Essa exposição possibilita às pessoas que pausarem seus olhos em cada fotografia exposta, absorver aos significados compilados pelo fotógrafo para poder absorver pela lente de seus olhos imagens carregadas de vibrantes histórias e os tornarão em importantes significantes.

Cajá dos Negros retratada aqui em cada fotografia nos abre um olhar para uma história onde nos mostra que ser humano não tem nada de simples, nem de menos, nem de vazio, mas é de uma complexidade e uma potencialidade estupenda, não cabendo em si de tantas possibilidades.

* –Psicóloga/Me Antropologia Social