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Praias: obras para conter avanço do mar podem ter efeito contrário

Ambientalistas alertam que contenção do mar pode mudar curso das ondas, qualidade da água e correntes marítimas

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 21/03/2026 08h20 - Atualizado em 21/03/2026 08h26
Praias: obras para conter avanço do mar podem ter efeito contrário
Intervenções para conter avanço do mar, conforme estudos, resolvem problema local, mas provocam desequilíbrios em outras áreas da costa - Foto: Edilson Omena

As intervenções feitas pelos seres humanos nas praias de Alagoas têm preocupado os ambientalistas que fazem projeções preocupantes baseadas no cenário atual.

Os especialistas alertam para os riscos ambientais que podem ser causadas pelas intervenções em praias, como alargamentos e contenções. Tais alterações podem mudar o curso das ondas e a qualidade da água.

Na avaliação do ambientalista Alder Flores, obras como engordas artificiais de praia, molhes de pedra e muros de contenção têm se multiplicado para conter o avanço do mar no litoral alagoano.

“Os efeitos colaterais no meio ambiente são devastadores”, resumiu ao completar que cidades litorâneas têm recorrido com frequência à engorda de praia, técnica para ampliar artificialmente a faixa de areia. Tais obras podem alterar a dinâmica natural das ondas e das correntes marítimas.

As intervenções humanas têm como consequência mudanças nos padrões de circulação da água, o que pode afetar a qualidade da água e até aumentar o risco de afogamentos em áreas recentemente alargadas.

Estudos comprovam que estruturas emergenciais costumam resolver um problema localizado, mas acabam provocando desequilíbrios em outros pontos da costa.

“Essas obras podem reter areia de um lado, mas intensificar a erosão do outro. O resultado é um efeito dominó que exige novas intervenções e pode comprometer a continuidade da praia”, explicou Alder Flores.

Com o avanço da erosão, algumas pessoas constroem muros de contenção para proteger suas edificações. O resultado, porém, é a perda quase total da faixa de areia durante a maré alta. Ecossistemas como manguezais, restingas, dunas e recifes de coral desempenham papel fundamental na proteção do litoral.

“Esses ambientes absorvem a energia das ondas, mantêm os sedimentos no lugar e amortecem o impacto das ondas. A praia é dinâmica, mas as estruturas de concreto são estáticas e não se adaptam aos ciclos naturais”.

Manguezais também desempenham papel estratégico, além de armazenarem grandes quantidades de carbono, sustentam cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas comercialmente.

Restingas e dunas, por sua vez, conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente, acompanhando a elevação do nível do mar quando preservadas.

“O litoral é um bem coletivo. Planejar sua ocupação com base em evidências científicas é garantir que ele continue existindo e gerando prosperidade para as próximas gerações, e não apenas para interesses particulares de curto prazo”, afirmou Alder Flores.

Ainda conforme o ambientalista, a intervenção humana tem um impacto enorme – e crescente – sobre os mares. Não é exagero dizer, acrescentou ele, que boa parte dos problemas atuais dos oceanos vem diretamente das nossas atividades.

Para o ambientalista Alder Flores, obras causam efeitos colaterais devastadores no meio ambiente (Foto: Adailson Calheiros / Arquivo)

Segundo o ambientalista, os esgotos e resíduos industriais liberam substâncias tóxicas, metais pesados e nutrientes em excesso. “Isso pode causar fenômenos como a eutrofização, que reduz o oxigênio e mata peixes. A sobrepesca ou a pesca excessiva reduz populações de espécies e pode levar ao colapso de estoques pesqueiros, afetando toda a cadeia alimentar marinha, desequilibrando o ecossistema.

Isso sem falar nas mudanças climáticas. O aumento de gases de efeito estufa intensifica o aquecimento global. E como consequências nos mares estão a elevação do nível do mar e a alteração de correntes oceânicas.

“Como consequência também estão o branqueamento de corais, a acidificação dos oceanos, o excesso de CO₂ dissolve-se na água, alterando o pH da água, o que prejudica organismos com conchas e esqueletos calcários, como corais e moluscos.

E, por fim, o derramamento de petróleo. Acidentes e vazamentos contaminam grandes áreas, afetando fauna e flora marinha por anos. Outro problema, conforme Alder Flores, é a ocupação costeira e obras como construções, portos e turismo desordenado destroem manguezais, restingas e recifes, que são berçários naturais de muitas espécies.

“Todos esses fatores levam a intervenção da biodiversidade, o desequilíbrio ecológico, a redução de recursos pesqueiros e os riscos à saúde humana”, finalizou.

Especulação imobiliária

Na avaliação da bióloga Neirevane Nunes, em Alagoas, a discussão sobre como a intervenção humana modifica o curso do mar passa, necessariamente, pelo avanço da especulação imobiliária no nosso litoral, além da extração de areia pra tamponamento das minas da Braskem.

“No estado, tanto no litoral Norte quanto no litoral Sul, ocorre um processo acelerado de ocupação da zona costeira, marcado pela expansão de empreendimentos sobre áreas ambientalmente sensíveis. Essas intervenções no ambientem são responsáveis pela supressão de vegetação de restinga, degradação dos manguezais, alteração de dunas e impermeabilização do solo e tudo isso tem intensificado os processos de erosão, a perda de faixa de areia e o aumento da vulnerabilidade da nossa zona costeira. Ou seja, o mar avança como resposta direta a esse modelo irresponsável de intervenção humana”, destacou.

Em se tratando especialmente de Maceió, completou a bióloga, esse processo está diretamente relacionado à pressão sobre o mercado imobiliário, especialmente após o deslocamento forçado dos atingidos pelo crime da Braskem em cinco bairros da capital.

Neirevane Nunes explicou que há uma valorização crescente da orla e das áreas costeiras, o que estimula novas construções e intervenções, sem o devido planejamento e sem considerar os impactos ambientais cumulativos.

“Um exemplo desse processo pode ser observado em Jacarecica. Na região, intervenções associadas à expansão urbana e imobiliária vêm alterando a dinâmica natural da foz do rio, causando impactos diretos sobre a restinga. Ao modificar o fluxo natural de sedimentos e a interação entre rio e mar, essas intervenções contribuem para intensificar a erosão costeira e aumentar a instabilidade ambiental. Jacarecica, portanto, não é um caso isolado, mas a expressão concreta, no território, de um modelo de ocupação que ignora os limites ecológicos e transforma a dinâmica costeira”, detalhou.

Outra questão que agrava esse cenário, acrescentou ela, é a extração de areia para o tamponamento das minas da Braskem, que tem provocado a degradação de áreas de preservação permanente no litoral Sul, como em Marechal Deodoro, Barra de São Miguel, Feliz Deserto e Piaçabuçu.

Segundo Neirevane Nunes, um caso emblemático é o das dunas do Cavalo Russo, no município de Marechal Deodoro, onde a retirada de areia tem causado impactos significativos, sem que haja a devida recuperação ambiental das áreas degradadas.

O mais grave, segundo a bióloga, é que toda essa expansão ocorre sem o devido Planejamento. O Plano Diretor de Maceió, que deveria orientar o uso e ocupação do solo urbano, encontra-se desatualizado frente às novas dinâmicas territoriais e às pressões ambientais. Isso significa que a cidade está sendo redesenhada sem o ordenamento adequado, abrindo espaço para decisões sem o controle social necessário e alinhadas a interesses econômicos. Além disso, o estado de Alagoas não possui um Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) implementado, que é um instrumento essencial para organizar o território a partir de critérios ambientais, sociais e econômico.