Cidades

'Professor tem sido exemplo de superação'

Pandemia escancara e agrava problemas na atuação do profissional, que vão desde assédio moral a incertezas quanto ao futuro

Por Evellyn Pimentel com Tribuna Independente 15/10/2020 08h27
'Professor tem sido exemplo de superação'
Reprodução - Foto: Assessoria
Esta quinta-feira, 15 de outubro, é Dia do Professor e além das homenagens e felicitações, a categoria cobra reconhecimento de problemas silenciosos: sobrecarga, pressão psicológica, somatização, insegurança jurídica, dificuldade de adaptação as ferramentas digitais. As duas maiores entidades que representam a categoria no Estado revelam que o cenário é de desafios e muita superação. O atual presidente do Sindicatos dos Professores (Sinpro-AL) Fernando Cedrim aponta para um momento muito delicado, principalmente em relação à saúde o bem-estar dos professores. “Para a gente é um dia que marca a resistência. A gente comemora o dia e o utiliza para mostrar o quanto o professor foi e é guerreiro nesse momento de pandemia. Não parou de trabalhar, teve de se reinventar. Não teve a chance de ‘retornar ao trabalho’, não parou. Ele teve a sua residência transformada em escola, num trabalho ininterrupto. Os professores precisaram se reinventar, evoluir 20 anos em um mês. Com extrema pressão, sobrecarga de trabalho, adoecendo de forma silenciosa e nossa preocupação é o pós-pandemia, é quando isso passar a somatização de todo esse esforço”, pontua Cedrim. Professor há 20 anos, Lucas Soares conta que é com muita dedicação e sacrifícios que vem encarando o desafio de lecionar durante a pandemia. Ele é professor da rede pública e também da rede privada em Maceió e afirma que são “dois mundos”, cada um com um tipo particular de dificuldade. “É muito difícil lecionar principalmente na rede estadual. As estruturas são muito distintas. Você tem uma condição da rede particular que é mais favorável, com alunos com acesso a internet, com os recursos necessários, e na rede estadual não, e isso causa um distanciamento muito grande. As aulas na rede particular estão acontecendo, provas, trabalhos... Já na rede pública houve uma mudança muito grande, tivemos pelo menos três formatos diferentes, mas há dificuldades de fazer essa aula virtual. As crianças têm dificuldade de acesso aos equipamentos. Internet muitas vezes nem tem. Aí tem a situação de você querer ajudar o aluno e não conseguir. A cobrança é muito grande, há um descontentamento, um desconforto muito grande por boa parte da categoria”, diz Lucas. Se de modo geral o cenário é  conflituoso, é no dia-a-dia que as dificuldades são escancaradas, garante o professor. “O dia-a-dia é muito cruel. Porque você acaba ficando ligado o dia inteiro. Você está assistindo, lendo, preparando uma aula, mas precisa dar atenção ao aluno que precisa de uma resposta, de um retorno. Acaba que o professor fica sem ter o devido descanso, é uma situação muito complicada”, afirma Soares. Uma professora da rede pública que preferiu não se identificar explicou à reportagem que vem enfrentando sérios problemas com a adaptação as ferramentas online. Ela precisou comprar um celular novo e utiliza um computador emprestado para realizar as aulas e reuniões. “Foi preciso que tivéssemos um celular para poder criar os grupos de WhatsApp e acompanhar os alunos. Eu não sabia mexer, aprendi na marra. Até hoje meses depois ainda estou me adaptando, mas é bem difícil, preciso preparar a aula, passar pelo WhatsApp para o coordenador e depois para os alunos, colocar a aula na plataforma por um computador emprestado, além do serviço de casa e os meus filhos. É muito estressante e muitas vezes preciso pedir ajuda para conseguir enviar as provas e trabalhos, por exemplo”, detalha. Perspectivas ainda são incertas para a categoria   A dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação em Alagoas (Sinteal), Edna Lopes, pontua que há uma preocupação generalizada em relação aos desdobramentos da pandemia e o impacto no segmento. “O cenário é de expectativa e preocupação, porque a categoria já enfrentava problemas bem antes. Mas a pandemia veio agravar. Foi um desafio imenso para o professor em lidar com questões que não eram inerentes do seu dia-a-dia como o uso de tecnologias. Nossa categoria já tem a pior remuneração do Nordeste, alguns com contratos de trabalho precarizados, e com esse pouco salário precisou investir em equipamento, internet, recursos para atender a demanda da pandemia. Existe um cenário de preocupação porque a pandemia não passou, ainda não se sabe como será, se vai haver ensino híbrido. São muitos profissionais adoecendo, a pressão psicológica, as cobranças”, destaca Lopes. Edna ressalta que as diferenças entre a rede pública e privada são acentuadas também no tipo de cobrança que os profissionais vêm recebendo. São duas realidades, garante ela. Enquanto na rede privada o excesso de acompanhamento e as cobranças por resultados pressionam o trabalhador, na rede pública o processo é inverso, a falta de continuidade nas aulas e na participação dos alunos é um fator de desmotivação e exigências. “A energia elétrica é nossa, a internet, o equipamento. No caso da rede pública não há amparo. Muitos não conseguem porque a internet não presta, porque não dá conta e não houve assistência, nem governo nem prefeituras deram o mínimo de amparo, houve muitas cobranças, mas nada de retorno. Dizem: Valorizem o professor, mas precisamos dessa valorização no dia-a-dia”, enfatiza.