Cidades

Bebedouro e Mutange: 'áreas devem desaparecer do mapa em 5 anos'

Em nova avaliação dos diversos estudos realizados na região, Abel Galindo diz que processo deve iniciar ainda em 2021

Por Evellyn Pimentel com Tribuna Independente 14/10/2020 08h25
Bebedouro e Mutange: 'áreas devem desaparecer do mapa em 5 anos'
Reprodução - Foto: Assessoria
Um trecho compreendido entre os bairros do Mutange e Bebedouro, em Maceió, deve “sumir do mapa” nos próximos cinco anos. Quem afirma é o engenheiro geotécnico e pesquisador Abel Marques Galindo que desde 2010 estuda o processo de rachaduras na região do Pinheiro. A avaliação foi feita com base nos estudos realizados na região pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) desde o tremor, em março de 2018, e também pelas informações disponibilizadas pela Braskem S/A nos estudos contratados. “Fundamentado nesses citados relatórios da CPRM e de das empresas especializadas, de informações contidas no relatório do Instituto de Geomecânica de Leipzig (IFG)  e no recente relatório do Geoapp s.r.l. podemos dizer que muito provavelmente, a área que inicia no cruzamento da linha férrea (linha do VLT) com a Avenida Major Cícero de Góes Monteiro até o colégio Bom Conselho, envolvendo também partes adjacentes, próximas à encosta do Mutange e de Bebedouro, irão desaparecer do mapa de Maceió, nos próximos 5 ou 6 anos. Esse processo de grandes afundamentos, muito provavelmente, deverá ter início no segundo semestre de 2021”, aponta Galindo. A explicação dada considera um gráfico do pesquisador M.L. Jeremic que atribui uma relação entre a velocidade e o tempo de deformação nas rochas salinas, como é o caso de Maceió. Galindo diz que em colapsos que ocorreram ao redor do mundo, houve uma tendência na velocidade e no tempo da movimentação. Na região da lagoa, essa “tendência” deve ocorrer nos próximos anos, já com sinais claros na evolução que vem ocorrendo nos últimos meses. “Cada mina deve ter seu processo próprio, havendo o colapso em uma, em seguida outra, seis meses depois outra. Devo acrescentar que esses grandes afundamentos, poderão começar a  acontecer entre o segundo semestre de 2021 e o segundo semestre de 2022. E não há nada que possa ser feito para resolver, eu desconheço algo que possa impedir essas deformações”, afirma. Deformações na região vêm acontecendo há três décadas   Entre outros aspectos, o que mais chama a atenção é o período de início das deformações, há cerca de 30 anos, segundo os estudos, já aconteciam pequenas deformidades. Ao longo dessas três décadas, porém, a movimentação foi pequena, quase imperceptível. Segundo Galindo os sinais observados em 2010 quando algumas rachaduras começaram a surgir no Pinheiro já eram os indicativos da necessidade de paralisação da atividade de extração de sal-gema. “Esse fechamento de minas vem tarde demais, isso deveria ter sido feito lá atrás, lá no período do tremor. As rachaduras no Pinheiro vêm desde 2010, aquelas no chão, se isso tivesse parado antes... De  2017 até junho de 2020, temos 3 anos e meio. Nesse período teve-se subsidência (deformações) de dezenas de centímetros ou mais precisamente 75cm (ou mais), segundo os relatórios de interferometria apresentados pela CPRM e de outros relatórios de empresas especializadas contratadas pela Braskem. Isso na área não submersa pela lagoa”, emenda. A Defesa Civil de Maceió confirma que “não há solução” pelos menos até agora para o fenômeno. O órgão afirma ainda que a área vem sendo monitorada constantemente também pelo CPRM, Defesa Civil Nacional e com a consultoria das Universidades Federais de Pernambuco, do Rio Grande do Norte e da Bahia, “que analisam dados e orientam na tomada de decisões que visam salvaguardar a população”. “A Coordenadoria Especial Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec) informa que o problema de instabilidade de solo que afeta os bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto é dinâmico e evolutivo, uma vez que não há, até o momento, solução para o problema. A subsidência nos bairros, segundo relatório conclusivo do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), está sendo provocada pela atividade de mineração, devido à desestabilização das cavidades de exploração de sal-gema. A expectativa, atualmente, é de instalação da rede sismográfica na região para que sejam gerados dados em tempo real que possam medir a movimentação das cavernas”, explica. EVOLUÇÃO Nesta terça-feira (13), a Braskem anunciou a inclusão dos quase 2 mil imóveis que foram identificados como em potencial risco. Agora, são mais de 9 mil moradias que serão esvaziadas em quatro bairros da capital alagoana. “A Braskem segue realizando estudos para o entendimento das causas do fenômeno geológico que vem atingindo os bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto. A área com instabilidade continua sendo estudada e vem sendo monitorada com equipamentos DGPS para acompanhamento de movimentações de solo, de topografia, interferometria via satélite e sismógrafo de engenharia que monitora de vibrações de subsuperfície. Todos os dados coletados são avaliados periodicamente e compartilhados com as autoridades públicas responsáveis”. A petroquímica não descarta que outras áreas também sejam incluídas. “Desde que entregou os estudos de impactos de superfície às autoridades competentes, a Braskem está em tratativas técnicas para a definição de possíveis novas ações a serem adotadas, em comum acordo, nos bairros afetados pelo fenômeno geológico. O objetivo é buscar as melhores soluções para a região. A prioridade da Braskem é a segurança dos moradores dos bairros”. Recentemente a Defensoria Pública do Estado (DPE) se posicionou favorável a inclusão de mais de 3 mil imóveis, no entanto, o posicionamento não foi acatado. A Braskem também disse que outros estudos estão sendo feitos, inclusive um que mede especificamente mudanças na inclinação na superfície. “De forma complementar, a Braskem contratou uma empresa internacional especializada para fazer monitoramentos adicionais de microssísmica (mapeamento de solo e subsolo), inclinometria (mede a direção e a intensidade do movimento do solo e subsolo em profundidade) e uso de tiltímetro (mede mudanças de inclinação na superfície)”, finaliza a empresa em nota.