Cidades

Na pandemia, especialistas recomendam positividade para o Dia das Crianças

Rotina da quarentena precisa de organização sem excessos de tela

Por Emanuelle Vanderlei – Colaboradora com Tribuna Independente 10/10/2020 09h30
Na pandemia, especialistas recomendam positividade para o Dia das Crianças
Reprodução - Foto: Assessoria

Crianças saudáveis e ativas são a meta da maior parte dos pais, mães e educadores. Em todos os espaços, a busca por atividades que estimulem o desenvolvimento e tragam alegria às crianças é regra básica. Em tempos de pandemia, com distanciamento social e muitas restrições, como é possível manter a positividade no dia das crianças?

Mesmo com as dificuldades, pedagoga Taísa Paulino sugere atividades que podem ajudar a trazer felicidade na programação do dia 12. “Ser criança é algo espetacular. Mesmo em isolamento, existem várias possibilidades que nossas crianças passem por esse momento sem sentir tanto. O principal e ideal é dar a atenção necessária. Acordar a criança com um café na cama, em comemoração ao seu dia, programar brincadeiras que possam ser desenvolvidas em casa. Fazer aquele almoço que a garotada gosta, afinal, o dia é delas. Uma das propostas é ensinar um pouco como os pais ou avós se divertiam em sua época de criança, sem tanta tecnologia”.

Na avaliação dela, a forma que os adultos que convivem com a criança lidam com a pandemia faz toda a diferença em como ela vai encarar o momento atual. “Entender nitidamente o que é esse vírus, é bem complicado, mas as crianças entendem que é algo que faz muito mal”.

Outra opção são as atividades ao ar livre, estimuladas pela psicóloga Mírian Leão. “Com o isolamento e distanciamento social, muitas crianças perderam a possibilidade de explorar corporalmente grandes espaços, de convivência. Penso que seria o caso de incentivar maneiras da criança brincar estando mais próxima à natureza, pois lugares abertos, além de serem locais considerados de baixo risco de propagação do vírus, acabam sendo excelentes campos de exploração para a criança”.

Com realidades diferentes em cada casa, as pessoas foram encontrando ao longo desses meses como agir em cada caso. Com uma criança relativamente tranquila em casa, a mamãe Técia Alves conta como tem sido a experiência na quarentena para sua família.

“Ela já era uma criança acostumada a conviver com adultos, a gente sempre fez tudo junto. Às vezes rola aquele tédio que é normal, e que a gente deve permitir que exista para que ela saiba desenvolver esse sentimento e procurar meios para se entreter sozinha. Às vezes a gente interfere e ajuda também a mudar o tédio de com alguma brincadeira algum jogo ou alguma atividade”.

Para o uso da tela, a família tem seu próprio protocolo. “A gente buscou joguinhos que despertem a capacidade psicopedagógica, a professora de inglês indicou alguns jogos a gente foi pesquisando também. E a gente define esse tempo de tela e ela pode escolher entre jogar algum joguinho do celular, jogar algum joguinho de videogame que o Bruno [pai] já introduz alguns jogos de videogame com ela ou assistir algum episódio de algum desenho que ela goste isso durante a semana”.

Tempo em frente às telas pode causar problemas

A tecnologia é uma grande preocupação de especialistas. Taísa admite que é útil, mas tem limites. “Tivemos que aceitar a utilização intensificada das telas em nossas casas, que bom que temos essa alternativa, mas precisamos mediar esse tempo. Deixar a criança o dia todo em frente a uma tela não é interessante. Como as aulas estão sendo remotamente, o ideal é que no contra turno das tarefas escolares a criança preencha seu dia com outras atividades”.

O ponto de vista de Mírian Leão. “Tenho percebido os pais e as mães mais condescendentes com o uso e o tempo que as crianças e os adolescentes passam em frente às telas. Os pais dizem ser um meio de entretenimento diante da falta do convívio social. No entanto, é preciso alertar que a exposição excessiva à telas pode provocar mais desatenção, irritabilidade, atrasos na aquisição da linguagem, problemas de sono. Por mais tentador que seja, deixar a criança muito tempo diante de uma tela pode causar inúmeros problemas”.

Sobre o desenvolvimento neste período, a pedagoga afirma que não é fácil, mas há um trabalho acontecendo. “Precisamos encarar esse momento como aprendizagem. Nossas crianças necessitam de rotina! Rotina diária que ajude nesses horários bem delicados que os adultos estão passando. Estipular o que fazer em cada turno, é crucial. Estipular um dos turnos para estímulos positivos educacionais. O ideal é construir junto com a criança, para aquelas a partir de três anos de idade, que já tem um entendimento mais apurado. Incentive a criança a ajudar nos afazeres da casa”.

Taísa faz até um cronograma para exemplificar os dias podem ser organizados. “Segunda – Pintura (com lápis, giz cera, tinta guache) / Terça – brincadeiras com jogos (de encaixe, montar) / Quarta – Brincadeiras com os brinquedos (escolher o que vai brincar e incentivar a criança a guardar) / Quinta – brincadeira coletiva com crianças ou adultos da casa (esconde–esconde, pega-pega, ciranda) / Sexta – dia da culinária e cineminha em família”.

Pequenos têm dado sinais de cansaço mental

No processo de adaptação forçada à condição de quarentena, a mudança de comportamento dos pequenos também tem sido um problema bastante comum. “As crianças tem se mostrado irritadiças e os relatos de mães e pais envolvidos nesses novos processos de aprendizagem revelam que muitas questões familiares estão vindo à tona, desde a dificuldade de aprender estando em um ambiente físico comum a todos os membros da família, compartilhamento de computadores e outros recursos tecnológicos entre irmãos, até a dificuldades de aprendizagem”, relatou Mírian Leão, psicóloga e professora do Ifal.

“Problemas de desenvolvimento tem ocorrido com crianças de todas as idades, como insônia, irritabilidade, medos excessivos, angústia, alguns tem apresentado sintomas associados a transtornos de ansiedade. A agitação por exemplo é um sintoma comum em crianças muito pequenas, muitas já estavam em período de adaptação ao ambiente escolar, mães de crianças do período pré-escolar tem comentado atrasos motores, de linguagem, muito relacionados aos efeitos não só da pandemia, mas do isolamento social e da falta do ambiente escolar como ambiente de socialização”, contou a psicóloga.

A profissional também se preocupa com o volume de atividades. “O fato de algumas escolas tentarem minimizar os impactos da pandemia com excesso de carga de atividades tem aparecido como um dos motivos pelos quais as crianças e também adolescentes vem apresentando sinais claros de cansaço, problemas de insônia e sensação de esgotamento físico e mental”.

Em alguns casos, é necessário pedir ajuda de um profissional. “Quando nem a criança nem os seus pais estão conseguindo lidar com a ansiedade que o momento atual pode provocar, pode ser importante”, orienta Mírian. “Quando estamos diante de crianças adoecidas, letárgicas ou sempre irritadiças, crianças que estão experienciando alguns sintomas relativos à ansiedade, ou quando revelam dificuldades de aprendizagem que podem ser compreendidas como um meio da criança expressar que os recursos internos que ela tem não estão dando conta da vivencia que ela está tendo. Nem sempre a criança tem a capacidade de verbalizar isso, então é importante ficar atento aos seus hábitos e ações”.