Cidades

Um diploma na mão e muitos sonhos na cabeça

Pacientes ligados à Pestalozzi concluem ensino fundamental e superam limites

Por Emanuelle Vanderlei – Colaboradora com Tribuna Independente 02/02/2019 11h40
Um diploma na mão e muitos sonhos na cabeça
Reprodução - Foto: Assessoria
Poderia ser uma formatura comum de alguns jovens e adultos que conseguiram retomar os estudos. Uma turma de pessoas que enfrentou dificuldades, não conseguiu estudar no período regular e agora recuperou o tempo perdido. Poderia, mas não é. Essa é uma turma especial. É tudo isso sim, mas vai além. No dia 24 de janeiro, a Associação Pestalozzi de Maceió realizou uma emocionante solenidade de formatura. Uma turma de 10 pessoas estava concluindo o ensino fundamental, depois de uma longa jornada de superação e vitórias. O primeiro obstáculo é acompanhar o ensino regular e conseguir vagas em escolas públicas. É muito comum quem é especial não conseguir concluir os estudos dentro da idade regular, eles acabam precisando ir para a Educação de Jovens, Adultos e Idosos. E aí se deparam com o segundo problema: Não existem vagas no período diurno para a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI). E com as limitações impostas pela deficiência, fica difícil para as mães e responsáveis manter esses estudos. Questões de segurança muitas vezes deixam essas pessoas sem opção, e automaticamente sem perspectiva. Pensando nisso, a Pestalozzi procurou a Secretaria Municipal de Educação (Semed) em 2015, e com o intermédio da deputada federal Tereza Nelma conseguiu fazer com que turmas de EJAI da Escola Municipal Maria José Carrascosa funcionasse dentro da associação, no período da tarde. Para Tereza Amaral, presidente da associação, a parceria entre poder público e terceiro setor é necessária e bem sucedida. “O terceiro setor existe e tem que ter o apoio do Governo, já que ele não consegue fazer tudo que gostaria. Na área da educação não é diferente, faz convênio com as instituições filantrópicas como a Pestalozzi. Somos prestigiados porque as pessoas que trabalham na Semed e na prefeitura acreditam na Pestalozzi. Trabalhamos muito para que esse crédito aconteça. Nós cumprimos o nosso papel e eles cumprem com o deles”. Apoiadora da área, Tereza Nelma acredita que é importante que a Semed ofereça sala de recursos, que segundo ela não existe atualmente. “Queremos que esses jovens sejam incluídos no ensino regular para que o Estado os receba”, disse. Ela comemora a formatura com nove alunos especiais e uma mãe, referendando o trabalho da instituição. “A Pestalozzi desenvolve um trabalho muito importante aqui no Estado”. O ensino é diferente, mas o conteúdo oferecido é completo. “Até aula de espanhol tem aqui”, disse uma das alunas. Fátima Soares, coordenadora pedagógica explica que é preciso adaptar o cotidiano às necessidades de cada um, e que tudo é associado a um ambiente mais acolhedor, mais preparado para receber esse tipo de demanda. “O currículo tem que ser adaptado de acordo com as limitações deles. A gente trabalha de acordo com várias deficiências. O autista, o intelectual, síndrome de down, e o que tem paralisia cerebral”. São 300 alunos assistidos pela Pestalozzi. Desses, 200 estão nas turmas de EJAI. O restante está na rede regular de ensino. Cada caso tem sua evolução diferente. Então muitas das pessoas atendidas estão no ensino regular. Mas a demanda do EJAI claramente era uma lacuna a ser preenchida. As aulas estão totalmente em sintonia com o trabalho terapêutico. “Alguns não aprendem a ler nem escrever, mas desenvolvem outras habilidades. Ir ao banheiro, se alimentar só. E a gente descobre até mesmo talentos artísticos”, relata Fátima. Acompanhamento de saúde, atividades culturais complementares (ballet, percussão, capoeira, coral e teatro), e até mesmo oficinas pré-profissionalizantes formam o cotidiano daquela casa, onde muitos se sentem uma família. Thiago Maracas, professor de percussão conduz a Banda Afrolozzi há 12 anos. Ele ressalta que o grupo trabalha com musica inclusiva, mas também trabalha com os aspectos que contribuem para o ser humano. “Ajudamos no crescimento educacional, evolução mental. Gradativamente eles vão desenvolvendo habilidades cognitivas, questão de espaço e tempo. Não é musica só como musica, mas como meio de mudança social”. Na oficina pré-profissionalizante, são produzidas obras de arte, materiais adaptados para o cotidiano, como garfo, faca e até caneta em tamanhos adaptados para serem utilizados pelos próprios pacientes da associação. Mas o produto de mais valor que é produzido lá não é material. Segundo o professor Aldemir Conrado, o desenvolvimento dos participantes da oficina é notório. “Tem alunos que hoje fazem o seu próprio serviço, recebem encomendas. Colocam em prática o que aprenderam aqui. Quando chegaram muitos não conseguiam nem conversar direito, não se expressavam. Depois eles ganham autonomia, coordenação motora”. Redescobrindo um mundo de possibilidades Não é difícil encontrar histórias emocionantes. Eronilda Marques, por exemplo, teve sua vida completamente transformada e os horizontes não param de se expandir. “Meu filho foi rejeitado no ensino regular porque não tinha idade, e eu não tinha como levar no horário da noite, porque ele tem limitações. Aqui eu consegui apoio, assistência de saúde e ele está estudando”. Mas isso era só o começo. Depois de ter a tranquilidade de ver o filho Erlan com acesso à educação, Eronilda, que ainda não era alfabetizada, foi convidada a participar do programa. Ela se matriculou, descobriu um universo inteiro pela frente, e hoje está cheia de planos. A formanda no ensino fundamental já está com a matrícula do Ensino Médio encaminhada na Escola Estadual Tavares Bastos, que fica perto da associação e vai ser possível manter as aulas no mesmo período em que seu filho frequenta as aulas na Pestalozzi. E não vai parar por aí. Depois do ensino médio, chegar à universidade já está nos planos dela, que pretende cursar educação física. A deficiência é uma realidade que precisa de adaptação não apenas à vida de quem a possui. Ser responsável por alguém especial é um trabalho que exige dedicação e muitas vezes renúncia. Muitas mães veem suas vidas transformadas para acomodar todas as necessidades que são apresentadas ao longo da vida de pessoas especiais. Esse trabalho muitas vezes não é visto, não tem descanso, não tem reconhecimento. Mas o que se pode constatar com muita frequência, é o semblante de orgulho e gratificação em cada uma dessas pessoas, sempre que veem a evolução e o desenvolvimento de seus filhos. Por outro lado, em muitos casos é possível conviver com a deficiência e levar uma vida de autonomia e independência, descobrindo experiências normais de sucesso e frustração, como todo mundo. Monalisa Ramos e Jânio Duarte se conheceram na Pestalozzi. Cheia de atitude, a jovem se apaixonou pelo rapaz aos 14 anos e decidiu ir atrás do que queria. Comprometido na época, Jânio correspondeu Monalisa e rompeu o namoro para ficar com ela. Namoraram por vários anos, ficaram noivos, e hoje são casados. Vivem em uma casa só deles. Ele trabalha na oficina do pai, ela trabalha nos afazeres da casa. Juntos, eles constroem a própria felicidade. Perguntada se tem sonhos, Monalisa garante: “Tenho tudo que quero, tá bom assim”. Outro aluno do projeto é Renildo da Silva. Ele está na casa há 36 anos e hoje, além de estudar na Pestalozzi, participa do programa aprendiz. Começou na infância, aprendeu a ler. A vida toda, desde pequeno, foi desenvolvida na Pestalozzi. Está em uma turma do EJAI, na banda de percussão e ainda trabalha em uma empresa parceira. Orgulhoso, ele conta sobre sua vida de trabalhador. “Eu já trabalhei lá um ano, e agora já vou sair de férias. Depois quero continuar, vou até o fim”.