Em Pilar, não ir ao Santo Cruzeiro é como ir a Roma e não ver o Papa

Nesta última reportagem da série “Rota da Devoção Popular”, fé, turismo religioso e memória se entrelaçam no Alto do Cruzeiro, em Pilar, e no Papódromo, em Maceió

Por Lucas França, Mônica Lima, Valdete Calheiros e Wellington Santos – Repórteres / Edilson Omena - Foto de capa | Redação

“Teve um padre que chegou, nos anos 90, em Pilar; pegou a cabeça do bagre e começou a observar que tinha algo que parecia com o manto de Maria e foi logo divulgar. O padre foi o padre Ernesto, que viu por trás de Jesus o manto de Nossa Senhora, abraçando aquela luz, a coroa, o Espírito Santo. Nossa Senhora com seu manto era um sinal de luz...”

Esses são alguns dos versos da Literatura de Cordel do poeta Sergio Moraes, um filho do município de Pilar, a 35 km da capital Maceió, em Alagoas, homenageando seu torrão, juntando gastronomia ao reverenciar o peixe bagre, símbolo da cidade, e religiosidade, ao declamar figuras do Cristianismo como Jesus e Maria, sua mãe, nos versos.

“Um pescador mostrou ao Padre Ernesto e este pesquisou que o bagre tem um formato parecido com o de Cristo crucificado”, explica Dona Ana Nery, comerciante que vende lembranças numa das barracas padronizadas no Santo Cruzeiro.

E diz um velho ditado popular que todos os caminhos levam a algum santuário no Brasil e essa frase ecoa como um mantra entre devotos, capturando a essência de um fenômeno que vai além da espiritualidade: o turismo religioso, um setor que movimenta bilhões de reais anualmente, atrai milhões de peregrinos e transforma cidades em polos de fé, cultura e economia.

Santo Cruzeiro e ao Complexo Cultural Religioso Dilma Moreira Canuto (Foto: Edilson Omena)



No país mais católico do mundo, com influências de diversas religiões, a romaria da fé não é apenas uma viagem; é uma jornada de renovação, que une história, tradição e um crescimento econômico impressionante.

Em Alagoas, Pilar é um desses polos. Na trilha de quem visita a cidade, diz o povo de lá que ir a Pilar e não ir ao Santo Cruzeiro e ao Complexo Cultural Religioso Dilma Moreira Canuto é como ir a Roma e não ver o Papa – como também diz outro velho jargão popular brasileiro.

É por lá que a estátua de 24 metros de altura de Nossa Senhora do Pilar abençoa o município, banhado pela Lagoa Manguaba.

O lugar começou a se tornar ponto de peregrinação ainda em 1918, quando o padre Manoel Pacheco, da Ordem dos Jesuítas, ergueu ali uma cruz que começou a atrair fiéis.

Isqueiro milagroso ajuda a manter a fé acesa


Cláudio Melo, de 45 anos, coordenador do Santuário de Nossa Senhora do Pilar, é o que pode se chamar de “luz” ou fogo do Espírito Santo no lugar sagrado. Com um isqueiro, Melo já perdeu a conta de quantos fogos e velas ajudou a acender para pessoas que procuram, de alguma forma, agradecer as graças alcançadas com Nossa Senhora do Pilar.

“Sempre tem gente, principalmente senhoras, que querem acender fogos ou velas e perguntam se tenho algo para ajudar. De pronto, tiro do bolso meu velho isqueiro e o problema está resolvido”, contou o coordenador.

Há seis anos tomando conta do espaço, Melo diz que antes existia somente uma cruz e alguns casebres, além da estrada de barro. “Hoje a coisa mudou, virou isso aí que você está vendo, com verdadeiras peregrinações de gente da terra e de turistas”, completou.

Cláudio Melo, de 45 anos, coordenador do Santuário de Nossa Senhora do Pilar (Foto: Edilson Omena)



A festa para Nossa Senhora do Pilar vai de 20 de janeiro a 2 de fevereiro e a média, segundo ele, é de mais de duas mil pessoas nesse período. Em dias normais, a média é de mil pessoas, pelo menos. “No segundo domingo de cada mês tem missa e vem gente de todo canto daqui e do Brasil”, acrescentou.


Somente nos quatro primeiros meses de 2026, as contratações realizadas por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), principal linha de crédito da instituição, já somam aproximadamente R$ 41 milhões destinados ao turismo

Terços produzidos por empreendedora e artesã no Alto do Cruzeiro em Pilar, Alagoas (Foto: Edilson Omena)


João das Alagoas, uma atração à parte na arte de esculpir o sagrado

E para dar o toque de mestre e embelezar o lugar sagrado para católicos e não católicos, Nossa Senhora do Pilar não poderia ter um artista mais zeloso para cuidar da trilha religiosa.

Símbolos da Via Sacra que no fim de tarde para saudar o sol, foram esculpidos pelo artista João das Alagoas (Foto: Lucas França)

Foi no modelar de lapinhas, na religiosidade de seu povo, que o artesão da cidade de Capela, João Carlos da Silva Freitas, o “João das Alagoas”, famoso nacional e internacionalmente por esculpir peças em alto e baixo relevo feitas em cerâmica, potencializou arte e religiosidade no lugar com uma trilha da Via Sacra de tirar o fôlego, tamanha a beleza e a arte.

Família ecumênica no turismo religioso

Dona Maria Eugênia é católica fervorosa e, quando sobra um tempinho, vai até o Santo Cruzeiro e leva a tiracolo a filha Marília Paula, o esposo da filha, José Arnaldo, e a netinha amada Aurora para o passeio no Santo Cruzeiro. 

O detalhe: a filha e o genro de Dona Maria são agnósticos e têm em comum também a profissão: são químicos. Eles não têm uma religião definida, mas não dispensam a trilha aprazível.

Marília Paula, o esposo, José Arnaldo, e a filha amada Aurora, não são católicos, mas sempre que podem vão prestigiar o Cruzeiro em Pilar (Foto: Edilson Omena)



“Por incrível que pareça, eu e meu esposo não temos uma religião, mas é um encanto isso aqui, pelas imagens, o passeio, a trilha. Para quem tem religião é importante, mas para quem não tem uma fé definida também é, para apreciar toda essa cultura”, diz Marília.

Sebrae fortalece turismo religioso e desenvolvimento regional em Alagoas

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) tem impulsionado o turismo no interior de Alagoas, unindo fé, cultura e economia local. Em parceria com a Instância de Governança Regional (IGR), a instituição mapeou rotas turísticas no Agreste, incluindo a Rota Religiosa, a Rota Indígena e a Rota da Cachaça, criando roteiros integrados que conectam tradição, história e natureza.

Em municípios como Limoeiro de Anadia, o Sebrae apoia a organização do destino, consolidando roteiros que combinam religiosidade e lazer, atraindo visitantes e movimentando a economia regional. A iniciativa integra a política de interiorização do turismo, levando desenvolvimento para além do litoral e valorizando cidades históricas e culturais.


CONSULTORIAS

Além disso, a instituição oferece capacitação e consultoria para pequenos negócios, artesãos e prestadores de serviços turísticos, promovendo um crescimento sustentável. Com isso, o Sebrae fortalece o turismo em Alagoas, conectando empreendedorismo, preservação cultural e experiências de fé e história.

“A ideia é levar não apenas crédito ao segmento, mas um conjunto de estratégias e ações que visam fortalecer ainda mais o turismo no Agreste, com capacitação, apoio a eventos, inovação, tecnologia e sustentabilidade”, destacou a turismóloga Susylane Ferreira, Turismóloga, analista de Relacionamento do Sebrae Agência Agreste.

Papódromo: da glória ao abandono

O ano era 1991 e a comunidade católica alagoana recebeu uma notícia que era um sonho: a visita de Sua Santidade, o papa João Paulo II. O que era um desejo dos fiéis estava se tornando realidade. Mas onde receber uma visita tão ilustre em Maceió? A saída foi a construção, pelo governo estadual, de um espaço que se tornaria um santuário para os católicos após a passagem do papa pela capital alagoana. O Papódromo se tornaria o marco do turismo religioso em Alagoas.

O Santuário João Paulo II foi construído às pressas por determinação do então presidente da República, Fernando Collor de Mello, e tinha como governador de Alagoas, na época, Geraldo Bulhões. Com arquitetura moderna, armações metálicas e uma cruz imponente no topo, o espaço custou, em valores atuais, mais de R$ 50 milhões.

Em 19 de outubro, os católicos finalmente lotaram a Avenida Senador Rui Palmeira para saudar Sua Santidade João Paulo II. Caravanas do interior alagoano e fiéis de outros estados, principalmente nordestinos, lotaram toda a área em torno do Papódromo. Foi um dia de muita emoção, lágrimas e choro de felicidade.

Papa João Paulo II em sua passagem triunfal por Maceió - sendo recebido por milhares de fiéis (Foto: Divulgação)



Para o grande dia, todo sacrifício era válido, afinal seria uma visita que marcaria a vida dos católicos e ficaria registrada para sempre na história da população alagoana. Pelas ruas, com bandeirinhas com a imagem de João Paulo II, lenços e terços, o povo acenava e entoava uma canção que fez sucesso durante a visita do pontífice, em 1980, ao Rio de Janeiro: “A Benção, João de Deus”.

O militar reformado da Polícia Militar de Alagoas, primeiro-sargento Djalma Leite de Pimentel, tinha uma missão naquele dia: fazer a segurança do papa. Mas, como todo católico, queria ter um contato com Sua Santidade, mesmo que fosse um simples aceno. E, para sua surpresa, João Paulo II passou a uma distância que possibilitou acenar para os que estavam próximos ao ex-militar.

Jornal da época evidenciava o local o Papódromo como local sagrado (Foto: Acervo pessoal)



“Uma emoção muito grande. Tenho essa recordação até hoje. Ver o papa João Paulo II de perto e ter a possibilidade de receber o seu aceno está registrado para sempre em minha memória. Até hoje guardo os jornais da época e algumas pessoas vêm à minha casa para ver o material”, diz Djalma Leite.

Recentemente, Djalma Leite esteve no Papódromo e ficou triste com a realidade do local, que se transformou em escombros e se encontra abandonado. “Após a visita do papa houve missas e outros eventos, mas atualmente está tomado de lixo e tudo que havia no local foi destruído”, frisou o militar reformado.

Moradora do bairro Vergel do Lago, a pensionista Rosiete Bezerra dos Santos lembra do dia em que teve a felicidade de ver a maior autoridade da Igreja Católica, da qual é fiel praticante e fervorosa.

Papódromo recebia grandes eventos católicos no passado (Foto: Sandro Lima)



“Fiquei sabendo que ele iria passar de Papa Móvel na Avenida Senador Rui Palmeira. Fui pra lá. Muita gente o esperava com bandeirinhas amarelas e brancas, e eu também, muito emocionada, feliz e ansiosa. Na época, infelizmente, não participei de nada na visita dele à Igreja Virgem dos Pobres, mas só de vê-lo passar no Papa Móvel já foi muito importante e gratificante. Lembro de uma música que todos nós cantávamos: ‘A Benção João de Deus, todo povo te aclama, tu vens em missão de paz, sê bem-vindo e abençoa esse povo que te ama’. E hoje, depois de 31 anos, recordamos com muito carinho e amor, porque ele foi proclamado Santo João Paulo II.”

DESTRUIÇÃO


Após a passagem do pontífice, o Papódromo recebeu diversas atividades realizadas pela Arquidiocese e também eventos culturais, com a finalidade de manter ativo o principal ponto turístico religioso de Maceió, que movimentaria a comunidade e geraria emprego e renda com a venda de alimentos e produtos religiosos.

Mas, com o passar do tempo, o monumento foi se deteriorando não só pela ação do tempo, mas também pelo vandalismo, com a retirada de ferros e outros materiais para venda, praticado por moradores de rua e outras pessoas.

Da estrutura grandiosa, não resta quase nada. O lixo e o mato tomam conta do local. Para os católicos, hoje o Papódromo é símbolo do abandono, e eles cobram que tanto a Arquidiocese de Maceió quanto o poder público estadual e municipal olhem com atenção para o local e revitalizem a área, que tem forte potencial turístico.

Da estrutura grandiosa, não resta quase nada. O lixo e o mato tomam conta do local (Foto: Sandro Lima)



FALTA DE RECURSOS


A administração do Santuário João Paulo II (Papódromo) foi cedida pela União e passou para a Igreja Católica, que assumiu o projeto Santuário da Divina Misericórdia, onde chegou a realizar diversos eventos religiosos, com a participação de centenas de fiéis. Entre eles, destaca-se a apresentação do padre Fábio de Melo.

Com o passar dos anos e a deterioração do espaço, aliadas à falta de dinheiro, as atividades foram suspensas.

Padre Arnaldo José Bernardo assumiu há pouco tempo a direção das igrejas do entorno dos bairros Trapiche da Barra, Pontal da Barra e Vergel do Lago. E assegurou que uma das suas ações previstas ainda para 2026 será o retorno das missas no santuário, mesmo sem a revitalização. Provavelmente, isso deve acontecer em julho próximo.

Sem recursos para revitalização do Papódromo, o religioso informou que vem tentando, junto ao estado e ao município, incluir o espaço nas melhorias que estão sendo realizadas na orla lagunar. Mas não tem tido sucesso, porque há um jogo de empurra entre município e estado.

Padre Arnaldo José Bernardo (Foto: Acervo pessoal)



“De um lado, a Prefeitura de Maceió alega que espera a liberação da área pelo estado. E o estado afirma que espera o município liberar para que possa colocar o projeto em prática”, disse o padre Arnaldo.

Segundo padre Arnaldo Bernardo, a área pertence ao estado em regime de comodato por 100 anos. Acrescentando que o custo para revitalizar é muito alto e, no momento, a igreja não dispõe de verba.

No projeto previsto para retomar as atividades no Papódromo, ainda este ano, o padre prevê, além das celebrações, a realização da catequese, levando o ensinamento cristão e assistência social para os moradores da comunidade.

Financiamentos para turismo em Alagoas crescem 184%


O setor de turismo em Alagoas registrou um forte crescimento nos investimentos financiados pelo Banco do Nordeste (BNB) em 2025. De acordo com dados da instituição, foram contratados cerca de R$ 315 milhões para empreendimentos ligados ao segmento, número que representa um aumento de 184% em comparação ao volume financiado em 2024.

Somente nos quatro primeiros meses de 2026, as contratações realizadas por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), principal linha de crédito da instituição, já somam aproximadamente R$ 41 milhões destinados ao turismo. O valor representa um crescimento de cerca de 60% em relação ao mesmo período do ano passado.

Claudevan Santos Silva é agente de desenvolvimento do BNB (Foto: Adailson Calheiros)



Os recursos têm sido aplicados principalmente na construção de novos hotéis e pousadas, além da ampliação e reforma de empreendimentos turísticos. Também estão incluídos financiamentos para aquisição de veículos, equipamentos e implantação de sistemas de energia solar.

Segundo Claudevan Santos Silva, agente de desenvolvimento do Banco do Nordeste, a instituição também vem atuando no fortalecimento do turismo regional por meio do Programa de Desenvolvimento Territorial (Prodeter Turismo), desenvolvido em parceria com a Instância do Agreste.

A primeira reportagem da série: "Rota da Devoção Popular" você pode conferir no link abaixo:

Caminhos da Fé