Caminhos da fé

Turismo religioso reúne devoção, espiritualidade e histórias de esperança em santuários que transformam a economia de Alagoas

Por Lucas França, Mônica Lima, Valdete Calheiros e Wellington Santos - Repórteres / Bruno Martins - Revisão /Reprodução - Foto de Capa | Redação Tribuna


O turismo religioso vem se consolidando como um dos segmentos que mais movimentam a economia de Alagoas, fortalecendo cidades do interior e da Região Metropolitana de Maceió por meio da geração de emprego, renda e novas oportunidades de negócios. Unindo fé, cultura e tradição, o setor atrai milhares de visitantes e impulsiona atividades como comércio, hospedagem, alimentação e artesanato.

Para mostrar a força da chamada “Rota da Devoção Popular”, o portal Tribuna Hoje e o jornal Tribuna Independente iniciam uma série especial de duas reportagens sobre o turismo religioso em Alagoas. A proposta é apresentar destinos que se transformaram em polos de fé e desenvolvimento econômico, preservando tradições históricas que fazem parte da identidade alagoana.

Em Pilar, o Santo Cruzeiro e Complexo Cultural Religioso Dilma Moreira Canuto se destaca pela imagem de Nossa Senhora do Pilar, com 24 metros de altura, além da vista para a Lagoa Manguaba e da Via Sacra esculpida pelo mestre João das Alagoas. A história do local será detalhada na segunda reportagem da série, que também abordará o histórico Papódromo de Maceió.

Já em Palmeira dos Índios, o Santuário Frei Damião, em Canafístula, recebe romeiros de vários estados e se consolidou como um dos principais destinos de fé do Nordeste. Outro destaque é a Vila São Francisco, entre Paulo Jacinto e Quebrangulo, que reúne milhares de devotos durante o Carnaval e fortalece o empreendedorismo local por meio do turismo religioso.


Fé que move multidões: Santuário em Canafístula reúne milhares de romeiros


O Santuário Frei Damião, no distrito de Canafístula de Frei Damião, em Palmeira dos Índios, se consolidou como um dos principais polos de turismo religioso do Nordeste. Inaugurado em 2022, o espaço abriga uma estátua de 22 metros do “Santo do Nordeste” e recebe milhares de romeiros nas celebrações realizadas em maio e novembro. Frei Damião de Bozzano, falecido em 1997, costumava se hospedar na comunidade, onde atendia fiéis em busca de cura e consolo espiritual.

A prefeita Tia Júlia destaca que o santuário se tornou símbolo de devoção e desenvolvimento econômico. “Todos os anos, os devotos do Frei vêm ao município pagar promessas, agradecer bênçãos e renovar a fé, fazendo de Palmeira um dos principais destinos do turismo religioso do Nordeste”, afirmou. Além da fé, o fluxo de visitantes fortalece o comércio local e o circuito religioso formado também pelos santuários Mãe do Amparo, Cristo Redentor e Via Sacra da Serra do Goiti.

Quem sente os reflexos desse movimento é o casal Adriana Barbosa Rocha Tavares e Gilson Tavares da Silva, proprietários da Drika Bolos e Sorvetes. Em períodos de romaria, a lanchonete atende cerca de mil pessoas por dia. “Nossa coxinha tem recheio de verdade, todos gostam e voltam a cada ano para lanchar no nosso estabelecimento”, disse Gilson. 

Adriana relembra histórias marcantes de fé. “Lembro-me perfeitamente de um senhor de Pernambuco que subiu as escadarias em agradecimento à cura do câncer. Foi lindo!”, contou. Ela também acredita ter vivido um milagre após um acidente com fogos de artifício. “O médico disse que ali eu tive a intercessão de Frei Damião”, relatou.

Adriana Barbosa Rocha Tavares, 51 anos, e Gilson Tavares da Silva, 52 (Foto: Edilson Omena)

A devoção também marca a vida de Luiz Neto Barbosa da Silva, 25 anos. “Sempre peço minhas graças ao Frei e depois agradeço os pedidos alcançados. O poder na crença de Deus cura e guia a vida”, afirmou. 

As estudantes Maryssol Pereira da Silva, 15 anos  e Lívia Maria Ceriaco da Silva, 11 anos, destacam a fé dos romeiros que percorrem longas distâncias descalços. Elas afirmaram ficar impressionadas com o sacrifício de alguns romeiros de percorrem infinitos quilômetros até chegar aos pés de Frei Damião.

As jovens contaram que, no início não entendiam o porquê de alguns romeiros andarem descalços, outros fazerem o percurso andando, mesmo diante do sacrifício físico do corpo. Até que descobriram que para eles não é sacrifício algum. É demonstração de fé e devoção.

As estudantes Maryssol Pereira da Silva, 15 anos, e Lívia Maria Ceriaco da Silva, 11 (Foto: Edilson Omena)

Já Sabryna Cardoso, funcionária de um supermercado próximo ao santuário, ressalta o impacto econômico. “É como se o distrito crescesse de tamanho para receber milhares de pessoas. É a melhor data para o comércio local”, disse.

Sabryna Cardoso, funcionária de um supermercado próximo ao santuário, ressalta o impacto econômico. “É como se o distrito crescesse de tamanho'' (Foto: Edilson Omena)

Para o padre Leandro Marques, responsável pela romaria promovida pela Diocese de Palmeira dos Índios, o momento representa fé e fortalecimento cultural. “A presença missionária e a devoção pelas santas missões sempre foram muito marcantes em Frei Damião”, afirmou. Segundo ele, a celebração também valoriza a gastronomia, a cultura e a economia local.

Padre Leandro Marques é responsável pela romaria promovida pela Diocese de Palmeira dos Índios (Foto: Edilson Omena)


O turismo receptivo voltado à fé também cresce na região. A Agência de Turismo Bozzano, comandada por Jefferson Sena, recebe cerca de 50 visitantes por mês em roteiros ligados ao turismo religioso, incluindo visitas ao Santuário Frei Damião, Igreja Nossa Senhora do Rosário e outros pontos turísticos. “Trabalhar o turismo receptivo em Alagoas vai muito além de receber turistas. A atividade movimenta a economia local e fortalece a identidade cultural”, destacou o empreendedor.

Frei Damião de Bozzano dedicou 66 anos à evangelização no Nordeste brasileiro e teve seu processo de canonização iniciado em 2013. Em Canafístula, sua memória segue viva entre os devotos e impulsiona um turismo religioso que une espiritualidade, cultura e desenvolvimento econômico.

Agência de Turismo Bozzano, comandada por Jefferson Sena, recebe cerca de 50 visitantes por mês (Foto: Divulgação/Agência Bozzano)

“O turismo religioso já é o sexto maior atrativo turístico do país”, afirma a turismóloga e analista de relacionamento do Sebrae Agência do Agreste, Susylane Ferreira

Fé, cultura e devoção fortalecem o setor e
transformam destinos do interior em polos
de desenvolvimento (Foto: Edilson Omena)


Vila São Francisco une fé e empreendedorismo


Durante o Carnaval, a Vila São Francisco, entre Paulo Jacinto e Quebrangulo, se transforma em um dos principais destinos de turismo religioso de Alagoas. O povoado recebe milhares de fiéis em romarias, missas, procissões e momentos de oração, mantendo viva uma tradição iniciada no século XIX pelo beato Antônio Fernandes do Amorim, inspirado em São Francisco de Assis.

Além da fé, o evento movimenta a economia local. Durante os sete dias de celebração, a vila reúne barracas de alimentação, artesanato e artigos religiosos. 

“Eu coloco uma barraca de lanches, bolos, salgados, café e suco e consigo tirar uma renda extra”, afirmou a empreendedora Isabel Oliveira. Já o comerciante Adolfo Vilar destacou o grande fluxo de visitantes. “É uma verdadeira feira, parecida com Caruaru. Muita gente quer levar uma lembrança”, relatou.

Segundo o Frei Diego Bezerra da Silva, da OFMCap – Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, responsável pela comunidade, a história da Vila São Francisco se confunde com a própria trajetória da fé popular em Alagoas. Ele destaca que a devoção a São Francisco de Assis ganhou força a partir da missão do beato Antônio Fernandes, conhecido como Antônio Franciscano, que levou para a comunidade uma espiritualidade marcada pela simplicidade, pela oração e pelo cuidado com os mais humildes. Com a chegada dos frades capuchinhos e a presença constante de Frei Damião durante os retiros de Carnaval, a vila passou a atrair romeiros de várias regiões, consolidando-se como um dos principais destinos de peregrinação religiosa do estado.

Romaria no interior do estado movimenta milhares de fiéis, gera renda e reforça história centenária de devoção (Foto: Reprodução/Redes sociais))



Frei Diego também ressalta que a Vila São Francisco mantém viva uma tradição que atravessa gerações, reunindo milhares de fiéis em celebrações ao longo de todo o ano. Entre os eventos de maior destaque estão a Romaria de Carnaval, as Missas da Saúde, a Festa de São Francisco de Assis e a tradicional celebração em sufrágio das almas dos padres que passaram pela missão local. 

“A vila carrega uma riqueza espiritual, histórica e cultural muito forte. Aqui, a fé do povo se mistura à beleza da natureza e às manifestações da religiosidade popular, tornando este lugar um verdadeiro patrimônio da devoção em Alagoas”, afirmou o religioso.

O segmento também movimenta outros municípios alagoanos. Em Craíbas, a Cidade de Maria é referência em retiros espirituais; em Arapiraca, fiéis mantêm as caminhadas ao Morro Santo da Massaranduba; e em Penedo, a Festa de Bom Jesus dos Navegantes reúne milhares de pessoas em procissões pelo Rio São Francisco. Santana do Ipanema também investe em novos espaços religiosos, como o complexo dedicado a Sant’Ana.

Turismo religioso no Brasil

  • O turismo religioso é um dos segmentos que mais crescem no Brasil e tem como principal motivação a fé. Diferente de outros tipos de turismo, esse público busca experiências ligadas ao sagrado, à espiritualidade e às tradições religiosas.
  • A atividade envolve peregrinações, romarias, visitas a locais históricos e religiosos, além de festas e celebrações de padroeiros, que movimentam cidades e atraem milhares de visitantes todos os anos.
  • Segundo o Ministério do Turismo, manifestações como romarias e festas religiosas fazem parte da estrutura do turismo religioso no país, fortalecendo não apenas a fé, mas também a cultura, a economia e o desenvolvimento das cidades que recebem esses visitantes.

Rota da fé impulsiona turismo e negócios em Alagoas

O turismo religioso vem fortalecendo a economia do interior de Alagoas, principalmente no Agreste e na Zona da Mata. Para impulsionar o segmento, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Alagoas (Sebrae/AL) atua no mapeamento de rotas, qualificação de empreendedores e organização da cadeia turística em cidades como Palmeira dos Índios, Quebrangulo e Limoeiro de Anadia. A proposta é transformar locais de fé em destinos estruturados, gerando emprego, renda e oportunidades para pequenos negócios.

Segundo a turismóloga e analista de relacionamento do Sebrae Agência do Agreste, Susylane Ferreira, o foco do trabalho está na preparação das comunidades que recebem os romeiros.

“O Sebrae não trabalha o atrativo em si. A gente trabalha a comunidade ao redor para atender essa demanda”, explicou. Ela destacou ações voltadas para hospedagem familiar, alimentação, artesanato e receptivo turístico em localidades como a Vila São Francisco, em Quebrangulo, e Canafístula de Frei Damião, em Palmeira dos Índios. “Precisamos preparar as empresas e toda a cadeia produtiva para receber bem o turista”, afirmou a analista.

Susylane Ferreira, turismóloga e analista de relacionamento do Sebrae Agência do Agreste (Foto: Reprodução)



A analista também ressaltou o impacto econômico do segmento. “O turismo religioso já é o sexto maior atrativo turístico do país”, disse. Segundo ela, a Vila São Francisco recebe mais de 10 mil pessoas durante o Carnaval, enquanto a Romaria de Frei Damião reúne cerca de 40 mil visitantes em Palmeira dos Índios.

Dentro desse trabalho, na última sexta-feira (29/5), o Sebrae/AL realizou o Fam Tour “Rota da Devoção Popular”, voltado para empreendedores do turismo receptivo e profissionais do turismo de experiência. A programação incluiu visitas ao Santuário São Francisco da Vila, em Quebrangulo; ao Santuário Frei Damião, em Palmeira dos Índios; e ao Mirante Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Maribondo, apresentando novos roteiros e oportunidades para o setor.

“Quase todo município tem uma festa religiosa”, destaca economista ao apontar força do turismo de fé 

O economista Francisco Rosário avalia que o turismo religioso vem impulsionando o empreendedorismo em Alagoas, fenômeno que ganhou força nas últimas duas décadas. Em um país majoritariamente católico — com 56,7% da população declarando-se católica segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Alagoas também se destaca pela forte tradição religiosa, já que 64,16% dos alagoanos se identificam como católicos apostólicos romanos.

Segundo Rosário, o segmento se consolida no estado em cidades como Arapiraca, Palmeira dos Índios e municípios do Sertão, com previsão de crescimento de até 16% ao ano até 2030. “Praticamente em Alagoas, quase todo município tem uma festa religiosa”, afirmou, ao citar cidades como Craíbas, Marechal Deodoro, Murici, Penedo, Pilar e Santana do Ipanema.

O economista destaca que os investimentos prioritários passam por infraestrutura de transporte, hospedagem, alimentação e segurança pública, além da fiscalização de equipamentos turísticos e preservação das igrejas. Ele também aponta o perfil predominante do público. “Mais de 70% de quem faz turismo religioso tem mais de 60 anos”, ressaltou.

Economista Francisco Rosário (Foto: Arquivo pessoal)


Para demonstrar a força econômica do setor, Francisco Rosário comparou os números do turismo religioso aos do turismo internacional no país. “Juazeiro do Norte, onde fica o Padre Cícero, recebe três milhões de romeiros por ano. O Brasil recebe oito milhões de turistas estrangeiros. Apenas um destino religioso recebe quase metade disso”, exemplificou.

O turismólogo Sidnesio Moura, especialista em Turismo Religioso e CEO do Fórum Nacional de Turismo Religioso, destaca a força econômica do setor, que movimenta cerca de R$ 15 bilhões por ano no Brasil. Dados de 2025 mostram a dimensão desse mercado: a Basílica de Aparecida recebeu cerca de 10,5 milhões de visitantes; o Círio de Nazaré reuniu 2,6 milhões de pessoas; a Festa da Penha, 2,7 milhões; e a Romaria do Divino Pai Eterno, 4,3 milhões de peregrinos.

O fortalecimento do segmento também ganhou destaque no Salão do Turismo 2026, realizado em Fortaleza, que trouxe pela primeira vez palestras exclusivas sobre Turismo Religioso. O debate reforçou que o setor vai além das visitas a templos, envolvendo experiências de fé, acolhimento, cultura e desenvolvimento econômico. Em Alagoas, o turismo religioso vem se consolidando como alternativa importante para a interiorização do desenvolvimento, gerando oportunidades para comerciantes, artesãos, guias turísticos e pequenos empreendedores.