Boca do Vento projeta Ilha do Ferro para o mundo
Ateliê criado pelo precursor das esculturas de madeira Fernando Rodrigues é celeiro de novos talentos e garante visibilidade a vilarejo, um dos maiores polos do artesanato em Alagoas
Por Emanuelle Vanderlei e Valdirene Leão - Repórteres / Bruno Martins - Revisão / Adailson Calheiros - Foto de capa | Redação Tribuna Hoje
Na última reportagem da série especial sobre o artesanato autoral, o portal Tribuna Hoje conta a história do Ateliê Boca do Vento, fundado pelo artesão Fernando Rodrigues. Foi lá que nasceu a arte de esculpir em madeira, que transformou o povoado da Ilha do Ferro, no município de Pão de Açúcar, em um dos maiores polos do artesanato em Alagoas.
Precursor das esculturas, o artesão Fernando Rodrigues trabalhava na roça quando jovem, mas desde pequeno já gostava de mexer com a madeira, foi quando fez suas primeiras peças. Descoberto pelo fotógrafo Celso Brandão, o artista ficou conhecido por seus bancos de madeira retorcidos. Aos 40 anos, construiu uma espreguiçadeira, sua primeira grande peça. Aos 70 anos, começou a participar de feiras e mostras de decoração fora de Alagoas. O artista faleceu em janeiro de 2009, aos 81 anos. Hoje, suas obras integram o acervo de museus, galerias e coleções particulares em todo o país. E o Ateliê Boca do Vento e o vilarejo onde está inserido ganham cada vez mais projeção no Brasil e no mundo.
O legado de Seu Fernando, como era conhecido, foi passado para as gerações que o seguiram. Mas toda a comunidade da Ilha do Ferro se beneficiou da arte iniciada por ele. Aproximadamente 90% dos moradores do vilarejo de 500 habitantes exercem a atividade de artesão, graças a Seu Fernando. A partir dele, novos espaços de criação artesanal surgiram no local. Mas o Ateliê Boca do Vento continua sendo o celeiro de novos talentos às margens do Velho Chico.

Atualmente, 12 artesãos vivem do que produzem na oficina. Eles trabalham na manufatura das peças para atender clientes em todo o Brasil. São descendentes de Seu Fernando e também pessoas da região que se interessaram pelo ofício. Cada peça leva a assinatura de quem a criou e, claro, do Ateliê Boca do Vento.
As peças são esculpidas em Pereira, Craibeira, Molungu e Umburana. As madeiras são supressão de vegetação licenciada por órgãos ambientais, mas compensadas por meio de programas de reflorestamento. Com elas, os artesãos dão asas à imaginação na produção de bancos, mesas, cadeiras, bonecos, utensílios domésticos, cabides, lustres e outros objetos. As criações são pintadas com tinta acrílica em cores variadas. O colorido é uma das características do artesanato do lugar, como uma assinatura que faz referência à origem da arte popular. O preço começa em torno de R$ 45 e vai até aproximadamente R$ 20 mil, dependendo do tamanho e complexidade da escultura, que pode ser adquirida no próprio povoado, em feiras voltadas para o setor ou pelo Instagram. Algumas só sob encomenda.

A artesã e artista popular Camille Souza, neta de Seu Fernando, conta que o estúdio está sempre de portas abertas para quem quer aprender. Isso porque, além de um lugar de produção, o Ateliê Boca do Vento é também uma escola e forma aprendizes. “Para aqueles do povoado que queiram aprender a gente sempre está repassando o saber”, disse.
O ateliê, deixado por Seu Fernando, é administrado pelo genro Valmir Lessa, Camille e Matias Souza Neto, outro neto do precursor. Camille, que é filha de Valmir e prima de Neto, contou como o espaço de criação ganhou o nome de Boca do Vento. “Meu avó botou o nome de Boca do Vento porque o local é o mais ventilado no povoado.”

E é nesse local bem ventilado que também é produzido o bordado Boa-Noite, patrimônio cultural da Ilha do Ferro. Todos os artesãos do Boca do Vento trabalham na arte de esculpir a madeira, mas Camille, de 33 anos, é a única que também desenvolve a atividade de bordar, que aprendeu com a mãe aos 10 anos de idade. O bordado é empregado em criações voltadas à decoração e à moda, em roupas, assessórios, toalhas. O conhecimento das duas artes a fez, inclusive, inovar e criar artigos de moda em bordado e madeira. Uma mistura que deu certo.

'Meu avó Fernando Rodrigues botou o nome de Boca do Vento porque o local é o mais ventilado no povoado' - Camille Souza, artista popular da Ilha do Ferro.
Artesã Camille Souza é um dos novos talentos do Ateliê Boca do Vento (Foto: Reprodução / Instagram - @atelie_boca_do_vento)
Do vilarejo para as passarelas do Fashion Week
A artesã Camille Souza é um dos novos talentos do Ateliê Boca do Vento. Ela iniciou na arte de esculpir em 2016, aos 23 anos. Foi a primeira mulher artesã em madeira do povoado. “Aprendi com meu pai e Neto. Comecei a trabalhar com miniaturas. Bancos, mesas e cadeiras em miniaturas. Mas desde a infância eu já via meu avô trabalhar. Meus brinquedos era ele quem fazia. E aí teve um desafio do meu pai Valmir e do Neto para que eu produzisse os bancos, mesas e cadeiras em miniaturas. Eu consegui fazer a primeira produção e não parei mais.”

Camille Souza se formou em Biologia, mas não abandonou o legado do avô. Além de criar peças no Boa-Noite e na madeira, ela administra as redes sociais e cuida das vendas. Apesar de ter começado um pouco mais tarde na arte de esculpir, tem surpreendido ao dar asas à imaginação. É dela a cama criada para fazer parte do cenário de um desfile do estilista alagoano Castro Antônio na São Paulo Fashion Week em 2024.
“Eu desenhei essa cama junto com a Camille Rodrigues [Souza], artista popular e artesã, e a Liara Cavalcanti, arquiteta e artista visual, para o desfile da minha coleção chamada O Conto de Laura, que foi inspirada na história da minha tia-avó, Maria Sertaneja, que abandonou a família para se tornar cangaceira”, explicou o estilista em sua página no Instagram.

Passarinhos, flores e folhas enfeitam a estrutura da cama, que vai se entrelaçando pela cabeceira e contornos de toda a peça. A cama foi colocada no meio da passarela, junto de outros elementos cênicos, com uma atriz deitada fingindo que dormia durante todo o desfile. Conforme Castro Antônio, a ideia surgiu da intenção de fingir que o desfile acontecia dentro de um sonho.
“Eu queria uma cama, mas não qualquer cama. A ideia era criar uma cama teatral, dramática, que usasse dos elementos comuns do trabalho da Camille e de outros artesãos da ilha, que se tornaram a iconografia do lugar. Camille topou o desafio que a gente na época não sabia, mas era a peça de maiores dimensões já produzida na Ilha do Ferro, um lugarejo banhado pelo Rio São Francisco, onde toda a gente respira e vive de arte e artesanato”, pontuou o estilista.
Depois da passarela do Fashion Week, a cama já foi armada em um banco de areia enquanto a maré secava para virar cenário de uma campanha da marca de Castro Antônio e ficou em exposição durante meses na Casa Cor São Paulo, dentro do espaço do arquiteto Gabriel Fernandes.
“Hoje ela mora aqui no meu quarto e é nela que eu durmo quando estou em Alagoas. O mais legal dessa história é que apesar de ter sido a primeira cama com esse tipo de estrutura feita na Ilha do Ferro, ela abriu precedentes para que outras fossem produzidas a partir dela, criando novas possibilidades de produção para essa comunidade. A original eu tenho privilégio de chamar de minha e de adormecer admirando cada elemento esculpido à mão com talento e delicadeza”, enalteceu o estilista.
TOP 100 e collab com Cantão garantem visibilidade da marca
- O trabalho desenvolvido pelos artesãos do Boca do Vento conta com o apoio do Governo do Estado, por meio do Alagoas Feita à Mão, e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Camille Rodrigues diz que o suporte é de grande importância para difundir o trabalho.
- “O Sebrae e o Governo do Estado são parceiros demais, nos dão todo apoio, suporte, principalmente em feiras. Eles dão a oportunidade de a gente levar o nosso trabalho para outros estados. Dessa forma, conhecemos novas pessoas, fazemos conexões, aumentamos nossas vendas e levamos nossa arte para o mundo”, destacou Camille.
O Boca do Vento também figurou na última edição do Sebrae TOP 100 do Artesanato Brasileiro. Três peças do ateliê carregam o selo há três anos: o Pássaro, o Totem e o Banco Forquilha. Este ano, o ateliê está concorrendo novamente. Uma das apostas é a peça Raiz Viva.

“É uma premiação de grande importância porque são selecionadas as 100 melhores do Brasil. Então é um reconhecimento muito grande para o nosso artesanato. Dá visibilidade, conhecimento de marca. O TOP 100 é excelente”, avaliou a artesã Camille.

Esse reconhecimento é o que faz a artista, o ateliê e a arte da ilha que não é ilha ganharem visibilidade. E assim o artesanato desse oásis de cultura no meio do Sertão tem sido inspiração para a arte, o design e a moda.

Em dezembro de 2022, a marca Cantão lançou uma coleção inspirada no vilarejo. A Collab Cantão + Ilha do Ferro imprimiu o bordado Boa-Noite e estampas que imitam as tradicionais esculturas de madeira da região em 35 peças entre vestidos, blusas, calças, bolsas e jaquetas.
A collab foi uma parceria entre o Sebrae e a Cantão. As roupas homenagearam as obras originais do Ateliê Boca do Vento e dos mestres-artesãos Aberaldo e Vavan, todos da Ilha do Ferro.

“Fiquei muito animado, muito grato de ver minha arte dentro da roupa. Isso pra mim não tem preço não. Eu tenho certeza que essas roupas vão voar”, disse mestre Vavan em vídeo de lançamento da coleção.
Já a artesã Camille e outras mulheres da comunidade aparecem no vídeo usando vestidos coloridos pelas esculturas de suas criações. “O que Cantão está fazendo divulgando o nosso trabalho nas roupas, eu achei lindo”, vibrou a artista popular.
Um apê que respira arte popular
Um lar carregado de memórias. Assim é o apê de 118 metros quadrados do bancário alagoano formado em engenharia elétrica Múcio Toledo, de 58 anos. Ele vive cercado de peças de arte popular brasileira. O lugar transmite personalidade e aconchego. São quadros, máscaras, garrafas e esculturas em madeira, barro, sucata e vidro dispostos na parede, em mesas e luminárias espalhados pelas salas de estar e jantar, cozinha e outros cômodos.
Cada peça tem uma história para contar sobre um lugar que ele percorreu ou um artesão que conheceu. São tantas obras de arte popular reunidas em um só lugar que não dá nem para contar. Nem Múcio faz ideia de quantas são. “Ainda não fiz um inventário para saber quantas consegui reunir. Porque eu não sou um colecionador. Apenas gosto”, disse.

O acervo conta com peças de várias partes do Brasil, mas majoritariamente de Alagoas e Pernambuco. Artistas como João das Alagoas, Sil, Jasson, Aberaldo, Vavan, Petrônio, Luiz Benício, Abias, Erisson, Manoel Eudócio, Luís Antônio, Ribamar, Zé Bezerra, Nicola, Arlindo Monteiro, Gaspar, Fernando Lopes, e Dona Irinéia estão entre os mestres escolhidos para encantar todos os dias a vida desse alagoano amante do feito à mão autoral. Algumas peças do Peru e da África também compõem a galeria pessoal.
CARA DO NORDESTE
Todas as obras minuciosamente garimpadas estão reunidas harmonicamente e dão um charme todo especial ao ambiente com a cara do Nordeste. É como casa de vó, tem afeto e memória. Um lugar onde se esquece do tempo lá fora e imprime uma vontade de ficar sempre um pouquinho mais.
Múcio conta que sempre gostou de arte popular. Mas foi o convívio com um amigo de adolescência, cuja família tinha muitas peças em casa, que o influenciou bastante. “Gosto de arte em geral. Mas a arte popular tem algo de proximidade. Traz beleza, aconchego, personalidade. Conta a história da vida do artista e do lugar. Mostra orgulho e pertencimento”, avaliou.

O amante de arte popular nasceu em Viçosa, mas logo veio morar em Maceió. Com 14 anos, se mudou para Recife, onde conheceu o amigo que o influenciou. Ele conta que, nessa época, também costumava ir a Caruaru, onde a arte popular é muito presente.
Aos 21 anos, Múcio voltou a Maceió. Depois, aos 29 anos, foi morar na França. Ficou cinco anos por lá e voltou a capital alagoana, onde reside até hoje. Ele conta que cada peça de seu acervo foi colecionada ao longo dos anos, desde a primeira casa aqui na terrinha, em 2005. Das primeiras aquisições até então, o conjunto cresceu tanto que ele diz não ter mais onde colocar novos objetos.
O apê onde mora atualmente contou com projeto de ambientação elaborado por um arquiteto. “Mas outras coisas fui eu. Eu não gosto de lugar que parece uma loja, onde você entra e diz: ‘isso é um projeto do arquiteto tal’. Gosto do lugar que tem a cara do dono.”

E quem conhece Múcio diz mesmo que esse apê aconchegante é a cara dele. Os amigos costumam fazer relação de algum objeto artesanal ou algum ambiente a sua figura, como do tipo “vi algo com a tua cara” ou “vi algo e lembrei de você”.
Mas as peças escolhidas a dedo não são dispostas de maneira aleatória. Múcio faz questão de planejar tudo e buscar soluções para encaixá-las mesmo onde elas não se enquadrariam, como uma garrafa com miniaturas dentro, a qual ele fez um arranjo com arame e conseguiu dispor em uma composição na parede.
A mesa de centro é como uma redoma de vidro, onde algumas peças foram emolduradas. Entre os itens, uma sereia do mestre Vavan, da Ilha do Ferro. A redoma foi uma forma de proteger dos quatro cachorrinhos da raça Shih Tzu que passeavam pelo ambiente durante a entrevista. Múcio conta que certa vez eles subiram e quebraram um fusquinha. “Aí depois eu comprei outro.”

O cuidado é justificável, visto que cada peça é única. Não há repetições. E elas são distribuídas por cada canto das salas de estar e janta. Na mesa de canto, ao lado do sofá, por exemplo está uma jaqueira, escultura de barro da mestra Sil de Capela, e uma cabecinha de raposa de Zé Crente. Dentro da mesa de centro de vidro também estão um fusquinha do mestre Luiz Antônio e um boi de Manoel Eudócio, ambos de Caruaru. No alto do pé direito, máscaras do mestre Gilberto da Silva, de Porto de Pedras. Em outra parede, um quadro do pintor maceioense João Lamenha, cujo olhar acompanha o apreciador de qualquer ângulo, como a Monalisa. Há ainda diversas peças da Ilha do Ferro espalhadas por todo o apê, inclusive na cozinha.

Apesar de não ser colecionador, o acervo é rico em obras de nomes consagrados. Há uma Nossa Senhora Aparecida do Mestre Ribamar, do Piauí, e uma obra de Zé Bezerra, artista que tem obras expostas na Pinacoteca, em São Paulo. A imagem da santa fica na sala de jantar. Além dela, duas obras de artistas pernambucanos completam a decoração do ambiente: um Cristo de galhos de árvore do mestre Abidias e um quadro de Erisson.
ARTE ACESSÍVEL
Múcio considera que o trabalho autoral dos mestres populares, apesar de ser um pouco mais caro, é uma arte acessível. “Eu gosto de viajar, eu adoro ir a museu, de ver arte. E a arte popular eu acho que é uma forma de você ter arte que ainda é acessível, porque as outras formas de arte [erudita] são bem mais caras. É claro que algumas obras populares vão ficando um pouco mais caras, porque quando o artista se diferencia e vira um mestre ele ganha mais relevância. Algumas pessoas você vê que mudaram completamente de vida com suas peças. Mas mesmo mais caras ainda são acessíveis. E nada mais justo que tenham mais valor comercial, porque eles produzem peças únicas. Não é como ir na feirinha e encontrar 20 iguais. As peças levam a marca deles. Uma escultura da Sil, por exemplo, está bem mais cara do que quando eu comprei. E graças a Deus a arte popular está bem mais valorizada”.
Alagoas Feita à Mão gera R$ 25 milhões em vendas em uma década
O artesanato alagoano tem ganhado valor muito pelo talento e a criatividade desses profissionais que carregam cultura nas veias, mas uma coisa que deve ser ressaltada é o apoio de programas para que a atividade seja cada vez mais fortalecida.

E um desses apoios é oferecido pelo Alagoas Feita à Mão. Somente me 2025, o programa que conecta artesãos locais aos grandes centros de consumo, turismo e design do Brasil e do mundo movimentou mais de R$ 1,1 milhão em vendas por meio das ações desenvolvidas. Em 10 anos foram R$ 25 milhões.
Os dados são uma estimativa da Secretaria de Estado de Relações Federativas e Internacionais (Serfi), órgão do Governo do Estado responsável por gerir o programa. Consideradas as vendas fechadas pelos artesãos após a participação em eventos promovidos pelo Alagoas Feita à Mão, o valor é ainda maior, conforme a Serfi.
Além de gerar conexões que fortalecem a economia local, o programa contribui para dar visibilidade ao setor dentro e fora do estado. Com isso, ganha o artesão e a cultura popular alagoana.

Pelo programa, o profissional pode emitir a Carteira Nacional do Artesão, documento que formaliza a profissão e garante acesso a benefícios exclusivos. Somente em 2025, foram emitidas 1.234 carteiras. O documento está vinculado ao Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) e é essencial para o acesso a políticas públicas e participação em feiras e ações oficiais.
Não há informações sobre quantos artesãos existem em Alagoas. O estado tem atualmente aproximadamente 18 mil cadastrados. Mas o número de profissionais deve ser maior, conforme explicou a coordenadora do Programa de Artesanato do Sebrae Alagoas, Marina Gatto, na primeira reportagem desta série. Com a carteira, eles têm acesso aos benefícios do programa. São feiras nacionais, rodadas de negócios, eventos de design no Brasil e no exterior, capacitação, espaços de comercialização. Tudo para criar oportunidades de negócio.
“Todos os 102 municípios alagoanos contam com artesãos cadastrados, fortalecendo a identidade cultural do estado e ampliando suas oportunidades de mercado”, informou Anne Ferreira, gerente de Design e Artesanato do programa.

Conforme Ferreira, o programa iniciou suas atividades com a emissão da Carteira Nacional do Artesão e a participação em feiras locais e internacionais. Em 2021, fez de Alagoas o primeiro estado brasileiro a levar sua produção artesanal à Semana de Design de Miami, o que abriu portas para exposições em Nova York e Milão.
“Atualmente, o Alagoas Feita à Mão é referência nacional no apoio ao artesanato, promovendo capacitações e acompanhamento direto aos artesãos”, reforça Anne Ferreira.
Crediamigo e Prodeter ajudam a desenvolver atividade em todo o estado
Outras iniciativas que têm contribuído para valorizar e promover o artesanato alagoano são disponibilizadas pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB). A instituição não tem uma linha de crédito específica para o artesão, mas tem um modelo que se adapta a esse perfil de cliente. Trata-se do Crediamigo. Conforme Heberth Caíres Sousa, gerente estadual do Crediamigo em Alagoas, o programa é a porta de entrada para quem trabalha por conta própria ou está começando a empreender, como é o caso dos artesãos.
“O Crediamigo atende diretamente o artesão de forma prática e acessível, sendo hoje a principal solução do BNB para fortalecer esse público no dia a dia. Na prática, o Crediamigo é uma linha principal que se adapta a diferentes perfis de artesãos, desde os informais até os que estão se estruturando como pequenos negócios”, explicou Caíres.
O programa, que atende tanto individualmente quanto grupos produtivos, oferece crédito orientado e facilitado para compra de matéria-prima, ferramentas e organização da produção. Os valores podem aumentar conforme o cliente desenvolve o negócio e mantém um bom histórico. O artesão conta com acompanhamento próximo, com orientação que ajuda a melhorar vendas, precificação e gestão.

As exigências são mínimas. Na maioria dos casos, comprovação formal de renda não é necessária. Não é obrigatório ter empresa aberta. Microempreendedor Individual (MEI) é opcional. O crédito é baseado na confiança, relacionamento e capacidade de pagamento. Dependendo da modalidade, pode ser necessário participar de grupo solidário. O cliente passa por uma visita e orientação do agente de crédito.
“O Crediamigo foi feito justamente para o perfil do artesão, com poucas exigências formais, foco na atividade real e apoio próximo. Ou seja, mesmo quem está começando ou ainda é informal consegue acessar o crédito”, pontuou Caíres.
Além do Crediamigo, o BNB colabora para fortalecer o artesanato alagoano por meio do Programa de Desenvolvimento Territorial, o Prodeter. O programa não é especificamente voltado aos artesãos, mas busca fortalecer territórios e cadeias produtivas nas quais o artesanato está inserido. No caso do artesão, pode se enquadrar em turismo, comércio ou serviço, dependendo do projeto apresentado para financiamento.
“Em Alagoas, o Prodeter prioriza diversas atividades, porém ainda não implementamos um projeto voltado especificamente para o artesanato, mas estamos estudando a possibilidade de priorizar essa atividade no Litoral Sul”, informou o gerente executivo de Desenvolvimento Territorial do BNB em Alagoas, Manoel Roberto.
O programa tem o objetivo de promover o acesso facilitado ao crédito, o planejamento coletivo da produção, a capacidade técnica e gerencial, a integração entre produtores, mercado e tecnologia e o aumento da competitividade regional.
Um grupo gestor envolvendo diversas instituições, entre elas o Sebrae, é responsável por atuar de modo a desenvolver ações voltadas à atividade priorizada, com capacitação e financiamentos orientados e integrados.
O Prodeter foi implantado pelo BNB em 2018 e, em Alagoas, contempla oito territórios. Começou pela Bacia Leiteira e Agreste. Hoje, o programa está presente também no Alto Sertão, Médio Sertão, Baixo São Francisco, Região de São Miguel dos Campos, Região de União dos Palmares e Litoral Norte.


