‘Eu sempre vi no filé um potencial gigantesco’

Artesã pioneira na criação de bolsas e biquínis no bordado inova e amplia possibilidades na moda e decoração

Por Emanuelle Vanderlei e Valdirene Leão - Repórteres / Bruno Martins - Revisão / Adailson Calheiros - Foto de capa | Redação Tribuna Hoje

Nesta segunda reportagem especial da série sobre o artesanato autoral alagoano, o portal Tribuna Hoje traz a história da artesã Lucineide Barbosa, do bordado filé do Pontal da Barra, em Maceió, que está à frente do grupo produtivo Luart. Desde cedo, a artista popular entendeu a importância de agregar valor à renda. Ela foi pioneira em usar a trama, que aprendeu a fazer ainda pequenina com a mãe - a mestra Lourdinha - no bairro referência do bordado em Alagoas, em bolsas com acabamento em couro e metal de alta qualidade e durabilidade.

O trabalho autoral de Lucineide logo foi seguido por outras artesãs do bairro. “Essa questão de cópia sempre existiu. A gente cria e, quando dá certo, chama a atenção de outras pessoas. A peça é bonita e traz uma referência. Então essa questão sempre existiu”, avaliou.

No começo, a questão a incomodou, mas o desconforto não a paralisou. E ela viu que também podia levar o colorido e o charme da renda para biquínis, acessórios, sandálias, tamancos, pufes, luminárias e outras peças. “Eu sempre vi no filé um potencial gigantesco. Vi que era possível trabalhar o bordado em outros segmentos que não só o vestuário tradicional ou itens de casa, como paninhos de bandeja, almofadas, toalhas e caminhos de mesa”, disse.

Artesã é pioneira em criar bolsas de filé com alças de couro e metal de alta qualidade (Foto: Adailson Calheiros)



Lucineide percebeu que podia fazer mais e ampliou esse leque de possibilidades. Há 25 anos ela começou a desenvolver uma coleção de moda praia para uma fábrica em São Paulo. O trabalho durou aproximadamente dois anos e começou com peças-piloto para entender como o bordado filé se encaixava no molde e se adaptava ao corpo de forma confortável e funcional.

“Como o filé não tem elasticidade, eu busquei trabalhar com uma linha mais fina. Eu cheguei para o cliente e falei que não dava para fazer como ele queria, na linha elástica. Porque o filé não tem elasticidade. Então a gente fez na linha fina [em algodão] e ficou um trabalho bacana”, lembrou a artesã.

Naquela época, não havia Instagram e a rede social existente não era voltada para relações comerciais. Os produtos eram comercializados em loja física e em feiras que ela participava fora da terrinha dos Caetés. Suas produções já eram bem valorizadas pelos visitantes de Maceió ou quando as peças desembarcavam em cada cidade, em cada país.

“Lá fora o artesanato tem um valor comercial gigantesco, basta ter uma bandeirinha identificando que é do Brasil. Sabemos que lá fora tem valor, mas é aqui que realmente precisamos ter essa noção de valor. A gente tem que se apropriar do que é nosso. O filé é nosso, é Patrimônio Imaterial e Cultural do estado de Alagoas. Ele tem história. Só que às vezes é preciso ir para uma mídia para poder ter valor”, lamentou.

Peças do grupo Luart carregam selo do Sebrae após conquistar Prêmio TOP 100 do Artesanato Brasileiro, na última edição, em 2022 (Foto: Reprodução)

E a queixa é de quem vê o filé sendo explorado comercialmente e tendo visibilidade pelas mãos de pessoas que não têm uma relação de pertencimento com o bordado, que sequer sabem como colocar a rede no tear, fazer o risco da peça ou elaborar uma trama por mais simples que seja.

“Hoje vemos a moda [em filé] explorada no Instagram, mas a gente já vinha lá atrás fazendo um trabalho maravilhoso. Então a gente [bordadeiras do filé] pode não ter uma rede muito boa, como pessoas que compram seguidores. Até poderíamos ter uma, mas a intenção não é essa. Não adianta querer vender uma imagem se não é verdadeira. Nossa intenção é crescer organicamente e, dessa forma, conseguir ter nosso trabalho reconhecido”, explicou a artesã.

A fala é recheada de sentidos, uma vez que, como é feita à mão, qualquer peça demora a ficar pronta, principalmente quando o produto é mais elaborado, bem acabado e criativo como as peças autorais produzidas por Lucineide Barbosa e os artesãos do grupo.

Grupo produtivo reforça fabricação e garante renda a famílias de bordadeiras

Nessa busca por um crescimento gradual e sustentável, de modo que pudesse preservar a identidade do bordado filé, Lucineide Barbosa fundou o Luarte. O grupo nasceu há aproximadamente 35 anos da necessidade em atender a clientela com a mesma qualidade. Sozinha não era possível dar conta da demanda e, para aumentar a fabricação, um grupo produtivo seria a solução.

Apesar de administrar o grupo, Lucineide nunca deixou de fazer o bordado (Foto: Adailson Calheiros)

O grupo Luarte conta com 22 artesãos, sendo 20 mulheres e dois homens. Alguns estão engajados desde o início. São profissionais do Pontal da Barra, de Marechal Deodoro, Coqueiro Seco e Pilar. As artesãs de Coqueiro Seco confeccionam a tela, que é uma rede, tipo a de pescar, só que feita com malha pequena em linha de algodão. É nessa tela que as bordadeiras, após esticá-la em um tear de madeira, fazem o desenho do que pretendem produzir, seja uma blusa ou caminho de mesa, e preenchem aquele espaço demarcado com flores, jasmins, aranhas, leques, entre outras tramas que aprenderam desde cedo com seus antepassados.

Apesar de liderar o grupo, a microempreendedora nunca deixou de fazer a renda. “Na verdade, eu sempre busquei inovar, criar. Sempre desenvolvo as peças-piloto. Mas eu nunca deixei o meu bordado filé. Faz parte do meu cotidiano”, contou. O bordado confeccionado por ela, com o apoio das mãos que se uniram às suas, é primoroso. As tramas são impecáveis, com pontos fechados e bem arrematados, que dão requinte e sofisticação a peças diferenciadas.

'Para o artesão é o prêmio mais elevado. Então, o prêmio Top 100 é muito importante, porque ele dá visibilidade, ele traz as parcerias com o Sebrae. É uma premiação de reconhecimento ao nosso trabalho' - Lucineide Barbosa, artesã do bordado filé.

Empreendedora mostra bolsa intitulada Mestra Lourdinha, inspirada na mãe dela; item concorre ao Sebrae TOP 100 deste ano (Foto: Adailson Calheiros)

Luarte no Top 100 do Artesanato Brasileiro

O trabalho desses mestres da arte popular não foi difundido na velocidade da internet, puxado pelas redes sociais. No entanto, essa trajetória tem sido reconhecida por quem conhece bem o talento das mãos que dão forma a peças únicas.

Em 2022, o Luarte recebeu o Prêmio Sebrae Top 100 do Artesanato Brasileiro, então em sua 5ª edição. A premiação avalia e reconhece as melhores práticas de artesanato do país. As unidades produtivas reconhecidas podem utilizar o selo Prêmio Sebrae Top 100 do Artesanato por três anos e, com esse diferencial de mercado, agregam valor à marca.

O Luarte concorreu com quase 7 mil participantes de todo o país e teve três criações em filé reconhecidas: a Bolsa Olindina, o Pufe Almirante e a Luminária Gajuru. “Para o artesão é o prêmio mais elevado. Então, o prêmio Top 100 é muito importante, porque ele dá visibilidade, traz as parcerias com o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas]. É uma premiação de reconhecimento ao nosso trabalho”, pontuou a artesã.

O prêmio, que começou em 2006, está em sua 6ª edição este ano e já se consolidou como uma das principais iniciativas de valorização do artesanato na América Latina, ampliando a visibilidade do setor e abrindo oportunidades de mercado. O grupo Luarte participa mais uma vez, com a apresentação de três peças no bordado filé. Uma delas a partir da marcação de “risco”, que é o desenho feito a partir da contação de malhar, como no ponto cruz.

Nova criação da artesã, painel feito em filé de risco, é forte concorrente ao TOP 100 deste ano (Foto: Adailson Calheiros)

“O filé de risco é um trabalho mais antigo. As rendeiras mais tradicionais, como a minha mãe, dizem que filé de risco é aquele de marcação. Por exemplo, uma peça de ponto cruz, dependendo do tamanho da malha do filé, a gente consegue fazer o desenho. Na corrida pelo Top 100 deste ano, a gente está com um painel de parede, uma bolsa a qual demos o nome de minha mãe, a Mestra Lourdinha, e as jangadas [de madeira] com as velas em filé”, descreveu Lucineide. A moldura do painel é em palha de Ouricuri, feita por artesãos de Coruripe.

A inscrição do Top 100 se encerrou em abril. O concurso consiste em três etapas. Na primeira, serão selecionadas 300 unidades produtivas, com peças mais bem avaliadas, com base em critérios de inovação estética, qualidade, valor simbólico e funcionalidade. Na segunda etapa, a premiação seleciona 200 finalistas com base em práticas de gestão, condições de trabalho, sustentabilidade, experiência comercial e diferencial estratégico. Dessas, apenas 100 serão escolhidas como vencedoras pelo júri final. “O resultado deve sair no final do ano”, disse a empreendedora.

PAB

  • O Luarte também foi o primeiro grupo produtivo alagoano a ser reconhecido pelo Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). “Somos o primeiro e isso porque já fazemos um trabalho legal há bastante tempo. E é um reconhecimento de peso. Depois da gente, vêm os grupos Fulô.A de Penedo e o Amor Caseado de Boca da Mata”, explicou a rendeira.
  • O PAB fortalece o artesanato como setor econômico relevante, gerando renda e oportunidade de trabalho e preservando culturas locais. Entre os benefícios oferecidos aos artesãos estão a participação em feiras e eventos nacionais, a capacitação e profissionalização, a integração com redes de economia criativa e o apoio à formalização.

De João Gomes a Ana Maria Braga, artistas projetam bordado filé do Luart

Outros reconhecimentos enchem o peito da bordadeira de orgulho. O blazer usado pelo cantor João Gomes durante um show da final da Supercopa do Brasil, transmitido pela TV Globo, tinha estampado na gola o bordado filé do Grupo Luarte. “Ver o nosso trabalho na roupa de um cantor nordestino de renome em um show com transmissão nacional é muito prazeroso”.

Mas não ficou por aí. O cantor exibiu novamente o filé do Luarte no programa Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman, também na Rede Globo. Ele usava uma camisa em tecido amarelo com flores vermelhas em filé pregadas ao longo da peça.

Atualmente, o grupo produtivo trabalha em mais uma encomenda do cantor. Uma camisa toda no bordado para ele e um vestido para a influenciadora digital Ary Mirelli, esposa do artista. Ainda não há informação sobre o evento em que eles exibirão este bordado, mas, quando acontecer, todos verão.

Bordado filé é mais uma vez a escolha de João Gomes durante apresentação no programa Altas Horas (Foto: Reprodução)

O bordado do grupo também já esteve presente em apresentação de escola de samba, em um vestido usado por Selminha Sorrido da Beija-Flor. Também em rede nacional, ganhou o país ao ser exibido pela apresentadora Ana Maria Braga, que vestia um sobretudo em uma das edições de seu programa matutino.

A renda tem ganhado destaque constantemente nas redes sociais ainda por meio de figuras públicas da terrinha, como Tereza Collor e a secretária de Planejamento de Alagoas, Paula Dantas. Esta última, volta e meia, faz questão de exaltar o bordado no seu perfil no Instagram.

Para Lucineide, que já teve loja de artesanato em Curitiba, o artesanato autoral alagoano vem ganhando força, especialmente por conta de trabalhos voltados ao segmento desenvolvidos por instituições como o Governo do Estado, Sebrae e Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Trabalho primoroso das bordadeiras do Luart imprime na peça um ar de elegância e sofisticação (Foto: Adailson Calheiros)

E ela fala da posição de quem é testemunha dessa mudança. “Hoje mesmo as pessoas estão buscando o artesanato alagoano. Não só peças de decoração, mas também vestuário. No caso da decoração, não só os arquitetos, mas também as pessoas em geral. A gente sente isso. Acho que a fase do artesanato nunca esteve tão aguçada quanto agora. Aí você vê casas lindíssimas, modernas, mas tem que ter o artesanato inserido nelas. E eu como rendeira acho isso fora de série”, vibrou.

O apoio de instituições é visto como fundamental: “a gente tem o apoio do Governo do Estado, por meio do Alagoas Feita à Mão, que faz um trabalho há muitos anos levando o artesão a eventos fora da terrinha. Agora mesmo estou aqui em São Paulo [há duas semanas] por meio desse programa. A nossa coordenadora, a Anne Ferreira, tem um olhar maravilhoso para o artesão e vem fazendo um trabalho fantástico. E isso é muito importante, porque a gente precisa desses eventos para escoar a produção, gerar mais movimento para o grupo e, consequentemente, renda. O Sebrae também tem sido um parceiraço nosso. A Marina Gatto é a nossa gestora do artesanato. Então o Sebrae sempre nos deu apoio. E o Banco do Nordeste nos apoia por meio do acesso ao crédito para compra de matéria prima. E esse apoio nos ajuda a manter o movimento constante da nossa produção, fortalecendo assim nossa categoria”, avaliou a artesã.

Sonho realizado: galeria expande e mantém viva a cultura popular

O trabalho da Luart pode ser encontrado em uma loja física localizada no bairro do Pontal da Barra, a Mulher Rendeira. O valor das peças vai de R$ 10, um marca-página, até aproximadamente R$ 2,2 mil, um vestido bem elaborado. A maior parte do que é produzido pelo grupo não vai para a vitrine, é embalado e enviado a clientes em São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Há até fila de espera para receber peças desse Patrimônio Cultural e Imaterial de Alagoas, que foi trazido pelos portugueses durante a colonização e adaptado para a realidade local.

Valores vão de R$ 10 a aproximadamente R$ 2,2 mil, preço de um vestido bem elaborado (Foto: Adailson Calheiros)

O espaço onde funciona a loja física acabou virando uma galeria. Fundada no dia 22 de maio de 2019, 10 meses antes do início da pandemia do novo coronavírus, a Galeria Mulher Rendeira, expõe, além do filé do grupo produtivo, trabalhos de mais de 40 artesãos espalhados pelo estado.

“Como toda a vida eu trabalhei com artesanato, fiz amizade com outros artesãos. Então a ideia era de fazer um espaço para que o turista que vem a Maceió pudesse conhecer o trabalho de artesãos do interior do estado, como o André da Marinheira, Patrimônio Vivo de Boca da Mata. Então, o turista vê a peça, se interessa e a gente dá o contato, indica onde pode ser encontrada”, explicou a artesã Lucineide Barbosa.

Atualmente, 20 artesãos integram o grupo Luart, a maioria do Pontal da Barra (Foto: Adailson Calheiros)

No local é possível encontrar peças que vão de acessórios de moda a itens de decoração. Há trabalhos em madeira, bordado, cerâmica, palhas e outros materiais de artesãos dos mais variados municípios alagoanos, como Boca da Mata, Capela, Coruripe, Feliz Deserto, Maragogi, Pão de Açúcar (Ilha do Ferro), Porto de Pedras, Santana de Ipanema e São Sebastião.

Galeria idealizada por Lucineide é uma vitrine para mais de 40 artesãos alagoanos (Foto: Adailson Calheiros)

A proposta vai além da exposição de obras dos mestres. A ideia é de um espaço onde a arte popular possa ser expandida e se manter viva. E nesse sentido, algumas oficinas tentaram passar os primeiros passos do bordado filé e da arte do barro aos interessados em aprender. A última foi ministrada pela ceramista Maria Corá, que ganhou o mundo com suas esculturas em argila, as Marias. “Hoje, me dedico só à galeria. Ela é um sonho realizado”, finalizou Lucineide.

Peças alagoanas são valorizadas até na arquitetura

No mercado da decoração, especialistas reforçam o potencial do artesanato autoral alagoano. A arquiteta Roberta Medeiros explica que costuma usar no trabalho a sugestão de peças desse tipo. “Eu acho que o designer autoral e o artesanato, eles trazem muito dessa vertente única, expressões muito singulares. Então, eu sempre tento trazer nos meus projetos e nas minhas escolhas, tanto de arquitetura de interiores e até na moda, algo mais autoral”.

Na sua avaliação, o trabalho realizado pelos artesãos autorais locais tem muita qualidade. “Eu sempre tento indicar, porque eu vejo muita potencialidade no design brasileiro, no design local, de Alagoas e no artesanato, na arte popular. Eu acho que varia muito, tanto dos utilitários, como na parte de decoração e mobiliário. Eu acho que hoje em dia os artistas alagoanos não perdem para nenhum outro estado. A gente se destaca muito nas feiras nacionais, em exposições e também até no uso, na escolha dos objetos alagoanos a partir de escritórios de arquitetura e de lojistas e galeristas de outros estados, de São Paulo, por exemplo, do Rio de Janeiro”.

Arquiteta Roberta Medeiros vê potencialidade no artesanato, na arte popular e, por isso, costuma indicar aos clientes (Foto: Adailson Calheiros)

A ligação com o artesanato é uma marca do seu trabalho, e por isso muitas vezes os clientes já buscam essa curadoria. “Muitas das vezes, os clientes já vêm porque viram o meu trabalho, já sabem que eu tenho um estilo e uma preferência que já dá vazão a essa estética e esse propósito de trabalhar com artesanato e com o design local”.

Mesmo quando não é o caso e os clientes não conhecem, ela se propõe a apresentar. “Sempre que isso não é tocado no assunto, eu também sugiro porque eu acho que a minha profissão também passa por isso de educar os consumidores, os clientes, de elementos e de uma estética que talvez nem faz parte da preferência inicial deles e que, depois de ver a sugestão, a inspiração, eles acabam gostando bastante, querendo e se interessando pelo assunto”.

A arquiteta tem uma história com a cultura popular desde a infância. Ela agregou essa experiência à sua formação profissional. “Eu tenho uma ligação com o artesanato e o design. O artesanato, primeiramente, é ligado à minha família, minha mãe sempre bordou e daí eu aprendi a bordar com o tempo, na infância, e quando eu entrei na arquitetura, sempre gostei muito de elementos autênticos, autorais”.

Arquiteta carrega história com a arte popular desde a infância (Foto: Adailson Calheiros)

Respeitando sempre as escolhas do cliente, ela entende que faz parte do seu trabalho apresentar sugestões. “Os projetos podem ter muita variação. Tanto da preferência do cliente quanto do próprio orçamento e, também, de qual objetivo. Se é um projeto comercial, se é residencial, se for, também, corporativo, se for uma clínica, então, eu tento indicar, sempre prezando pelo objetivo do cliente, o desejo dele e a ligação dele, o estilo dele, o que ele espera para o espaço, sempre tentando sugerir elementos de lojas nacionais, seja mais comercial ou não, e tentando trazer questões do artesanato brasileiro ou do design do país, além do artesanato local daqui de Alagoas”.

Ao desenvolver os projetos, ela considera as inúmeras vantagens de valorizar a produção ligada à cultura local. “No sentido de ser acessível localmente, para eles conseguirem adquirir, que eu acho que é muito importante. Às vezes, também indicamos, tentamos indicar ou sugerimos elementos de mobiliário ou de decoração, que às vezes não conseguimos achar fácil aqui em Maceió ou então para pedir online, às vezes fica inviável por conta do frete”.

Banco e escultura da Ilha do Ferro, além de mesinha em madeira, vidro e filé do Luart, da linha de design da arquiteta, compõem ambientação idealizada por ela (Foto: Adailson Calheiros)

Segundo Medeiros, Alagoas está em pé de igualdade com os outros estados do país. “Ao longo dos anos, o artesanato e arte popular alagoana foram ganhando uma grande projeção nacional, mas a estética e a singularidade dessa iniciativa artesanal já é muito forte faz tempo. Já temos mestres e grupos produtivos há muito tempo aqui em Alagoas, mas a projeção nacional e internacional veio nos últimos anos. Junto com essa projeção, a experiência do próprio artesão como artista, como empreendedor, como alguém que vende seu trabalho, foi ganhando também muita experiência de lidar com o cliente, lojistas e galeristas. Então, hoje em dia, os artesãos alagoanos estão muito preparados para viver do seu trabalho. E se igualando aos de outras capitais e estados”.

As possibilidades são muitas. A arquiteta explica que nosso estado tem uma boa diversidade de trabalhos. Ela aponta alguns entre os que se destacam ao seu olhar. “Muito se destacam as artesãs do Pontal da Barra, que fazem filé, uma técnica muito importante para Alagoas, que é o nosso patrimônio imaterial. E lá existem várias iniciativas, tanto cooperativas, associações, grupos produtivos. O grupo produtivo Luarte foi o que eu trabalhei ultimamente, elas são muito boas, muito preparadas, tanto para produzir utilitários, objetos de casa, decoração, quanto na parte de moda”.

Com a pegada da sustentabilidade, ela apresenta mais um nome da capital. “Aqui em Maceió também existe um artista, um artesão que trabalha com reúso de materiais e reciclagem, que é o José Firmo. Ele faz algumas esculturas, que são muito inspiradas na fauna local e ele é um artesão gari. E desde que eu conheci, vejo seu imenso potencial, porque ele tem um traço próprio e trabalha com material de reúso, como embalagens, plástico, coisas que ele acha no lixo e que ele transforma em esculturas belíssimas. Ele só não tem as projeções nacional e internacional que alguns outros artesãos já conseguiram”.

Roberta Medeiros mostra banco da linha Drão, que assina junto com artesãos locais (Foto: Adailson Calheiros)

Os materiais mais naturais também têm espaço nessa prateleira. “Uma temática que eu me interesso bastante são as fibras vegetais. Artesãs, principalmente mulheres, que trabalham com palha. Aí a gente é muito forte na palha do Ouricuri. Tem alguns grupos produtivos do Pontal de Coruripe que são muito fortes na produção de utensílios a partir do trançado da palha de Ouricuri e alguns grupos produtivos do Sertão, como a AMAQ, que é uma associação de artesãos quilombolas da Serra das Viúvas, lá em Água Branca. Elas também trabalham com fibras vegetais, tanto o cipó, quanto a palha do Ouricuri e palha de bananeira”.

A ligação com as raízes locais, na visão de Roberta, é o diferencial de muitos desses produtos. “Alagoas tem diversos grupos ligados a outros tipos de palha. Então, é um universo muito rico e ligado ao seu entorno, à cidade que eles estão, ao município em que eles e elas trabalham, com a fibra vegetal encontrada no seu povoado, na mata, ao redor das suas casas e que são muito ligados também à história local. A cultura local é indígena, quilombola”.

Peças do artesanato alagoano em um espaço projetado por Roberta Medeiros (Foto: Adailson Calheiros)

Associando os conhecimentos que acumulou nas duas áreas, tanto o design quanto o artesanato, Roberta Medeiros desenvolveu uma marca própria. “Eu também tenho uma iniciativa de design artesanal que desenvolve com artesãos locais algumas peças de mobiliário. Inicialmente, eu comecei com algumas peças de moda, que foram bolsas, com algumas artesãs que trabalham com a palha de Ouricuri. E, recentemente, eu produzi algumas peças dentro dessa minha marca, a Drão, junto com alguns artesãos locais de Maceió e também do interior do estado”.

O valor cobrado pelas peças, explica Roberta, considera alguns fatores. “A questão do valor, do preço, isso é muito variável. Tem material que é adquirido na própria natureza, tem material que é de reúso, então o próprio artesão não tem o custo com aquele material, é mais o trabalho que ele coloca ali, principalmente. Isso reflete no valor da peça e também têm questões do material que ele utiliza. Tintas, a madeira que às vezes é difícil de encontrar, então isso repercute no preço. E tem o tamanho do objeto e a história do artesão, que a partir da procura e da sua grande projeção nacional e internacional, isso é refletido no seu preço”.

Assim como outros produtos, a regra da oferta e da procura também pesa. “Eu acho a partir dessa projeção do tema e da procura cada vez maior dos clientes de arquitetura e dos consumidores em geral, isso tudo repercute bastante no preço.”