Tecnologia

8 de abril de 2020 11:53

Soluções improvisadas tentam suprir a falta de materiais de proteção individual

Professores criam força-tarefa para produzir álcool 70, máscaras, respirador mecânico e até pulseira anticoronavírus

↑ Fabricação de pulseira com impressora 3D anticoronavírus (Foto: Arquivo Pessoal)

Solidariedade aliada à competência técnica. Foi assim que surgiu o movimento de professores de Alagoas de diferentes instituições federais na criação de uma força-tarefa para a produção de álcool 70, máscaras, respirador mecânico e até pulseiras anticoronavírus, diante da escassez de materiais de proteção individual em decorrência da pandemia da Covid-19, que assola o mundo. Vários pesquisadores se engajaram na luta para ajudar, e diariamente o esforço vem ganhando ainda mais adeptos.

Enquanto para alguns, ficar em casa foi sinônimo de tédio, para o professor de informática Davi Carnaúba, do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) – Campus Satuba, está sendo um momento de inventividade e produção, visando o combate à doença Covid-19.

Professor Davi Carnaúba utiliza impressa 3D montada por ele (Foto: Arquivo Pessoal)

Com a suspensão das atividades letivas, iniciada no Ifal em 18 de março, ele criou uma pulseira que alerta sobre a proximidade da mão ao rosto e já confeccionou 30 máscaras de proteção facial, doadas à rede de saúde pública do estado.

Em casa, Davi Carnaúba, doutor em Ciências da Computação, construiu uma impressora 3D e desenvolveu uma pulseira que alerta o usuário sobre o contato das mãos com o rosto. “A tecnologia pode fazer muito pelo combate ao coronavírus. São constantes os avisos nos telejornais de que nossas mãos são o principal meio de contágio deste vírus. Estamos a todo o momento utilizando elas para pegar objetos e cumprimentar as pessoas, mas depois disso é comum tocarmos involuntariamente em nossos rostos. Isto pode levar todo tipo de agente nocivo para dentro do nosso corpo”, argumenta.

Assim também, outros professores de diferentes campi do Ifal estão trabalhando em escala nos laboratórios do Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para a produção de álcool 70%, nas versões: líquida e em gel, e de hipoclorito de sódio 1%, utilizados como agentes sanitizantes no combate ao coronavírus.

O trabalho começou no dia 31 de março, e resulta da iniciativa solidária do grupo de docentes do Ifal em colaborar com a força-tarefa liderada pela Ufal em parceria com representantes da sociedade civil e empresários alagoanos. A ação geral visa beneficiar o Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HU) e outras instituições, arrecadando e produzindo itens de higiene essenciais no combate ao vírus causador da Covid-19, doença que vem impactando o mundo nos últimos meses.

No Brasil, são 700 mortes pelo novo coronavírus e os casos confirmados da doença ultrapassam 14 mil. Em Alagoas, de acordo com o último Boletim Epidemiológico 32, emitido pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS), nesta terça-feira (7), haviam 34 casos confirmados, além de 295 em investigação e 553 descartados.

Alagoas continua com dois óbitos confirmados por Covid-19 e as duas vítimas residiam em Maceió. O primeiro, confirmado no dia 31 de março, era um aposentado de 64 anos; já o segundo, cujo resultado foi divulgado na sexta-feira (3), tinha 78 anos e também era aposentado.

 

Produção de 100 máscaras caseiras até metade de abril

 

Se engana quem pensa que o professor Davi Carnaúba parou só na pulseira. Além dela, ele também trabalha com a confecção de máscaras de proteção facial. “Quando noticiaram que os hospitais não tinham Equipamentos de Proteção Individual (EPI) suficiente para os profissionais da saúde, eu sabia que podia fazer alguma coisa a respeito”, revela. No dia 25 de março, depois de ver uma campanha da revista Forbes estimulando a produção caseira de EPIs com impressoras 3D, ele iniciou a produção das máscaras em sua residência utilizando os recursos disponíveis até então.

“Não demorou muito para que outras pessoas oferecessem ajuda para a compra de mais insumos. As máscaras de proteção facial confeccionadas já foram doadas a hospitais e postos de saúde”, conta Davi. Trabalhando com ajuda da esposa, Márcia Carine Vieira, ele espera conseguir até a metade de abril a confecção de 100 máscaras de proteção facial.

O professor contou que as máscaras produzidas foram doadas para a UTI do Hospital de São Miguel, a UTI da Unidade de Emergência Doutor Daniel Houly, em Arapiraca, o Posto de Saúde da Pitanguinha, em Maceió, bem como para profissionais de saúde do Hospital Universitário, além de outras instituições que entraram em contato diretamente com Davi.

Segundo o dicente, qualquer pessoa com uma impressora 3D pode confeccionar estas máscaras. “Há vários projetos disponíveis na internet. Além do filamento, será necessário adquirir folhas de acetato medindo 24cm x 24cm”, explica. Clicando aqui, você pode ver a campanha da Revista Forbes e aqui, você pode baixar o projeto da máscara.

 

EPIs serão destinados para hospitais do Sertão

 

Pesquisadores se debruçam para ajudar na produção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) também no Sertão de Alagoas. O reforço chegou também no Campus do Sertão. Uma impressora 3D do curso de Engenharia de Produção foi emprestada para o Instituto de Computação, em Maceió, onde serão fabricadas máscaras de proteção destinadas aos profissionais de saúde para o combate à pandemia de Covid-19 na rede hospitalar de Alagoas.

O professor Davi Bibiano Brito que é o responsável pela equipe do IC vai reforçar o trabalho já realizado nos laboratórios de Computação Científica e Visualização (LCCV) e de Fabricação Digital (Fab Lab).

O diretor do Campus do Sertão, Agnaldo dos Santos, explica que a impressora foi adquira recentemente a partir de recursos de emenda parlamentar, mas ainda não havia profissionais treinados para produzir EPIs. “Por isso, a cessão da máquina para o IC terá melhor finalidade, podendo colaborar com cerca de dez protetores faciais por dia”.

EPIs destinados para hospitais do Sertão (Foto: Arquivo Pessoal)

O dicente Davi ressalta que nesta fase as impressoras cedidas estão programadas para a fabricação de máscaras, mas que em outro momento pode iniciar a produção de ventiladores mecânicos pra UTI. “A USP está trabalhando em projetos. Já estamos em contato com eles, assim que liberarem os projetos podemos fazer também. A gente vai fazer um protótipo na semana que vem. Já tem a parte mecânica e a gente está trabalhando na parte eletrônica e no controle”, adiantou, explicando que a ponte de contato é o professor Thiago Cordeiro, por meio da sua co-orientadora do doutorado na USP.

Agnaldo dos Santos, que faz parte também do Comitê de Emergência de Delmiro Gouveia, diz que a expectativa é conseguir máscaras e outros equipamentos para a região. “A cidade toda está em estado de emergência com barreiras de vigilância sanitárias, que funcionam 24h por dia. Delmiro Gouveia tem menos de dez leitos de UTI com máquinas de ventilação mecânica. Estamos demandando ao IC, que os kits de proteção individual também contemplem lotes para os hospitais de Delmiro Gouveia e Santana do Ipanema”, reforçou.

O professor Demetrius Pereira Morilla, do Ifal – Campus Maceió, explicou que na Ufal há estrutura de trabalho e logística montada e bem funcional, o que facilitou a participação de voluntários envolvendo alunos, professores e pessoas da sociedade civil com conhecimento em química.

Parceria entre Ufal e Ifal para produção de álcool 70% (Foto: Assessoria)

“O que também torna a ação mais concreta, é o aporte de empresas do seguimento sucroalcooleiro, de plásticos e materiais de limpeza, fornecendo os insumos necessários à realização dessa ação comprometida com o bem maior que é a população alagoana”, informou o professor Demetrius, acrescentando que tal estrutura e organização foi o que motivou os docentes do Ifal a colaborarem.

O professor Luís Carlos Ferreira de Oliveira, do Campus Marechal Deodoro, salientou que houve uma visita ao IQB, e após o grupo não hesitou em se somar à Ufal na produção que já estava em andamento. “Por acreditar que a universidade estava precisando de mais pessoas para integrar a equipe, concluímos que, neste momento, ajudar na força-tarefa seria a melhor maneira de termos um trabalho otimizado e de maior escala”, relatou.

Álcool em gel produzido já no primeiro dia de trabalho

Ao todo, a equipe do Ifal envolvida soma 11 docentes das unidades de Maceió, Marechal Deodoro, Murici e Penedo. Além da mão de obra qualificada, o Ifal vai colaborar com insumos e equipamentos disponibilizados pelos campi. A parceria oficializada com o apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do Ifal (PRPPI) inclui também veículo à disposição dos professores envolvidos, a possibilidade de uso de laboratórios do Ifal para a realização de testes de qualidade dos itens produzidos e a busca de parcerias com empresas alagoanas para a aquisição de mais materiais e serviços necessários.

Oito dos 11 professores envolvidos na força-tarefa (Foto: Assessoria)

“São duas instituições públicas de ensino e de produção de conhecimento científico unidas com o mesmo objetivo e o impacto positivo dessa união é, sem dúvida, muito maior do que se estivessem trabalhando em prol de uma mesma causa, porém separadas”, concluiu a pró-reitora Eunice Palmeira, ressaltando também como um dos benefícios dessa parceria a interação multicampi dos servidores do Ifal.

 

Ventilador pulmonar

Respirador mecânico é desenvolvido para casos de Covid-19

 

Enquanto a explosiva demanda por respiradores mecânicos – equipamentos utilizados no tratamento de casos mais severos de Covid-19 vêm provocando crises diplomáticas mundo afora, em Alagoas um grupo de pesquisadores busca apoio para produzir o experimento em larga escala de um modelo mais eficaz e acessível da máquina.

Respiral promete acompanhar com mais precisão o estado do paciente (Foto: Divulgação)

O protótipo está recebendo os últimos ajustes antes da primeira validação. “Estimo que até a próxima sexta-feira (10) a máquina esteja pronta”, prevê o matemático Rodrigo Santos, um dos proponentes do projeto.

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) já sinalizou interesse em conhecer a iniciativa batizada de Respiral. “Estamos de portas abertas e à disposição para todos que de alguma forma queiram ajudar nesse momento tão crítico”, assegura o médico Marcos Ramalho, secretário-executivo de Ações de Saúde da Sesau. “Essas iniciativas são a prova da solidariedade humana. Elas são importantes porque, além de ajudar nesse cenário tão difícil, promovem o desenvolvimento científico. Promovem a busca por novas alternativas”, complementou o gestor.

Em mais um bom exemplo de contribuição voluntária, Rodrigo aliou seus conhecimentos de eletrônica com a expertise em engenharia de produção do professor Edson Camilo de Moraes, do Instituto Federal de Alagoas (Ifal). Após pesquisar sobre respiradores e ouvir especialistas em infectologia e fisioterapia – que, em geral, é o profissional responsável por entubar os pacientes –, a dupla reuniu uma equipe multidisciplinar (programadores, engenheiros e estudiosos de áreas afins) para materializar uma ideia que pode salvar muitas vidas.

Baixo custo, alta funcionalidade

O grupo formado por sete pessoas começou os trabalhos há uma semana, em turnos diários, no laboratório montado na casa do próprio Rodrigo Santos. O financiamento inicial veio dos idealizadores, que estimam um custo final para o equipamento em torno de R$ 5 mil. “Dez vezes mais barato que o vendido no mercado”, aponta o inventor, que chegou a hospedar integrantes da equipe em sua casa para continuar com os testes.

Apesar de um pouco mais caro que o respirador recentemente desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), o projeto alagoano é mais completo, apresenta mais parâmetros de funcionalidade e pode se tornar ainda mais barato caso receba apoio na forma de doação de insumos e utilização de maquinário, como uma fresadora 3D, utilizada para a fabricação de peças e componentes.

Diferentemente dos modelos mais simples de respiradores utilizados no Brasil, o Respiral promete acompanhar com mais precisão o estado do paciente. “Temos inovações no modelo mecânico e na programação eletrônica. O nosso tem mais parâmetros, com um controle maior de variáveis como pressão, volume e quantidade de oxigênio”, exemplifica Ícaro Santos Ferreira, formando em engenharia mecatrônica e integrante da equipe.

Uma vez pronto, o experimento será encaminhado para validação pela MaceioTech, empresa alagoana especializada em testes e manutenção de equipamentos hospitalares, e também parceira do Respiral. Em seguida, será necessária aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e de outros órgãos.

Enquanto aguarda a liberação final, o projeto do ventilador pulmonar será apresentado à Sesau e a outras empresas e instituições, como a Braskem e o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). “Eles possuem maquinário e insumos para a fabricação em série do respirador”, garante Rodrigo. Quantos poderão ser produzidos por dia? A resposta depende de mais apoio e mobilização voluntária, seja da esfera pública ou da iniciativa privada.

AMPLIANDO POSSIBILIDADES

O Sebrae Alagoas também emprestou quatro impressoras 3D para reforçar o trabalho dos pesquisadores da Ufal na produção de protetores faciais. Os equipamentos cedidos foram instalados no Laboratório de Computação Científica e Visualização (LCCV) da Universidade.

Mas por causa da limitação de produtividade de cada máquina, as equipes do LCCV e do Laboratório de Fabricação Digital (FabLab) da Ufal estão convocando proprietários de impressoras 3D para ajudar nessa tarefa.

Quanto mais impressoras trabalhando com o mesmo objetivo, mais rápido o material vai chegar aos profissionais de saúde que estão na linha de frente no combate ao coronavírus. A ajuda na produção será feita onde as impressoras já estão localizadas, seguindo as instruções dos pesquisadores da Ufal.

Quem tiver a máquina e quiser ajudar, deve entrar em contato por meio do telefone (82) 99323-1945.

Pesquisadores da Ufal vão ajudar na realização de testes 

 

Testagem e isolamento da pessoa com resultado positivo para Covid-19, conforme orientações dos órgãos de Saúde, são medidas essenciais para conter a proliferação da doença. Em mais uma iniciativa da Ufal nas ações de enfrentamento da pandemia em Alagoas, pesquisadores da Universidade ajudarão o Laboratório Central (Lacen) do Estado nas análises dos testes de diagnóstico do novo coronavírus.

Expectativa é realizar, no início das atividades, até 200 exames por dia (Foto: Ascom)

O coordenador do Laboratório de Inovação Farmacológica (Laif) e um dos voluntários, professor Marcelo Duzzioni, disse que a expectativa é que possam realizar, no início das atividades, até 200 exames por dia. Ele frisou que a Ufal colocou disponível alguns equipamentos, a exemplo do Real Time PCR e uma centrífuga refrigerada, necessários para a realização dos testes da covid-19.

Ainda conforme o professor, está auxiliando na busca por kits de detecção por PCR, cada vez mais escassos no mercado. Ele informou nesta segunda-feira (13), que está no aguardo das certificações dos equipamentos e do laboratório para iniciar as análises.

REDUZIR ESPERA

Marcelo Duzzioni explicou que, por iniciativa própria, alguns professores da Ufal entraram em contato com o Laboratório Central e com outros órgãos do Governo de Alagoas para informar que estavam disponíveis para ajudar.

Ele relata que, após esse primeiro contato, foi organizado um grupo de trabalho, composto por servidores da instituição (docentes e técnicos), da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) e do Lacen, que passou a discutir ações que poderiam auxiliar na realização dos exames.

“Por meio de uma ação direta do reitor Josealdo Tonholo, foi colocado em contato todas as pessoas interessadas em ajudar o Estado. Desde então, a Ufal vem colocando à disposição do governo estadual seu patrimônio intelectual, servidores altamente qualificados e material, entre equipamentos e insumos”, salienta Duzzioni.

A parceria com o Lacen, ressalta o pesquisador, ajudará o Estado a agilizar os exames, entregando mais resultados e diminuindo a espera pelo diagnóstico. “Juntos, vamos buscar soluções para o enfrentamento do novo coronavírus, em especial nos testes das amostras de pacientes com suspeitas da doença”, afirma o professor.

 

Fonte: Tribuna Hoje / Ana Paula Omena

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