Tecnologia

6 de setembro de 2019 15:22

Entregadores da Rappi reclamam de prejuízos com o aplicativo

Insatisfação gira em torno das políticas cancelamento de pedidos e de pagamento em dinheiro, além do valor recebido pelas corridas

↑ Entregador da Rappi relata problemas para lidar com o aplicativo (Foto: Louise Rodrigues / TechTudo)

Aplicativos de delivery são práticos para consumidores, rentáveis para empresas e geram empregos para entregadores. Porém, a relação de trabalho por trás da tela do celular pode gerar polêmicas. É o caso da Rappi, que tem recebido reclamações de motoboys por conta de suas políticas de cancelamento de pedidos, diretrizes de pagamentos recebidos em dinheiro e valores repassados por corrida.

Samuel Reis é um dos insatisfeitos com a maneira como a Rappi lida com os entregadores. Ele trabalha há 5 meses como motoboy para o aplicativo. Sai de casa bem cedo e retorna só de noite, em uma rotina intensa de corridas, engarrafamentos e os riscos naturais de trabalhar na rua. “Tudo que desejo é que tenha muitos pedidos e nenhum cancelamento. Porque vou para ganhar dinheiro, nem que seja pouco. Não para ter dor de cabeça resolvendo problemas que não criei”, diz antes de ir para o trabalho.

Como funciona o app Rappi Entregadores

Disponível apenas para Android, o aplicativo exige que o interessado seja maior de idade e se cadastre, informando dados pessoais, validando a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e escolhendo a área de entrega para começar a trabalhar. Também é possível fazer o próprio horário de trabalho.

A Rappi divide seu serviço em quatro diferentes níveis de entrega, que depende do número de corridas. No nível um, ele apenas recebe, entrega e cobra. Os pagamentos são feitos apenas via cartão de crédito ou PayPal. Após 10 corridas, é obrigatório ir ao centro de atendimento da Rappi para retirar um cartão pré-pago, que deverá ser utilizado nas entregas do nível dois, em que apenas os estabelecimentos se ampliam. Agora, ele também poderá fazer entregas de farmácia.

No terceiro nível, o entregador passa a aceitar outros métodos de pagamento. Além de cartão de crédito e Paypal, começa a valer cartão de débito e dinheiro. E, além disso, pode realizar entregas de qualquer categoria. Nesse nível, o cliente paga ao motoboy o valor total do pedido. Depois de 149 corridas, o entregador chega ao quarto e último nível. Nele, poderá fazer qualquer atividade, aumentar a diversidade de estabelecimentos e trabalhar com serviços como RappiCash, que funciona como um delivery de caixa eletrônico.

Cancelamento de pedidos

A Rappi permite que um usuário cancele seu pedido, mesmo após confirmado. Porém, segundo Samuel, muitas vezes o prejuízo é do motoboy. “O estabelecimento não aceita os produtos de volta. Quando os motoqueiros já saíram para a entrega, não ganham pela corrida e nem pelo tempo pedido. Ou seja, além de não ter recebido o pagamento, de ter gastado gasolina e perdido tempo, ainda temos que ir na Central”, reclama.

As centrais físicas de atendimento aos entregadores da Rappi estão espalhadas por diversas cidades para que possam resolver problemas pessoalmente, caso achem necessário. Ao TechTudo, a empresa afirmou, por meio de nota, que “já estuda expandir o número desses centros de forma a aprimorar o atendimento aos entregadores parceiros”.

Samuel afirma que, em Fortaleza, onde reside e trabalha, a espera é de cerca uma hora a meia a duas horas para que o motoboy receba atendimento e devolva os produtos. Outra opção, é arcar com o prejuízo e pagar do próprio bolso por algo que não comprou, coisa que Samuel nunca faz.

Mas há quem prefira não ir até à Central na esperança de continuar pegando corridas com valores não muito baixos. “Às vezes um cliente cancela uma pizza ou açaí, por exemplo. Não seria tão ruim comer e pagar, mas dificilmente a gente compra uma coisa dessas sem querer. Afinal estamos na rua, passando por tudo isso, para ganhar dinheiro, ajudar em casa, pagar as contas. E não para ficar comprando coisas a toa e que não desejamos no momento”, completa.

A Rappi não comentou sobre a demora nos centros de atendimento. A respeito dos prejuízos financeiros dos motoboys, a empresa também não se manifestou.

Pagamento em dinheiro

Outro problema apontado pelo motoboy na relação com a Rappi é a maneira como o app lida com corridas pagas em dinheiro. Isso porque, segundo ele, após receber, o entregador precisa depositar o valor para a Rappi. Enquanto não for feito, está bloqueados de novas corridas. “A Rappi tem razão, afinal, o cliente pagou e esse valor precisa ser repassado. Mas, quando este bloqueio acontece num domingo, toda a expectativa de trabalhar no dia/noite se torna frustrante. Como o motoqueiro vai fazer o depósito de acerto com a Rappi se as lotéricas e bancos estão fechados?”, questiona.

Diante disso, Samuel conta que não trabalha no app aos domingos e feriados para evitar problemas. “Mas tenho colegas que já passaram por isso, sendo que alguns só prestam serviço de entrega pela Rappi”, complementa.

A Rappi confirma que os entregadores precisam depositar o valor recebido em dinheiro, mas pondera sobre o bloqueio dos motoboys na plataforma. “Para não atrapalhar a dinâmica desses profissionais, esse depósito não precisa ser feito após cada entrega. A Rappi estabelece um valor máximo de dinheiro que cada entregador pode ter em mãos, que varia conforme o tempo de cadastro dele na plataforma”, afirmou em nota. Perguntada sobre como fica esse acordo aos domingos e feriados, a empresa não respondeu.

Problemas de comunicação

Samuel argumenta ainda que a comunicação com a Rappi não é satisfatória. “É um aplicativo que vive dando erros, apesar de todas as atualizações semanais. Nunca respondem uma dúvida direito, parecem respostas programadas”, avalia.

Sobre a declaração, a Rappi apenas confirmou que, além das centrais físicas de atendimento, há outra opção disponibilizada para entregadores que tiverem necessidade. “Em casos de problemas com a plataforma ou durante uma entrega, a empresa oferece um chat para que estes profissionais se comuniquem com o suporte, em tempo real, e reportem o fato”, declarou em nota. O TechTudo perguntou também a respeito das acusações de respostas automáticas, citadas por Samuel. A empresa, porém, não deu retorno.

Tarifas e corridas

O valor recebido por algumas corridas também não agrada o entregador. Ele revela que não aceita solicitações com valor muito baixo, assim como outros colegas. Essa é uma vantagem do app, que dá flexibilidade para que o motoboy escolha. “A Rappi é a pior empresa para se ter parceria. Muitos de nós aceitamos por falta de opção ou necessidade de ganhar uns trocados. Pois pense em tarifas baixas e muitas corridas que quase não pagam nem o gasto da moto por quilometragem”, lamenta.

Para explicar seu lado, ele usa como exemplo uma entrega de R$ 9. “O entregador vai sair do local onde está parado, se desloca, por exemplo, de 1 a 8 Km para chegar ao estabelecimento e espera de 5 a 40 minutos pelo produto. Aí segue para a entrega, que muitas vezes não aparece corretamente no app porque existe mudança de tráfego, reparo de vias, transito, etc. Outra pessoa pode dizer que R$ 9 está bom porque dá 2 litros de gasolina. Mas gasto da moto não é só gasolina. Isso sem falar do tempo de espera, todo tempo perdido é inútil”, justifica.

A Rappi explicou ao TechTudo como funciona o pagamento dos motoboys. “Para cada entrega realizada, os entregadores recebem um valor específico, que varia de acordo com o clima, dia da semana, horário, distância percorrida e complexidade do pedido. Além disso, a Rappi possibilita que os clientes deem gorjeta aos entregadores por meio do aplicativo. Porém, isso fica a critério de cada consumidor”, revelou em nota.

O que mais diz a Rappi

Ao TechTudo a Rappi também comentou sobre a relação trabalhista entre a empresa e os entregadores. Leia a nota:

A Rappi é um superaplicativo que oferece diferentes produtos e serviços por meio da intermediação entre estabelecimentos comerciais, a indústria, os clientes finais e entregadores parceiros. Em regra, os valores dos produtos disponíveis no aplicativo são estipulados pelo estabelecimento comercial. Os consumidores, além do valor do produto, pagam o frete da entrega, que é repassado ao entregador parceiro. Como um plataforma de intermediação, oferecemos às pessoas a oportunidade de ganhar uma renda extra ao fazer entregas por meio da Rappi. Os entregadores parceiros, são profissionais autônomos que encontram no aplicativo a oportunidade de ter uma renda extra e, assim, conquistar sonhos pessoais e profissionais. A flexibilidade permite que esses profissionais usem a plataforma da maneira que quiserem e de acordo com suas necessidades, se conectando e desconectando quando quiserem. Portanto, não há relação de subordinação, exclusividade ou cumprimento de cargas horárias. A Rappi reforça ainda que está constantemente buscando melhorar seus processos para aprimorar a experiência dos seus usuários, sejam eles entregadores parceiros ou clientes finais.

Fonte: Tech Tudo / Texto: Louise Rodrigues

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