Saúde
Pesquisa aponta que 45% dos brasileiros consomem ultraprocessados e já tentaram reduzir ingestão; nutróloga orienta
Levantamento nacional divulgado pelo INCA em setembro de 2026 ouviu mais de 6,5 mil adultos; Eline Soriano explica como identificar produtos
Quase metade dos brasileiros entrevistados em uma pesquisa nacional consome alimentos ultraprocessados e já tentou reduzir a ingestão desses produtos. O levantamento, divulgado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) em setembro de 2026, ouviu 6.566 adultos e identificou que aproximadamente 45% relataram esse comportamento. Os resultados chamam atenção para a presença desses alimentos na rotina e para as dificuldades de modificar hábitos alimentares, mesmo entre pessoas que já buscaram diminuir o consumo.
Entre os jovens de até 24 anos, 32,3% afirmaram consumir ultraprocessados sem intenção de reduzir a ingestão. Os dados ampliam a discussão sobre a influência da oferta desses produtos, da publicidade e das informações presentes nas embalagens, especialmente quando alimentos industrializados são apresentados como alternativas saudáveis.
O cenário também aparece na oferta de alimentos no país. Um levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde em outubro de 2025 mostrou que 62% dos cerca de 39 mil alimentos e bebidas embalados lançados no mercado brasileiro entre novembro de 2020 e novembro de 2024 eram ultraprocessados, enquanto apenas 18,4% foram classificados como in natura ou minimamente processados. A presença expressiva desses produtos entre os lançamentos amplia a discussão sobre escolhas alimentares, especialmente diante das evidências que associam seu consumo frequente a maior risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
A médica nutróloga Eline Soriano explica que expressões como “rico em proteínas”, “integral” e “fonte de vitaminas” podem destacar características nutricionais específicas sem representar a qualidade global de um produto. Por isso, a avaliação não deve se limitar às informações exibidas na parte frontal da embalagem.
“Um alimento pode apresentar uma quantidade elevada de proteínas ou receber adição de vitaminas e, ainda assim, conter ingredientes característicos de ultraprocessados. Essas informações não devem ser analisadas isoladamente. É preciso observar a composição completa e entender como aquele produto se encaixa na alimentação diária”, explica Eline.
Riscos à saúde - O consumo frequente de ultraprocessados está associado a maior risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Muitos desses alimentos apresentam elevada densidade energética e quantidades expressivas de açúcares adicionados, sódio ou gorduras saturadas, embora a composição nutricional varie entre os produtos.
Segundo a nutróloga, uma das preocupações é a substituição frequente de refeições preparadas com alimentos in natura ou minimamente processados por opções industrializadas de consumo rápido. “Quando esses produtos passam a ocupar grande parte da alimentação, podem contribuir para uma ingestão excessiva de calorias e para uma dieta menos equilibrada. Dependendo da composição e da frequência de consumo, isso pode favorecer o ganho de gordura corporal e alterações metabólicas. O risco não depende de um alimento isolado, mas do padrão alimentar mantido ao longo do tempo”, afirma.
Atenção aos rótulos - Para identificar ultraprocessados, Eline orienta observar a lista de ingredientes, que aparece em ordem decrescente de quantidade, e verificar a presença de substâncias pouco utilizadas em preparações caseiras, como determinados aromatizantes, emulsificantes e outros aditivos industriais.
A rotulagem nutricional frontal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), identificada pelo símbolo de lupa, também auxilia o consumidor a reconhecer produtos com alto teor de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio. A ausência desse alerta, porém, não significa necessariamente que o alimento seja minimamente processado ou adequado para consumo frequente.
“Não se trata de proibir todos os produtos industrializados ou transformar a alimentação em uma lista de restrições. O consumidor precisa compreender o que está comprando e evitar que uma promessa nutricional determine sua escolha. Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e avaliar a frequência de consumo são medidas que ajudam a construir uma rotina alimentar mais equilibrada”, conclui Eline Soriano.
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