Saúde

30 de outubro de 2020 09:19

Após longa espera, mulheres desistem de reconstrução mamária

Cirurgia é importante para autoimagem e superação do câncer de mama; programa do governo traz esperança

↑ “Esperamos realmente que se torne uma rotina no nosso estado”, diz Naydja Reis sobre o programa (Foto: Reprodução)

Superar um câncer de mama muitas vezes vai além de se livrar da doença. Para a maioria das mulheres que passam por isso, há questões como as consequências que o tratamento deixou no corpo e na saúde mental. A reconstrução mamária tem um papel fundamental nesse processo, e por isso é um direito garantido na lei desde 2013.

De acordo com a presidente da ONG Mama Renascer, Naydja Reis, o tempo de espera para conseguir uma cirurgia como esta pelo SUS chega a 10 anos, e isso faz com que muitas mulheres desistam.

“Tem uma das nossas associadas que passou 10 anos esperando. E hoje ela é outra pessoa. Muito mais feliz, conseguiu perder peso, a autoestima lá em cima, o relacionamento conjugal melhora. Então há uma diferença muito grande, é de suma importância a reconstrução mamária”.

A ONG Mama Renascer presta apoio a mulheres que sofrem ou sofreram com o câncer de mama. Segundo a presidente da entidade, “toda mulher que faz a mastectomia tem o sonho de ter a mama reconstruída, às vezes não é possível, mas ela tendo essa possibilidade dada pelo seu tratamento, pelo seu prognóstico, ela quer muito fazer. É um sonho. Algumas têm o privilégio de quando acordar já terem feito, mas isso só acontece nos planos. No SUS não acontece”.

Na programação do outubro rosa, mês de conscientização contra o câncer de mama, o Governo de Alagoas anunciou um novo programa que vai realizar a reconstrução mamária das mulheres. Naydja comemora. “A gente já vinha pleiteando desde 2013, em nível estadual e municipal. E graças a Deus semana passada foi o lançamento. Esperamos que isso não seja só nesse período, mas que realmente se torne uma política pública efetiva e se torne uma rotina no nosso Estado.”

Ela afirma que mesmo sendo um direito, o Estado de alagoas não tinha isso como prática. “Não tornaram essa lei possível ao paciente e é preciso muitas vezes a judicialização para conseguir. Ou mutirões que se fizeram ao longo desses anos e que resultaram muitas vezes em cirurgias que não corresponderam à necessidade da paciente. Aqui a gente tem um número ínfimo de reconstrução mamária realizada, duas ou três reconstruções mamárias por ano”.

Renata Cavalcante é psicóloga do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (Hupaa) e atual no setor de oncologia. Ela explica que o acompanhamento psicológico é um direito oferecido a todas as pacientes, mas muitas não aceitam. “O acompanhamento da psicologia precisa da adesão do paciente, a gente não pode obrigar”.

A necessidade do tratamento psicológico vai ficando mais clara com o decorrer do tratamento. “Muitas começam a apresentar sintomas de ansiedade, depressão, não é só o paciente com diagnóstico, a família também é nossa paciente. O câncer de mama tem uma repercussão sobre a autoimagem muito grande, não só a retirada da mama, mas a perda do cabelo, tudo isso tem um poder muito forte sobre a autoimagem feminina”.

“Com o seio de volta, passei a me sentir igual às outras”

 

Eliane Bezerra viveu todo esse processo. Após fazer a mastectomia, há 14 anos, esperou por 6 anos até ter a oportunidade de reconstrução durante um mutirão do Governo. “Eu não pensei duas vezes, queria fazer, queria ter meu seio de volta”.

Ela lembra que durante todo o tempo de espera, não conseguiu ficar à vontade com o próprio corpo. “Eu me sentia diferente de todas as outras pessoas, me sentia uma coitadinha. Estava sempre me escondendo, até porque tinha algumas coisas que eu não podia fazer. Então, quando saia pra algum lugar, algumas coisas não podia fazer e eu já me sentia diferente, com medo que as pessoas não entendessem. Acho que aquilo nunca ia passar se eu não tivesse feito a reconstrução, ia continuar me sentindo a coitadinha. Mas depois que aconteceu a reconstrução, me senti outra pessoa, passei a me sentir igual as outras”.

O resultado não foi perfeito, mas transformou a vida de Eliane. “Hoje eu me sinto feliz, desde o momento que foi feita a reconstrução. Muito feliz! Eu não podia nem me olhar. Quando ia sair era aquele medo de esquecer o peito em algum lugar, perder. Eu não deixava que ninguém me visse”.

Hoje, depois de 8 anos e seis meses, ela vê no novo programa do governo uma esperança de refazer o processo. “O defeito existe, a simetria não tá igual, o peito não tá mais o mesmo do início. Tá com uma diferença, tem tipo umas ondinhas que são visíveis na pele. Dei o meu nome para fazer uma triagem e ver se eles reparam, e ver o que podem fazer por mim”.

Pela experiência no HU, a psicóloga Renata Cavalcante constata que algumas têm medo. “Por todo o sofrimento que elas passam, muitas escolhem não reconstruir. Porque ela acha que vai ser um novo processo cirúrgico, vai ser mais um sofrimento. Para as mais jovens essa questão da reconstrução é algo muito mais forte do que para as mais idosas”.

Mesmo nos casos que decidem fazer a cirurgia, a profissional trabalha as paciente. “A reconstrução tem que partir do desejo da paciente, e isso vai ser trabalhado com ela. A gente recomenda que elas passem por um processo de acompanhamento psicológico, principalmente porque a mama nunca vai ficar igual, fazer o trabalho de reconhecer o novo corpo”.

Ela admite que apesar das dificuldades, o processo tem saldo positivo. “Sim, tem um impacto psicológico emocional muito grande na questão de reconstrução da autoimagem, conseguem usar roupas que antes não conseguiam usar, há um resgate muito importante”.

A psicóloga alerta que as questões emocionais são muito importantes nesta situação. “Esse é um processo que vai além do corpo, envolve também questões emocionais importantes. É um processo de aceitação que o câncer faz parte da história delas, mas que não as define. Não foi uma escolha, é difícil passar por tudo isso, mas não pode defini-las enquanto ser humano, nem definir a própria existência”.

De acordo com o site da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), o Programa Ame-se foi lançado pelo governador Renan Filho no último dia 23 e tem como objetivo assegurar a reconstrução dos seios de mulheres acometidas pelo câncer e que passaram por extração total ou parcial de uma ou das duas mamas. A proposta é zerar a fila de espera por operações de reconstrução da mama e rastrear o câncer de mama em todo o Estado. A reconstrução acontece nas mulheres que já estão na fila de espera para cirurgia e o rastreamento da doença deve ser realizado com a maior oferta dos exames de mamografia nas mulheres a partir dos 40 anos, buscando assim, o diagnóstico precoce.

Fonte: Tribuna Independente / Emanuelle Vanderlei

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