Saúde

22 de setembro de 2020 09:03

Escuta é a principal aliada da prevenção ao suicídio, dizem especialistas

Assunto ainda envolve uma série de tabus

↑ Reprodução

Um assunto que envolve uma série de tabus, a prevenção ao suicídio deve incluir a escuta e o diálogo como aliados na prevenção. Há 17 anos, o mês de setembro é dedicado ao combate ao suicídio em todo o mundo. Para especialistas ouvidos pela Tribuna Independente, o apoio e o olhar mais atentos podem fazer a diferença.

No Brasil, em apoio à iniciativa, o período do Setembro Amarelo tem sido marcado pela ampliação dos debates sobre a prevenção do suicídio no país. A campanha, que ganha força neste mês, foi criada em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria.

A residente em psiquiatria Tainá Carvalho esclarece que a prevenção envolve diversos aspectos, incluindo o diálogo.

“A prevenção do suicídio engloba sobretudo oferecer um espaço de escuta para o sujeito. Que se dá tanto por meio da rede de atenção psicossocial acessível que ofereça um atendimento multiprofissional, como também em ambientes na escola, unidades básicas de saúde, os quais são relevantes para que se possa criar uma lógica da percepção e do cuidado, em vez do estigma, julgamento. Sobretudo, falar de prevenção também significa falar de fortalecer os fatores de proteção à vida daquele indivíduo. Que pode ser simbolizado, de acordo com cada um, na família, na espiritualidade/religiosidade (caso tenha), nos vínculos da comunidade, ou seja, na busca de um sentido de vida”, enfatiza.

Segundo a médica, mais de 95% dos casos de tentativa de suicídio está relacionado a um transtorno mental de base. Estando como principal o transtorno depressivo. Porém, a relação não é obrigatória. Além disso, é preciso deixar de lado os tabus e estigmas sobre o assunto. “Existe sim o tabu. O mesmo vem também do receio da temática. É comum, por exemplo, que ao se ouvir frases como “Queria que Deus me levasse”, “Queria sumir pelo mundo”, “Só a morte para mim vale a pena”, alguns respondam a isso simplesmente dizendo “Pare de colocar isso na cabeça”. Então, isso poderá aumentar a culpa e silenciar o indivíduo. Quando, na verdade, o simples ouvir e oferecer o apoio possível (“Estou aqui para te ouvir”) seria mais relevante no momento”, ressalta.

Para o psicólogo clínico Edberto Lessa, é importante “estar presente” mesmo em casos onde não tenha ocorrido nada concreto. “O processo de escuta é importante porque serve para deixar atento. Mesmo que não tenha acontecido nada, é importante estar presente para que a pessoa fale coisas que normalmente não falaria. Geralmente é um turbilhão de situações e fatores que motivam alguém a tentar o suicídio, é importante ficar atento aos mínimos detalhes, porque são sinais, têm fatores sociais, econômicos, espirituais, várias situações que fazem com que alguém tome uma iniciativa. Às vezes a tentativa se repete, e é preciso ter alguém por perto, chegar junto, mostrar que está presente. A escuta é muito importante”, acrescenta.

Lessa pontua ainda que o momento atual de pandemia tornou o tema ainda mais sensível e necessário de ser debatido e de conscientização. “Dois assuntos que a pandemia tornou ainda mais evidente foram a ansiedade e a depressão, alguém que tinha algo isolado, sintomas leves, aumentou muito, potencializou. No meu dia-a-dia do atendimento clínico percebo com muita intensidade. Consequentemente, a depressão tem as situações extremas. Não significa dizer que foi só a pandemia, mas esse fator de isolamento, de desemprego, de conflito social, foi agravado e até o fato da doença em si, do pavor da morte, todos os fatores precisam ser considerados”.

Os sinais, na maioria dos casos são possíveis de ser identificados e o especialista reforça que há saída e onde buscar ajuda. “Na convivência diária é possível perceber que alguém não está bem. Por isso é importante a família estender a mão, orientar e ajudar… Na pandemia, se a relação da pessoa com o mundo não estiver legal é possível que isso tenha se agravado, mas o fundamental em todos os casos é que a pessoa saiba que existe saída, que é possível vencer uma fase ruim, um momento difícil, que há chances”, finaliza.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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