Saúde

6 de junho de 2020 09:04

Curados de Covid-19 falam sobre a doença

Alagoanos contam como superaram as dificuldades e reforçam a necessidade das medidas de precaução e isolamento social

↑ Aracy durante alta hospitalar; ela ficou 15 dias internada por conta do Covid-19, cinco deles intubada (Foto: Arquivo pessoal)

Aracy Pereira de Castro Mendes. Helenildo Ribeiro Neto. Alcir Bezerra de Lucena. Ana Paula Oliveira Costa. Quatro pessoas dentre as mais de oito mil em Alagoas que já se recuperaram do novo coronavírus. Elas viraram estatísticas positivas. São algumas de tantas histórias decorrentes da pandemia. Elas relatam o medo, as incertezas e como é ser acometido pela doença.

Aracy, 59 anos, sem nenhum histórico de doença

Começou a sentir os sintomas por volta do dia 20 de abril. Sentiu febre, cansaço e só após uma semana dos primeiros sintomas percebeu que havia algo de errado. Foi internada no dia 28 de abril num hospital particular de Maceió. Foi quando recebeu a notícia que precisava ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido ao comprometimento dos pulmões.

Ela conta que “dormiu” em um hospital e quando acordou já estava em outro, onde passou cinco dias intubada. Ao todo, foram mais de quinze dias entre a internação e a alta hospitalar.

“Nunca esperei que fosse chegar como chegou. Pensei que iam me deixar na UTI para melhorar um pouco o aspecto, até hoje não sei qual a real situação do meu pulmão, mas disseram que ficou muito grave. Isso em uma semana e meia, não tive medo porque aconteceu algo comigo e eu fui sedada e quando acordei já estava na Santa Casa e passei quase cinco dias intubada. Eu sabia que ia para a UTI, mas não sabia que estava intubada, não entrei em desespero. A ficha só começou a cair quando eu cheguei em casa, que comecei a pensar em tudo que deixaria de fazer, comecei a entrar num processo muito complicado de chorar, de uma série de coisas, eu não cheguei a ter medo, porque via muita gente se recuperando, confiava que os médicos iam cuidar de mim, que ia voltar logo para casa. Mas esse processo todo durou mais de quinze dias”, detalha.

Recuperada, ela conta que precisou do apoio do marido para superar o medo logo após a saída da UTI. E ressalta que teve a oportunidade de se tratar e ter acompanhamento, mas faz um alerta para que as pessoas “se preservem” para que todos tenham chance de serem tratados também.

“Com muita propriedade eu digo, que as pessoas se cuidem, fiquem em casa. Essas saidinhas, tocou, pegou, o vírus está no ar. O que puder fazer para se isolar até o fim dessa pandemia deve fazer porque até quando eu estava saindo do hospital já estava tudo lotado, UTI cheias, apartamentos cheios, e agora estamos vendo o resultado, quem adoecer daqui por diante poderá correr sérios riscos de morte porque não vai ter atendimento, é continuar em casa, se preservando”, enfatiza.

Helenildo, 31 anos, adepto de prática esportiva e hábitos saudáveis, fora do “grupo de risco”

Os primeiros sintomas foram percebidos no dia 28 de abril. Febre, dor no corpo, perda de paladar e olfato. Com o passar dos dias a febre persistia e começou a surgir cansaço em qualquer tipo de esforço que realizava. A partir daí a doença se intensificou, Helenildo teve comprometimento de 50% da capacidade pulmonar, foi internado, passou dois dias na UTI, foram quinze dias no hospital.

“Como a febre não passava e o cansaço aumento fui com minha esposa a um hospital particular fazer alguns exames, entre eles uma tomografia. Na tomografia ficou constatado um comprometimento pulmonar de 50% em ambos os pulmões. Fui internado. Passei 15 dias no hospital me tratando. Nesse meio tempo tive uma piora considerável e passei 2 dias na UTI. Após esses 2 dias, minha saturação começou a voltar à níveis melhores e fui transferido novamente para o quarto. Continuei o tratamento com as medicações e exercícios pulmonares. E, com o passar dos dias, as taxas de infecção foram caindo e eu fui dependendo menos do uso de oxigênio. Quando completei 2 dias respirando sem auxílio, por conta própria, a taxa de infecção voltou a aumentar. Mas continuei o tratamento e após mais um dia, a taxa voltou ao normal e eu recebi alta hospitalar. Continuarei o tratamento em casa e terei que complementar  um mês de isolamento e repouso pela questão pulmonar e de imunidade”, conta.

Helenildo afirma que nunca imaginou que a doença pudesse afetá-lo dessa maneira. Ele comenta que sempre que pensava na doença temia pela família, pelo filho e pela mulher que está grávida.

Segundo ele, medo e tensão o acompanharam no enfrentamento da doença. “Inicialmente não tive medo. Mas quando precisei ser internado e comecei a ter falta de ar, confesso que tive. Pois em vários momentos fiquei sem conseguir respirar direito e me encontrava sozinho no quarto do hospital. Mas após dois dias, conseguimos que minha esposa ficasse comigo. E ela ficou me auxiliando sempre. A minha ida para a UTI foi o momento mais complicado, psicologicamente também.  Pois fazia de tudo para evitar qualquer esforço para não passar por aquilo novamente, para não sentir falta de ar. Então eu ficava muito tenso”, recorda.

Ele reforça a orientação que os órgãos de saúde vêm dando à população. “Que as pessoas realmente levem a sério. Essa doença não escolhe quem afetar. O risco é real e para todos. Não pensem nisso de ‘grupo de risco’. Eu tenho 31 anos, praticava exercícios físicos até iniciar o isolamento e mesmo assim fui para em uma UTI hospitalar. Todos devemos nos cuidar, seja por nós mesmos, seja pelos próximos a nós. O risco é real. Eu consegui sair e contar o que passei. Infelizmente muitos não tiveram a mesma chance”, salienta.

Ana Paula, 31 anos, técnica de enfermagem, “linha de frente” no combate à doença

Os sintomas de Ana Paula surgiram em meado de abril. Uma intensa dor de cabeça a acompanhou durante 14 dias. Os três primeiros, segundo ela, foram os piores. O medo de “piorar” segundo ela foi uma das piores sensações.

“Eu estava com sintomas, é uma sensação muito ruim, eu esperava que desse negativo. Fiquei em choque. A gente vê as notícias e fica muito assustado. É difícil aceitar logo de início. Comecei a sentir uma dor de cabeça muito forte, persistente, depois diarreia, dois dias de febre. Meus sintomas foram apenas esses, mas o medo que tinha era da falta de ar, mas não tive. Quando começaram os sintomas eu fui trabalhar e os sintomas persistiram, foi quando fui para a emergência, fiz o exame e fui afastada preventivamente por 14 dias. Fiquei assustada. Eu moro sozinha, então o meu medo foi ficar sozinha, tinha medo a noite de acontecer algo e não ter como pedir socorro, e ao mesmo tempo me sentia aliviada de não contaminar ninguém”, descreve a técnica de enfermagem.

Alcir, colaborador de um hospital, fora do grupo de risco

Com sintomas leves durante todo o período da doença, Alcir conta que o mais difícil foi superar o isolamento da família. Ele diz que chegou a cogitar internamento e que os fatores psicológicos e emocionais pesam durante a recuperação.

“Comecei com uma coceira na garganta, mas era algo comum, nos dias seguintes dor de cabeça, uma moleza no corpo, mas nada que me tirasse do eixo. Fiz uns exames, o teste e uma tomografia e o médico disse que era 99% de chance de estar. O médico fechou o diagnóstico e eu saí disposto a ficar interno, mas o médico disse que não era necessário, que internar me deixaria exposto a uma maior carga viral e acabar piorando meu quadro. O médico me convenceu a fazer o isolamento em casa. Fiquei no meu quarto, totalmente isolado, pela janela do quarto é que passava água, comida, enfim. Não cheguei a sentir sintomas mais fortes, não perdi olfato ou paladar, não senti falta de ar. Foi leve, graças a Deus, mas fiquei totalmente isolado. O fator psicológico é muito importante, o que mais pesou em mim e isso me emociona muito foi ter passado tanto tempo só ouvindo a voz dos meus filhos sem poder abraçar, sem poder falar. Isso para mim foi a pior coisa. O resto, os sintomas, graças a Deus eu consegui administrar, ouvia música, assistia, para não ‘pirar’. Eu me preocupava também em piorar, mas tive um contato com uma médica especialista que explicou que o pico dos sintomas ficava entre o 7º e o 9º dia, que se fosse para ter agravamento seria nesses dias. Tive alguns conhecidos no hospital que tiveram sintomas mais graves”, conta emocionado.

Alcir diz que o diagnóstico de Covid-19 o pegou de surpresa. “Não esperava adoecer. De forma alguma, eu sempre tinha cuidado, máscara direto, álcool gel, já tinha evitado o contato com o público. Eu não esperava nunca adoecer”, garante.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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