Saúde

4 de junho de 2020 08:39

Consumo de cigarro aumenta durante a pandemia

Para coordenadora de programa contra tabagismo, estresse emocional seria a causa

↑ Mudança de rotina faz com quer fumante consuma mais cigarro (Foto: Edilson Omena)

Um estudo nacional realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aponta que os brasileiros estão mais ansiosos, deprimidos, com uma renda menor e mais sedentários durante a pandemia. Os resultados foram coletados com um questionário pela internet entre 24 de abril e 8 de maio e participaram 44.062 pessoas. O estudo alerta que as pessoas passaram a consumir mais álcool e cigarro, e a se alimentar pior.

De acordo com o estudo, mais de 30% dos homens e 38% das mulheres passaram a fumar pelo menos mais 10 cigarros por dia. Metade da população continuou fumando a mesma quantidade diariamente. Os pesquisadores levaram em consideração as respostas dos mais de 44 mil brasileiros por meio de questionário online.

A amostra foi calibrada, por meio dos dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad, 2019) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O método é feito para obter a mesma distribuição por estado, sexo, faixa etária, raça/cor e grau de escolaridade da população brasileira.

Em Alagoas, ainda não há dados específicos sobre aumento do uso durante a pandemia, mas segundo Vetrucia Teixeira Costa, coordenadora do Programa de Controle do Tabagismo no Estado, pode ter ocorrido um aumento.

“Não há dados especificando a pandemia. Mas certamente as pessoas estão fumando mais devido ao contexto imposto pela doença, envolvendo o isolamento social, ansiedade no enfrentamento de algo totalmente desconhecido por todos, o nível de estresse emocional tende a agravar-se. É sabido que o tabagismo é uma doença e um fator de risco de aspecto comportamental. A nicotina, a substância do tabaco que causa dependência, é uma droga estimulante, daí as pessoas tendem a fumar mais para relaxar das tensões. E, baseados em assertivas da OMS e estudos realizados, presume-se que há uma incidência maior em usuários dos derivados do tabaco devido a várias doenças do tabaco relacionadas, causadas pelo uso destes produtos. Sendo neste momento a questão pulmonar mais vulnerável a riscos de contaminação pelo Covid-19’’, comenta Vetrucia.

No estado, o tratamento ao fumante é feito em grupo formado de 10 a 15 pessoas, coordenado por profissionais capacitados pelo Programa Estadual de Controle do Tabagismo, utilizando a metodologia cognitivo comportamental e apoio medicamentoso para os usuários que necessitarem. Devido a pandemia do coronavírus, para evitar aglomerações o acompanhamento aos usuários está sendo realizado individualmente ou via telefone e WhatsApp.

GASTOS

De 2019 a março de 2020, Alagoas gastou dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) em internações hospitalares na faixa de 30 a 69 anos de idade com doenças tabaco relacionadas (Neoplasias, Doenças dos Aparelhos Circulatórios e Respiratório) R$ 58.951.596,50, segundo a coordenadora. De acordo com a Vigitel, inquérito anual realizado pelo Ministério da Saúde (MS), no ano de 2018 Alagoas registrava 6.9% de fumantes acima de 18 anos e em 2019 5.5% de fumantes acima de 18 anos.

“Mudança de rotina pode afetar o comportamento”

 

Durante período de pandemia, pelo menos 75% dos brasileiros ficaram em casa. Em Alagoas, o índice estava em um pouco mais que 60% até a sexta-feira (29), segundo monitoramento inteligente do Governo do Estado, disponibilizado gratuitamente pela empresa In Loco. Com mais pessoas em casa, a mudança de rotina “quebrada”, pode ter afetado o sistema emocional e aumentado o consumo do fumo.

Mas, para o psicólogo Carlos Gonçalves, cada caso é um caso. Nem todas as pessoas que estão no isolamento passaram a fumar a partir de agora. Mas avalia que a mudança de rotina pode de fato ter feito aumentar significativamente o uso do cigarro pelos fumantes.

“Temos que saber quais foram os gatilhos, cada caso é um caso. Uma das grandes questões que o cigarro traz é que quando tocamos no assunto pensa na nicotina como substância psicoativa – porque estimula o sistema nervoso central, o que ocasiona dependência psicológica. O cigarro foi criado com esse reforço positivo com propaganda, mídia e cinema trazendo esse empoderamento. Eis que vivemos um tempo que menos pessoas estavam fumando. Mas durante a pandemia é possível que mais pessoas estejam fumando porque o cigarro nada mais é que um possibilitador de ocupação de vazio”, comenta Carlos Gonçalves.

O especialista explica que a maioria dos fumantes carrega um processo de ansiedade muito forte. “Nesse caso, ele vai sempre buscar no cigarro uma maneira de ficar mais tranquilo. O cigarro para eles traz esse pseudo-conforto. Mas sabemos que traz consequências, pois a dependência mais para frente pode causar algumas doenças. Porém, o fumante tem tanto prazer que ele não consegue abandonar o vício. É muito difícil porque quem fuma busca porque está com ansiedade e quando ele está em abstinência – ou seja no momento que ele não está fumando aumenta o cortisol que é ele ligado ao estresse, aumenta a vontade dele de ir fumar. Pessoas que nesse momento de isolamento, que as coisas estão fora de contexto, vão recorrer as suas dependências. Quem é fumante vai fumar, quem gosta de bebida alcoólica vai beber, quem é dependente de sexo vai querer fazer, quem é compulsivo em trabalhar vai buscar isso”, ressalta.

Fonte: Tribuna Independente / Lucas França

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