Saúde

13 de dezembro de 2019 10:00

‘Maioria dos casos de cegueira poderia ser evitável ou reversível’

Especialistas e deficiente visual falam sobre falta de informação na sociedade sobre o assunto

↑ Juliana Azevedo destaca que no Brasil muitas pessoas poderiam recuperar a visão e não sabem (Foto: Assessoria)

Esta sexta-feira, 13 de dezembro é o Dia Nacional do Cego. Segundo especialista, mais da metade dos casos poderiam ser evitados ou até reversíveis. Mas em muitos outros, é uma realidade definitiva. Mesmo ainda estando cercada de desinformação, conviver com essa deficiência está cada vez mais fácil por conta das descobertas tecnológicas.

De acordo com a oftalmologista Juliana Azevedo, no Brasil existem muitas pessoas que poderiam recuperar a visão e não sabem. “A maior causa de cegueira em idosos é a catarata. Ou seja, operou, está ‘curado’. Muitos idosos não vêm no médico por medo de operar e acreditam não ter mais solução. Quando se trata de uma causa reversível, conseguimos correr atrás do prejuízo”.

Outros casos que são irreversíveis poderiam ser evitados com uma boa prevenção. “Boa parte das doenças que levam a cegueira irreversível, tinham tratamento na forma inicial. De uma forma geral, é comum ao brasileiro só procurar ajuda médica quando a doença já está instalada. Fazer uma visita regular ao oftalmologista faz toda a diferença”.

Juliana explica ainda que mesmo as pessoas que já perderam a visão devem manter os cuidados com os olhos. “Existem várias acuidades visuais que entram no patamar de cegueira. Não é cego só aquele que não enxerga nem a luz. Visão de vultos, por exemplo, já é considerada cegueira. Mas ainda é melhor ver vultos do que sem percepção luminosa. Então mesmo quem é cego ainda pode evoluir com piora da perda visual e por isso o acompanhamento oftalmológico deve ser continuado. Mesmo que não tenha percepção luminosa deve manter o acompanhamento para não ter dores nos olhos, irritação ocular, olho vermelho e outras causas que além da cegueira, atrapalhariam mais ainda a qualidade de vida”.

A cegueira pode ter várias causas, mas de uma forma geral, a mais comum de cegueira reversível é a catarata e a de cegueira irreversível é o glaucoma. No caso das pessoas que já nascem com essa condição, as causas seriam catarata congênita, glaucoma congênito, opacidades de córnea, retinopatia da prematuridade, retinoblastoma, entre outras. “Por isso o correto é o teste do olhinho ser feito logo que nasce pelo pediatra na maternidade e com o oftalmologista a partir de 1 mês de vida. A partir daí, anualmente”, explica a médica.

Pessoas com deficiência podem levar uma vida normal como qualquer outra pessoa. A condição requer adaptações, mas está longe impor limites na vida de alguém.

“Às vezes criam conceito errado sobre nós”

 

Fabrícia Omena é jornalista. Ela e seu esposo Jean nasceram cegos. “A gente trabalha, estuda, passeia, faz tudo como uma pessoa normal que enxerga. Eu costumo dizer que a deficiência visual é só um detalhe porque a gente não vê, mas usa os outros sentidos. A tecnologia ajuda muito”, garante.

A maior dificuldade que ela encontra, é o preconceito que ainda existe. “Não que seja por maldade ou coisa assim, mas por desconhecimento. Algumas pessoas têm dificuldades e criam um conceito prévio e às vezes errado sobre nós. Por isso que eu costumo falar bastante sobre o assunto, já que cada vez que eu falo é uma oportunidade de não apenas ter visibilidade, mas também para mostrar que a cegueira não nos impede de levar uma vida normal”.

Sobre o relacionamento, ela garante que é igual a qualquer outro. “Ora estamos bem, ora discutimos, como qualquer casal. Mas o que nos diferencia é a nossa amizade. O fato de sermos amigos antes de sermos marido e mulher fortalece nossa relação”.

EDUCADORA

Trabalhando diretamente com esse público no ambiente pedagógico, a diretora do Centro Educacional Especializado Cyro Accioly, Jedalva Santos, investe no potencial desse público. “Essas pessoas têm muito potencial para mercado de trabalho, perspectiva de futuro. O mesmo que qualquer pessoa. Só precisam ter acesso a recursos tecnológicos e pedagógicos que deem condições”.

Jedalva explica que o trabalho realizado no centro é diferente das escolas tradicionais, porque atua de acordo com a competência de cada um. “Não tem determinação de conteúdos pelo MEC [Ministério da Educação]. Os alunos vão no contraturno da escola e estudam a parte específica para pessoas com deficiência visual com material pedagógico: braile com reglete, matemática com soroban”.

O casal Fabrícia e Jean leva uma vida normal apesar da deficiência (Foto: Acervo pessoal)

Eles também trabalham com dois projetos que duram o ano inteiro preparando os alunos para participar do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Entre os que tentaram, 80% conseguiram diplomas de ensino fundamental e médio, e os outros estão esperando o resultado do Enem.

“Um aluno nosso fez o concurso do Pilar e ficou em 1º lugar, concorrendo com todos os outros candidatos. Outra aluna ficou em 1º lugar em um concurso nacional de redação e está concorrendo internacionalmente”, relata a diretora.

Com preocupação, a educadora vê apenas as limitações que a ignorância pode apresentar. “Existe falta de conhecimento de como é a pessoa com deficiência visual e suas potencialidades. Por superproteção as famílias às vezes segregam as pessoas e não levam para escola, por exemplo. Na rua, as pessoas querem ajudar em excesso, fazer as coisas por eles. Isso não ajuda, não contribui. Eles têm autonomia, conhecimento. Ir e vir, pegar ônibus. Pessoas acham que eles não podem fazer isso. As pessoas precisam perceber que eles existem com potencial enorme para realizar trabalhos maravilhosos”.

Fonte: Tribuna Independente / Emanuelle Vanderlei

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