Saúde

5 de dezembro de 2019 08:24

Notícias falsas sobre vacinas põem em risco a saúde da população

Ministério da Saúde dispõe de canal para esclarecimentos de dúvidas

↑ Vacinação (Foto: Divulgação)

As “fake news”, informações falsas que circulam geralmente pelas redes sociais, também alcançam setores da saúde pública. Conteúdos como um suposto risco das vacinas ou a substituição do ácido fólico para gestantes são algumas das informações que recentemente vêm circulando no país. Para especialistas, tais informações põem em risco a população.

De acordo com o presidente da Sociedade Alagoana de Pediatria, João Lourival de Souza Junior, já faz parte da rotina em consultório esclarecer informações de pacientes “que ouviram falar” de algum tema de forma equivocada.

“A preocupação é para a população em geral, porque em se tratando e saúde, senão há uma evidência comprovada não se pode tornar isso como verdade. E quando você leva em consideração uma fake news, especificamente o caso da vacina, que vem sendo muito comum alguns grupos que surgiram, você expõe a criança e a população a doenças que estavam erradicadas há muito tempo. Isso torna pacientes muito mais vulneráveis a doenças, porque vacina é benefício, é caminho de proteção do indivíduo, fake news é um prejuízo”, avalia o médico.

A orientação quando receber alguma informação “nova” é de buscar esclarecimentos médicos.

“Qualquer informação precisa ser esclarecida com o profissional médico. Ele sim tem capacidade de esclarecer qualquer dúvida. A automedicação ou qualquer outra decisão sem informação pode gera um mal à população”, defende João Lourival.

O Ministério da Saúde dispõe de um canal de comunicação que esclarece possíveis dúvidas dos brasileiros em relação aos temas de saúde pública. Desde o ano passado, além do monitoramento nas redes sociais, a pasta dispõe de um número de WhatsApp para esclarecimento.

O médico João Lourival reforça que as redes sociais são espaços que podem contribuir para a disseminação de “alternativas” que geram riscos. “É muito comum o uso de terapias alternativas sem comprovação, porque ouviu dizer, assistiu, alguém usou. A gente sempre sofreu, a população sempre sofreu o mal uso da informação e a força que a internet chega às pessoas isso se tornou ainda mais relevante”, avalia.

Ontem (4), a Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3842/19, que estabelece pena de detenção de um mês a um ano para quem deixar de vacinar criança ou adolescente.

Combinação de fatores

Consultado pela reportagem, o doutor em Ciências da Comunicação Júlio Arantes destaca que as fake News são consideradas um grande problema da comunicação atual porque se relaciona com diversos fatores.

“As fake news são um grande problema da comunicação hoje em razão de uma combinação de fatores que faz com que possamos observar esse grande problema que surgiu. É uma combinação de fatores porque ela não é só a propagação de um fato incorreto, ou de uma mentira, é uma combinação de fatores no sentido que se origina em razão de múltiplos fatores de propagação”, avalia.

No tocante à saúde pública, Arantes aponta uma problemática que envolve a credibilidade de informações apenas pela quantidade de vezes que foi compartilhada ou recebida, por exemplo.

“Isso se reflete em vários campos, o da saúde pública é um deles. Junto com essa problemática da capacidade limitada de avaliar o conteúdo que trafega em mídia digital a gente tem movimentos organizados em torno da defesa de determinados assuntos ou pelo menos enfrentamento de um determinado assunto que era considerado pacífico, como é o caso da vacinação. Temos grupos organizados, conservadores, ligados a determinadas linhas de pensamento político que contestam o uso da vacinação, a importância da vacinação e dizem uma série de barbaridades. Como a gente tem essa combinação de fatores, uma ação organizada em torno da difusão de informações inverídicas sobre um determinado assunto e a gente tem um público que vai lidar com essas informações quase que de forma automatizada, recebi e vou repassando, deve ser verdade porque recebi do WhatsApp, fulano também mandou, então a credibilidade vai se construindo nessa rede não oficial de informações, muitas pessoas vão dizendo e aquilo vai ganhando um caráter de verdade. Isso tem efeito devastador em algumas áreas, na saúde pública tem efeito muito nocivo, porque as pessoas podem não se vacinar, doenças podem voltar a aparecer e isso tem um terreno bom para se propagar a medida que consideramos esses fatores”, avalia.

Para o doutor em ciência da comunicação, a falta de regulação e controle das redes sociais no país contribuem de forma significativa para a proliferação dos ambientes de fake news.

“Não temos mecanismos para fazer com que um aplicativo, seja o WhatsApp, instagram ou qualquer outro, estejam sujeitos à normas vigentes em nosso país. Os usuário quando entram no aplicativo começam a usar, concordam com os termos do aplicativo, funciona assim. Não temos mecanismos legais para controlar o uso das aplicações e de como elas funcionam de fato. A outra questão central se dá pelo fato que a inclusão digital do brasileiro se dá de forma tardia. Nós não passamos, a grande massa da população que usa smartphone não foi acompanhando esse desenvolvimento do uso das mídias digitais de forma progressiva. Uma pequena parcela acompanha desde o surgimento da internet. Outra grande parcela, que é a maioria da população, já chega nesse ponto de uso dos aplicativos de paraquedas. Já conhecia a internet, sabia que existia mas não faz uso diário, e começa de forma tardia. O processo de educação para uso, no sentido amplo, dessas mídias digitais e das questões que envolvem o uso das mídias digitais é algo que o brasileiro não foi educado, não teve a possibilidade de discutir ou acompanhar o debate”, defende Júlio Arantes.

Fonte: Evellyn Pimentel / Tribuna Independente

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