Saúde

22 de junho de 2019 09:16

Campanha recebe cabelos e doa perucas a quem se trata de câncer

Salões de beleza de Maceió realizam ações pontuais para levar autoestima de pacientes em tratamento da doença

↑ Andrezza, dona de centro de estética e salão, teve caso na família e diz que é possível tratar câncer e cuidar autoestima (Foto: Adailson Calheiros)

Ser diagnosticado com um câncer não é tarefa fácil para ninguém. Entre tantas inquietações que chegam à mente a partir da confirmação da doença e definição do tratamento, é encarar a perda dos cabelos na maioria dos casos que costumam acompanhar a quimioterapia.

É comum que, ao enfrentar esse processo, a mulher e também crianças sintam-se desanimados. Mas esse processo, apesar de complicado, não deve interferir na vontade de explorar o visual, de se arrumar e se sentir bonita. E foi pensando em driblar a tristeza dessas pessoas que alguns salões de beleza de Alagoas realizam campanhas pontuais de doação de cabelos.

É um gesto de amor e carinho que traz de volta a esperança e o sorriso de vítimas de câncer. Para Andrezza Lino, proprietária de um centro de estética e salão de beleza, é possível tratar o câncer e continuar se preocupando com a autoestima. Ela iniciou a campanha devido à vivência com uma pessoa da família que foi diagnosticada.

“Em 2013, uma tia foi diagnosticada com a doença. A primeira consulta eu estava com ela. Até então, não sabíamos o que seria. Quando veio o diagnóstico após a biópsia, foi constatado o câncer. Foi um baque para a família. A consulta foi no interior. Te confesso que não havia um atendimento humanizado. Mas o tratamento foi iniciado e ela começou a perder o cabelo durante o processo. E sentia que ela ficava com a autoestima pra baixo”, conta Andrezza, ao acrescentar:

“Eu não tinha condições de comprar uma peruca, então dava lenços para usar, mas sentia que não era isso. E uma peruca de cabelos humanos é muito cara, chega a custar entre mil a mil e duzentos reais. Hoje, graças a Deus, minha tia superou a doença”, completa Andrezza.

A proprietária do centro de estética comenta que, por passar por essa experiência com a tia e na época não poder ajudar, foi muito triste. “Ela superou a doença. Tem muita gente passando por este tratamento, esta fase da queda do cabelo. Se agora eu posso ajudar, porque não fazer. Como já estava com este pensamento, resolvi colocar em prática. Entrei em contato com outro salão que aderiu à campanha e começamos a arrecadar os cabelos. Confesso que é um pouco difícil, mas, aos poucos, estamos conseguindo. Pretendo deixar a ação permanente”, explica.

“Quem quiser doar o cabelo, pode nos procurar de segunda a sábado, ficamos localizado na Galeria Boulevard, na principal do Murilópolis, no bairro da Serraria. Aceitamos doação a partir de 10cm e segue até o dia 30 de junho. E como incentivo estamos oferendo um corte e a hidratação. Quem também já tem o cabelo em casa para doar pode trazer aqui e, se quiser, podemos fazer um corte ou aparar o cabelo, da mesma forma como se estivesse cortando aqui”, explica a proprietária.

Andrezza explica que a ideia é fazer uma peruca por mês e doar às instituições de referência ao tratamento da doença. “Iremos à instituição e junto ao serviço social do órgão procurar fazer a triagem de alguém que esteja com a necessidade, esteja preocupado com o tratamento e, enfim, faremos esse processo. A ideia é fazermos uma peruca por mês”.

Ação do salão de beleza atrai potenciais doadores

A ação do salão chamou a atenção da empresária e estudante Maria Júlia Diniz, que confessou que já fazia um tempo que queria doar o cabelo. “Já faz um tempo que queria doar. É um gesto muito bonito e simples, que vai ajudar outras pessoas. Não tinha feito antes porque não sabia como fazer, onde deixar. Muitos salões não fazem este tipo de campanha. Vi a ação nas redes sociais e vim. Sei que essa atitude vai deixar alguém feliz”, disse Maria Júlia.

Já Katrinfiny Melo está com o cabelo guardado em casa para fazer a doação. “Moro no interior. Por aqui, os salões não fazem arrecadação. Mas, como tenho vontade de doar, estou com a mecha em casa, porque penso que se fosse eu que estivesse doente, fazendo um tratamento desses, queria que tivessem pessoas que se colocassem no meu lugar. E uma atitude assim é importante porque além de estar ajudando a autoestima de alguém, demonstramos carinho ao próximo”, diz Katrinfiny.

Empresária se emociona com engajamento da filha

A empresária Sheila Vieira Melo conta, emocionada, que, por conta própria, sua filha Beatriz Melo Miranda Paes, com oito anos na época, resolveu cortar o cabelo e disse que queria doar. “Eu fiquei muito emocionada com a atitude dela. Fiquei admirada com a evolução espiritual porque desde pequena, ela mostra sua personalidade e sentimento ao próximo. Ela decidiu cortar o cabelo curto, eu achei que seria no ombro, e ela quis na nuca. E disse que seria doado para crianças ‘doentinhas’”, conta a empresária.

“Naquela ocasião eu tentei argumentar com ela, mas não teve jeito, já estava decidida. Pense no orgulho. E hoje, com 13 anos, ela já está deixando o cabelo crescer novamente para doar. Estamos com a mecha em casa em busca de um local que de fato utilize o cabelo para este fim. Nossa preocupação é com isso”, completa a mãe de Beatriz.

Edna Prado, professora universitária também já fez a doação. “Tenho um trabalho com crianças com câncer. Doei porque fiquei sensibilizada com a situação das crianças e adolescentes que são atendidas por um projeto de extensão que eu coordeno na Universidade Federal de Alagoas’’.

A professora conta que fez a doação na semana que antecedeu o Natal de 2018. “Doar parte do cabelo é um simples gesto de solidariedade. É muito pouco diante do que as crianças precisam, mas com certeza ajudará alguém a melhorar a autoestima. Eu doei para a Organização Não Governamental Fios de Anjo”, destaca Edna.

Instituições também recebem doações

É fato que as mulheres gostariam de utilizar perucas durante o tratamento, porém algumas não têm acesso às indumentárias, muitas vezes em função de seu alto custo.  E, ao mesmo tempo, existe cada vez mais gente interessada em doar as madeixas cortadas a fim de ajudar pacientes oncológicos, mas não sabem como fazer isso. Nem somente os salões recebem, mas  também algumas instituições.

Em Maceió, algumas instituições como o Grupo Mama Renascer e a Rede Feminina de  Combate ao Câncer recebem doação de cabelos e enviam para salões especializados em confecção das perucas.

“As campanhas de doação de cabelos geralmente são realizadas no Outubro Rosa, mas alguns salões fazem durante o recorrer do ano paralelamente. Mas confesso que não é muito comum. A gente recebe na instituição de pessoas físicas que levam até a gente. Têm pessoas que fazem por se sentirem sensibilizadas porque conhecem ou houve casos na família”, explica Naydja Reis, presidente da ONG Mama Renascer.

Lenilza Alves Pino trabalha há 30 anos no ramo da beleza e há três começou a confeccionar perucas (Foto: Adailson Calheiros)

Lenilza Alves Pino trabalha há 30 anos no ramo da beleza e há três começou a confeccionar perucas. Assim como as demais personagens, para ela a ação é um gesto de amor ao próximo. “Eu confecciono as perucas a partir dos cabelos doados na ONG. No momento estou com essas três perucas que são da ONG. Realizo a partir da demanda. Às vezes passo dois a três meses sem fazer nenhuma. Estas estão quase prontas. Eu adquiri uma máquina para realizar a confecção, porém o resultado não foi o esperado. Utilizo-a e faço os retoques à mão fio a fio, para ficar o mais natural possível”, disse a voluntária.

Banco de perucas é esperança contra perda

No segundo semestre o Grupo Mama irá levar o banco de perucas para Hospital Universitário (HU) onde será disponibilizado uma vez por mês para quem tenha a necessidade poder utilizar.

“É muito importante ter um serviço de banco de perucas porque muitas mulheres, porque a maioria delas tem muita dificuldade com a queda do cabelo. Elas ficam com baixa autoestima, perdem um pouco a identidade. Para algumas, a perda do cabelo é mais sentida a perda da mama. O primeiro impacto da perda do cabelo é muito forte. Mas estamos recebendo muitas doações atualmente e são sempre bem-vindas essas ações”, ressalta Naydja Reis.

Para ela, a maior dificuldade no momento é a confecção das perucas. “Só temos uma pessoa que produz a peruca para nós. O custo de se fazer é muito caro. Além disso, não temos como fazer a peruca apenas com um cabelo. São vários para fazer uma única peruca. A nossa voluntária realiza a confecção, mas ela tem os afazeres dela”, justifica.

ESPERANÇA

Para a comerciante Jacqueline Kely da Silva Lima, que foi diagnosticada com um câncer no dia 18 de fevereiro de 2017, este tipo de ação é para ser parabenizada.

“Meu cabelo começou a cair com 10 dias após a primeira aplicação de quimioterapia. Foi uma das piores fases para mim do meu tratamento ver meu cabelo caindo; é uma sensação horrorosa. Nunca fui de ter a autoestima elevada. Mas depois do câncer, tive que procurar ter. No mesmo dia que cortei o cabelo baixinho, pois não tive coragem de raspar, chorei. Meu esposo, minha irmã e até a cabeleireira choraram comigo. Mas tinha que ser forte. No mesmo dia no salão eu disse até que fiquei bonitinha. E comecei a usar lenços e toucas até que um dia encontrei o grupo Renascer e elas me presentearam com uma peruca, não usei por muito tempo, pois estava acostumada com minhas toquinhas e lenços. Usei a peruca em ocasiões especiais e ajuda muito na autoestima, a gente se sente super bem”, conta.

Kely comenta que no caso dela levou a doença de boa. “Nunca sinceramente pensei em morrer, mas tinha medo do tratamento como seria e como ficaria diante de amigos, conhecidos e familiares. Também tinha medo de ver meus cabelos caindo. Apesar do tratamento ser sofrido temos que levantar a autoestima e a doação de peruca ajuda a muitas mulheres a se sentirem bem diante das pessoas e nos lugares. Nos sentimos mal com os olhares das pessoas”.

APALA

A Associação dos Pais e Amigos dos Leucêmicos de Alagoas (Apala) tinha uma campanha até 2016 que recebia doação de cabelos. Mas após montar o Banco de Perucas, a campanha foi encerrada. “Resolvemos encerrar a campanha porque não conseguimos fechar parcerias para o pagamento da confecção, que à época custava em torno de R$ 1.500,00 cada uma. Durante a nossa campanha e até hoje, quando realizamos a cessão das perucas, percebemos a importância de trabalharmos a elevação da autoestima tão afetada no processo do adoecimento, mesmo observando que, muitas vezes, o desejo de peruca é do acompanhante e não da criança, pois elas não têm tanto apego aos cabelos. Elas são livres e acreditam que é só uma fase e logo, logo elas terão cabelos novamente”, informou a assessoria da instituição.

 

Fonte: Tribuna Independente / Lucas França

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